Notícia

DCI

Brasil estuda 200 proteínas para remédios

Publicado em 08 fevereiro 2003

Por Fabiana Pio
Duas redes de pesquisa formadas por 26 laboratórios nacionais estudam 200 proteínas para desenvolver remédios mais eficazes. Empresas multinacionais como GlaxoSmithKline, Aventis Pharma e Novartis já investem milhões de dólares nesse tipo de pesquisa. O desenvolvimento de medicamentos a partir da biotecnologia como soluções específicas de tratamento permitirá à indústria farmacêutica triplicar seu valor de mercado até 2010, e obter um crescimento anual de 9%. Caso contrário, ela irá expandir apenas 5,3% ao ano e assistir à contínua depreciação de seu valor, segundo Daniel Henrich, consultor da IBM Business Consulting. Segundo Henrich, com esse novo modelo é possível reduzir o tempo entre a identificação e o lançamento da medicação de 10 a 12 anos para 3 a 5 anos, diminuir de 50% a 66% o tempo de desenvolvimento do medicamento e cortar drasticamente os custos de pesquisa e desenvolvimento por remédio para 25% da atual média de US$ 800 milhões. O professor Rogério Meneghini coordena a Rede de Biologia Molecular Estrutural formada por 16 laboratórios no Estado de São Paulo. Essa rede é financiada Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e recebeu recursos de US$ 3,5 milhões para um período de quatro anos de pesquisa. Há ainda uma rede composta por 10 laboratórios situados fora do Estado de São Paulo, que recebem financiamentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Fundo Verde e Amarelo. Meneghini também é diretor do Centro de Biologia Molecular Estrutural do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que detém as mais avançadas tecnologias nessa área. O LNLS, em parceria com a Bélgica, já patenteou a estrutura da proteína interleucina 21, que tem importante atuação no processo inflamatório. "Estamos aguardando o interesse da indústria farmacêutica para o desenvolvimento de um medicamento", diz Meneghini. Além dessa proteína, o LNLS pesquisa doenças tipicamente tropicais, como hepatite B, dengue e leishmaniose. Outros grupos estudam também as variações brasileiras do vírus HIV. E a Universidade de São Paulo em São Carlos pesquisa a Doença de Chagas e detém parcerias com laboratórios nacionais para a pesquisa de outras proteínas, que não foram reveladas. "Enquanto uma multinacional investe 15% de seu faturamento em pesquisa e desenvolvimento nessa área, os investimentos brasileiros não chegam a 5%", diz Ricardo Garrat, coordenador de inovação do Instituto de Física da USP de São Carlos. Para Meneghini, a parceria entre universidade e empresa no Brasil é essencial para o desenvolvimento de medicamentos para tratamentos específicos. "A instituição acadêmica pode chegar a uma estrutura, desenhar o medicamento, sintetizá-lo e entregá-lo à indústria. Os testes clínicos são mais caros, que somente a indústria teria condições de fazer", diz Meneghini. MÉTODO TRADICIONAL TEM BENEFÍCIOS LIMITADOS Atualmente, os medicamentos desenvolvidos são eficazes apenas em 60% dos casos, segundo Daniel Henrich, consultor da IBM Business Consulting Services. Para Henrich, os genomas permitirão que a indústria entenda e defina doenças com maior precisão. As empresas que estiverem dispostas a enfrentar os desafios de fornecer soluções para tratamentos específicos precisarão sofrer uma transformação em nível fundamental. Isso significa uma grande transição para um universo mais biológico que químico - ou seja - uma nova maneira de pesquisar e desenvolver novos tratamentos.