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Tribuna de Minas

Brasil estuda vacina contra câncer

Publicado em 18 agosto 2001

Por CLEIDE CAVALCANTE - AGÊNCIA ESTADO
Um projeto pioneiro no Brasil está em andamento no Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o laboratório de Patologia Cirúrgica e Molecular do Hospital Sírio Libanês. Um grupo de cerca de 15 especialistas trabalha num estudo piloto para o desenvolvimento de uma vacina contra o câncer. O trabalho experimental brasileiro, patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que teve início há cerca de um ano, tem como base um outro publicado no ano passado na Alemanha, na revista "Nature Medicine". "Este trabalho dos cientistas alemães tratou de 17 pacientes com câncer de rim, em fase metastática", informa o professor doutor de imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), José Alexandre Marzagão Barbuto, consultor científico do Sírio Libanês e coordenador do estudo brasileiro. TESTES Dos 17 pacientes testados, quatro tiveram o desaparecimento total da doença, num período de um a seis meses. E por dois anos quando o protocolo foi publicado, não houve sinal de recidiva. Em outros quatro doentes, a resposta foi parcial, ou seja, a doença regrediu 50%, e em apenas um, verificou-se que todas as lesões tumorais desapareceram e somente uma delas evoluiu. "Como se pode observar, os resultados foram realmente promissores", analisa Barbuto. No Brasil, até o momento, 13 voluntários participam do protocolo. São também vítimas de câncer de rim ou melanoma os tipos que melhor respondem a um processo imunoterapêutico, conforme Barbuto -, a maioria já passou por cirurgia ou algum outro tipo de tratamento que não obteve sucesso. Ainda é cedo para anunciar qualquer resultado, verifica o especialista. "Mas posso adiantar que na maior parte dos pacientes que participa do protocolo brasileiro, a doença estagnou. Eles tomaram pelo menos uma dose da vacina. Cinco voluntários já passaram da primeira fase da pesquisa, de cerca de três meses". Conforme Barbuto, apesar de não haver nenhuma indicação conclusiva acerca da vacina, há evidências laboratoriais bem positivas, mas, na prática, o processo necessita de mais tempo para que -possa evoluir e mostrar resultados efetivos. Uma dose da vacina é ministrada a cada seis semanas. O período de tratamento, porém, depende da quantidade de células tumorais que foram colhidas para produzir a vacina. Segundo o cientista, a técnica já apresentou bons resultados quando testada em animais e, no futuro, pode ser pesquisada para outros tipos de câncer. A vacina, esclarece Barbuto, é para o tratamento da doença, não é preventiva." O "truque" da vacina, ressalta Barbuto, é justamente a utilização de células dendríticas, células do sistema imunológico, que conseguem detectar qualquer anomalia sistêmica e avisar ao organismo para que este providencie uma resposta. "O problema é que o câncer consegue enganar o sistema, ele engana as células dendríticas e não as deixa mostrar a anomalia. Outro fator limitante é que as células dendríticas são poucas, é difícil encontrá-las no organismo. Ela é fabricada na medula óssea, junto com as do sangue; é rara em tecidos, sendo mais freqüente nos órgãos do sistema imunológico", observa. Entretanto, completa, o trabalho com as células dendríticas não é novo, já é conhecido há pelo menos 20 anos. AVANÇOS O Projeto Genoma, que fez o mapeamento dos genes, e o conseqüente avanço da engenharia genética foram, sem dúvida, um passo considerável. Muitas limitações foram transpostas. "No entanto, a medicina ainda não desvendou todos os detalhes. Sabe-se muita coisa, por exemplo, da biologia da célula tumoral, mas ainda há muito para ser revelado", diz Barbuto. "Há vários tipos de câncer, isso quer dizer que duas pessoas podem ter câncer no rim, mas o tipo do mal pode diferir de um paciente para outro. A célula cancerosa tem cara própria, evoluiu de uma forma diferente das demais; se divide quando não deveria se dividir, cresce onde não deveria crescer e não morre quando deveria morrer." Hoje, acrescenta Barbuto, os cientistas que trabalham na pesquisa de uma vacina para o combate ao câncer, fazem praticamente as mesmas perguntas: "Será que consigo identificar os doentes que irão se beneficiar deste tratamento? Será que é possível perceber a falha ou o sucesso do tratamento antes de sua manifestação macroscópica? Será que o conhecimento de mais detalhes das células afetadas pode ajudar nesta identificação?" "Todo mundo, enfim, está procurando acertar. Em algumas situações, este conhecimento já pode, de fato, indicar quais pacientes podem se beneficiar ou não com um determinado tratamento. O avanço científico está ampliando nosso horizonte, com novas e importantes possibilidades terapêuticas." PROCESSO DE PRODUÇÃO O primeiro passo para a produção da vacina é a retirada de fragmentos do tumor, que podem medir entre 2 e 3 centímetros. O material é enviado ao laboratório para que seja feita a suspensão celular, quando são isoladas células tumorais vivas, que serão congeladas em nitrogênio líquido. Depois disso, deve haver a doação de células do sangue precursoras das chamadas células dendríticas. O doador, um indivíduo sadio, fica ligado a uma máquina num processo semelhante à doação de plaquetas faz a separação das células. Estas células são colocadas em cultura por uma semana, estimuladas por substâncias conhecidas como citocinas. "Os pesquisadores ainda estudam qual a melhor combinação de citocinas para a cultura destas células. Estamos nos baseando no protocolo alemão para aperfeiçoar o método", salienta Barbuto. Ao final de uma semana, a célula do doador se transforma em uma célula dendrítica. Neste momento, completa Barbuto, é realizada uma fusão de células. "Num frasco, colocamos a célula tumoral e a dendrítica modificada. Elas são fundidas (por uma descarga elétrica) e, assim, conseguimos uma célula com o potencial estimulador do sistema imunológico das células dendríticas, além de apresentar as substâncias estranhas que caracterizam a célula tumoral." Desta forma, frisa o médico, o sistema consegue ser avisado de que substâncias estranhas estejam atuando no organismo. "Mas ainda estamos tentando melhorar o protocolo desenvolvido pelos especialistas alemães."