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Brasil ganha Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (49 notícias)

Publicado em 23 de maio de 2025

Você sabia que, além do português, mais de 175 línguas indígenas ainda são faladas no Brasil? Muitas delas, no entanto, correm o risco de desaparecer — levadas pelo tempo, pelo descaso e pela perda de espaço de suas culturas de origem. Pensando nisso, duas instituições paulistas resolveram agir.

O Museu da Língua Portuguesa (MLP) e o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP) se uniram para criar o Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, um projeto ambicioso e necessário que pretende ouvir, registrar, respeitar e celebrar a diversidade linguística e cultural dos povos originários do país.

O lançamento oficial aconteceu no último dia 20 de maio, no auditório do MLP, com a presença de ninguém menos que a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara — uma das vozes mais potentes nessa luta. O projeto é financiado pela FAPESP, com um investimento de R$ 14,5 milhões, e terá duração inicial de cinco anos.

Um Brasil que fala muitas línguas

Apesar da riqueza, cerca de 20% das línguas indígenas brasileiras nunca foram estudadas. Muitas delas são transmitidas apenas oralmente, dentro das comunidades, de geração em geração — e correm risco de desaparecer se não forem documentadas. Por isso, o novo Centro surge como um espaço de escuta e de cuidado, reunindo pesquisadores, especialistas indígenas, linguistas, antropólogos e também tecnologia de ponta.

Mais do que apenas preservar, o objetivo é dar visibilidade a esses saberes, modos de viver e expressar o mundo — registrando em texto, áudio e vídeo as vozes, os sons, as histórias, as receitas, os rituais e as memórias que fazem parte da identidade indígena brasileira.

Como vai funcionar?

O trabalho do Centro será dividido em três frentes principais:

  • Pesquisa e documentação junto às comunidades, sob demanda e interesse delas;

  • Criação de um repositório digital gratuito, que reunirá coleções linguísticas e culturais;

Ações de mediação e difusão cultural, com seminários, oficinas, exposições e programas educativos.Duas mulheres lideram esse processo como pesquisadoras principais: a antropóloga Maria Luisa Lucas e a linguista Luciana Storto. Além disso, haverá seleção de 14 bolsistas de graduação e pós, e 5 técnicos — com incentivo especial à participação de candidatos indígenas.

Um passo além da academia

Para o MAE-USP, a parceria representa uma chance de ampliar o acesso aos mais de 150 mil objetos indígenas que compõem seu acervo, mas também de ouvir novas narrativas: “Vamos formar coleções digitais em conjunto com os próprios pesquisadores indígenas. É uma nova forma de pensar o que é memória e patrimônio”, explica o diretor Eduardo Góes Neves.

No Museu da Língua Portuguesa, a iniciativa é vista como continuidade de uma trajetória iniciada em 2022, com a exposição Nhe’ẽ Porã – Memória e Transformação, com curadoria de Daiara Tukano. “As línguas não são apenas instrumentos de comunicação. Elas são mundos inteiros”, resume Renata Motta, diretora executiva do museu.

Em sintonia com o mundo

O projeto também faz parte da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), instituída pela ONU e liderada pela UNESCO, que visa chamar atenção global para a urgência de proteger esses idiomas e saberes ameaçados. O Brasil, com sua pluralidade única, tem muito a contribuir — e, mais do que isso, muito a aprender.

“Ciência e tecnologia precisam caminhar de mãos dadas com o conhecimento ancestral. É isso que permitirá que as línguas indígenas não apenas sobrevivam, mas continuem sendo o que sempre foram: uma forma de viver, de ensinar e de pertencer”, afirma Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.

Para saber mais linguaseculturasindigenas.org.br