Notícia

Jornal da Tarde

Brasil está ultrapassado em inovação

Publicado em 11 setembro 2008

Estudo inédito do Banco Mundial diz que ensino básico precário é um dos causadores do atraso

O Brasil está ficando para trás na comparação com outros países em desenvolvimento quando se trata de converter conhecimento em resultado prático na indústria. No contexto atual, o conhecimento é o elemento central para um país ter vantagens competitivas. O País só avançará quando educar melhor sua população.

A conclusão é de estudo inédito do Banco Mundial, que será divulgado hoje em seminário da Fundação Lemann, que aponta os causadores da deficiência brasileira: ensino básico precário, que resulta em profissionais pouco qualificados, universidade distante do setor produtivo e voltada mais para conhecimento teórico do que prático e tradição em importar e adaptar tecnologias, em vez de criá-las.

“O Brasil está publicando pesquisas em um ritmo aceitável, tendo hoje 2% das pesquisas de revistas e jornais internacionais. Mas em patentes está baixo, menos 0,04% das patentes internacionais são brasileiras”, diz Alberto Rodriguez, um dos autores do estudo, que está no País para lançar o material.

“Há a necessidade de que a pesquisa feita na universidade e nos laboratórios sejam mais voltados para aplicações práticas e menos para a teoria. E há excessiva falta de investimento do setor privado em pesquisa e desenvolvimento.”

Segundo Rodriguez, enquanto outros países em desenvolvimento, como China, Índia e Coréia, estão se transformando em produtores de conhecimento graças a investimentos na formação de pesquisadores em áreas tecnológicas - e com isso alavancando sua economia -, o Brasil segue dependente de seus bens naturais, crescendo num ritmo menor. “Apenas 19% dos estudantes de ensino superior no Brasil estão nas áreas de ciências e engenharias. No Chile, por exemplo, são 33% e na China, 53%”, diz o estudo.

Segundo levantamento feito pelo Núcleo de Inovação Tecnológica da Unesp com base em dados do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, hoje as universidades representam 0,78% do total de depositantes de patentes no País, que tem cerca de 50 mil pesquisadores.

A assessora da pró-reitoria de pesquisa da Unesp, Tânia Regina de Luca, reconhece a necessidade de as universidades investirem em inovação para incorporação pelo setor produtivo, além da transformação do conhecimento científico em conhecimento técnico e gerencial. “Não podemos negar que isso contribui para o crescimento do País.”

“Temos de manter relações próximas às indústrias, mas não podemos deixar de lado a autonomia das universidades. Nossa preocupação é com o conhecimento e às vezes a empresa está mais preocupada com a gestão do conhecimento para gerar lucro.”

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, ressalva que um dos motivos para o descompasso entre indústria e academia é a falta de doutores trabalhando em pesquisa nas empresas. “A universidade muitas vezes não tem com quem dialogar na empresa.”

Treinamento certo

Alberto Rodriguez cita o exemplo de que os países precisam de pessoas que consigam ler o manual da máquina que chegou de fora para melhorar o processo produtivo em que participa

A má qualidade do ensino público impede a competitividade. Muitas empresas do País investem em treinamento para sanar problemas de leitura em vez de focar em treinamento para inovação.