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Brasil ignora debate ambiental para a Copa, dizem pesquisadores

Publicado em 11 novembro 2010

Por Monica Gimenez

Você se preocupa com as mudanças climáticas? Antes de responder a essa pergunta, é preciso levar em conta que este termo "mudanças climáticas" não inclui apenas fatores que provocam calor e frio exagerado, ou, então, alteração no volume e na frequência de chuva. Esse é um assunto que interfere na política brasileira e mundial.

O assunto foi tema de um dos debates promovidos pela CPFL Cultura esta semana, que discute questões estruturais e ambientais relacionadas à Copa do Mundo de 2014, que terá sede no Rio de Janeiro. Um público jovem e pesquisadores da Unicamp participaram do debate na noite de quarta-feira (10). Os pesquisadores-debatedores convidados foram José Eli da Veiga, coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental da USP, e Eduardo Viola, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

Estamos prontos para receber a Copa do Mundo?

Viola acredita que os investimentos feitos no Brasil para a Copa do mundo comprovam a ineficiência governamental do país e ressalta que as obras previstas para receber o evento são de grande porte, de forma a gerar uma visibilidade para os autores destes projetos. Como exemplo, ele cita o Trem Bala, que promete ligar Campinas a São Paulo e ao Rio de Janeiro. "Se ainda não temos um investimento deste é porque não temos estrutura", pontua Viola.

"As obras previstas para a copa já poderiam prever baixa emissão de gás carbônico, mas ninguém sugere isso, enquanto estão preocupados com questões de política interna", afirma Veiga. Ele acredita ainda que o Brasil vai se constranger diante do mundo proporcionando eventos esportivos de grande porte com a estrutura que o país tem. "Não temos como dar exemplo, vamos nos constranger quando o mundo vier nos visitar", conclui o professor.

O que é mudança climática?

O coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental da USP acredita que o uso da expressão "mudança climática" afasta e diminui qualquer interesse do público em discutir a questão, que ele defende ser essencial para a evolução mundial. "Me surpreende e me desanima constatar que durante as eleições deste ano a questão ambiental não tenha sido discutida. Isso significa que a maioria dos candidatos não tem projetos para esta área?", questiona Veiga.

Descarbonização

Uma das formas de buscar um controle para a questão das mudanças climáticas é a descarbonização, ou seja, evitar ou reduzir a emissão de gás carbônico, um dos fatores responsáveis pela poluição. Isso pode ser feito através do controle das queimadas, do desmatamento e reduzindo a poluição urbana. "A questão é que a poluição urbana corresponde apenas a 20% de todos os fatores que interferem na poluição",explica Veiga. "Uma solução para esse problema não depende de ações individuais, e sim de ações políticas, que alterem leis e levem o coletivo a respeitar o meio ambiente", completa Viola.

Essa é a precupação de Gabriela Faria Asmus, aluna do doutorado do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp. Ela faz parte de um projeto da Fapesp que avalia a vulnerabilidade do meio ambiente diante das mudanças climáticas. "Acho importante participar de discussões como essa, para que as nossas preocupações com o meio ambiente e o clima não fiquem restritas ao meio acadêmico e, assim, possam circular pela sociedade" diz Gabriela.

Conscientização

Durante o debate, os pesquisadores concordam que ao longo dos últimos anos houve uma conscientização global em relação ao problema do meio ambiente e do clima, mas que ainda falta empenho. "Em 2007, o mundo tratava a reversão das questões ambientais como se isso fosse um grande sacrifício. Hoje já parece ser uma necessidade", conclui Veiga.