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O Liberal (PA)

Brasil investe R$ 8 mi para decifrar genoma de bactéria

Publicado em 27 dezembro 2000

O governo brasileiro vai investir R$ 8 milhões em estudos para decifrar o código genético da bactéria Chromobaterium violaceum. A metade dos recursos servirá para equipar 25 laboratórios que participarão do projeto e o restante, para financiar o trabalho. O seqüenciamento do genoma, como é chamado o processo, é a transcrição de todas as "letras químicas" do DNA de um ser vivo. À escolha do tema foi feita pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) com base em estudos iniciais que apontam para a possibilidade de usos importantes da bactéria. "Segundo algumas pesquisas, ela pode ser eficaz no tratamento de endemias, como a doença de Chagas e a leishmaniose", afirmou o ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg. Além disso, os pesquisadores indicam a possibilidade de a bactéria ser usada na fabricação de plásticos biodegradáveis. Chagas - De acordo com Tânia Creczynski-Pasa, professora da Universidade Federal de Santa Catarina, que propôs o estudo, um pigmento da bactéria, chamado violaceína, tem o poder de matar o tripanossoma, protozoário que causa a doença de Chagas. Da maneira que está na natureza, o pigmento é tóxico. "Com estudos poderemos fazê-lo matar o parasita sem matar a célula", disse Tânia Sobre a leishmaniose, a professora disse que ainda não há estudos aprofundados, apenas indícios. É o mesmo caso do possível uso contra o câncer. "Por enquanto, podemos dizer que a bactéria tem propriedades para combater tumores". A pesquisa com a Chromobaterium violaceum faz parte do Programa Nacional de Biotecnologia, que deverá ser anunciado, em janeiro de 2001. O Seqüenciamento genético da bactéria será a primeira parte do programa. No início deste ano, o Brasil já havia anunciado a identificação do código genético da Xylella fastidiosa, bactéria que provoca uma praga nos laranjais, conhecida como amarelinho. A pesquisa, no entanto, foi financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), não pelo governo federal. "O Brasil mostrou que tem capacidade científica para trabalhar com a biotecnologia. Nós agora não temos interesse em ficar para trás", disse Sardenberg. PESQUISA SERÁ FEITA EM ETAPAS O governo deverá investir mais R$ 50 milhões na pesquisa de biotecnologia em 2001. Na primeira fase, os pesquisadores terão um ano para identificar o código genético da bactéria e analisá-lo. Os 25 laboratórios escolhidos para trabalhar no projeto -entre eles a Fundação André Tosello, de Campinas, e o Departamento de Biologia Celular, Molecular e Bioagentes Patogênicos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP> terão de decodificar uma parte do DNA da bactéria Os equipamentos necessários -chamados seqüenciadores de DNA- estão sendo importados. "É uma facilidade que existe nesse projeto. Podemos fazer a divisão do genoma e trocarmos as informações por meio eletrônico", disse Andrew Simpson, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e coordenador-geral do projeto. Simpson prevê que ó seqüenciamento deverá estar pronto nos primeiros meses de 2001. A análise dos dados deve levar mais tempo, mas o pesquisador acredita que os resultados deverão sair antes do final do próximo ano.