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O Estado RJ online

Brasil está prestes a lançar coração artificial

Publicado em 28 agosto 2012

Por Davi Rampazzo

A medicina brasileira é, hoje, uma referência quando o assunto são cirurgias plásticas e tratamentos de recuperação esportiva, mas não será uma surpresa se daqui a poucos anos o País também se torne um modelo no tratamento de doenças cardiovasculares por meio de transplantes não convencionais.

A equipe do engenheiro Aron de Andrade, do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese, está próxima de concluir um passo ambicioso na medicina ao apresentar o primeiro coração artificial feito no Brasil. Mesmo que o coração artificial não seja uma novidade, o protótipo brasileiro promete revolucionar a medicina moderna por sua praticidade. O protótipo é feito de poliuretano e pesa menos de 1 kg. Desde 1998, Andrade trabalha no Instituto Dante Pazzanese criando o projeto inicial que chega à fase final entre os próximos dois anos.

Além de ser muito mais leve que outros corações artificiais já presentes no mercado, o modelo brasileiro possui alguns diferenciais. O coração não precisa ser removido para uso do órgão artificial, que funcionará como um auxiliar, ajudando a bombear o sangue - daí o nome Coração Artificial Auxiliar (CAA). De acordo com Andrade, o órgão sintético pode ser uma solução permanente, mas a intenção não é essa. O intuito é usar o protótipo em pessoas que estão na fila de espera para um coração até o órgão chegar.

Outro aspecto que o torna bem mais atraente aos olhos governamentais é o preço de fabricação. Segundo a Agência Brasil, a produção do coração custou entre R$ 60 mil a R$ 90 mil. Fora do Brasil, corações artificiais podem chegar a mais que o triplo desse valor. A verba do projeto vem do Ministério da Saúde, Hospital do Coração de São Paulo, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Como funciona?

Dentro do protótipo há um pequeno motor elétrico que, ao girar, ativa um eixo. Este, por sua vez, impulsiona os diafragmas do órgão artificial, possibilitando o bombeamento de sangue. O coração auxiliar possui quatro válvulas (duas para cada câmara de bombeamento).  O ventrículo direito de nosso coração bombeia o sangue venoso para o pulmão para oxigenação, enquanto o ventrículo esquerdo é responsável por levar o sangue arterial à aorta, que o distribui para nosso organismo.

Ainda segundo com Andrade, é mais comum pacientes possuírem problemas em apenas um ventrículo do coração, mas existem casos em que os dois ventrículos estão comprometidos. O CAA funciona em ambas as situações.

O protótipo se mantém funcionando por meio de uma pequena bateria que deve ser trocada a cada duas horas. Ligado à bateria está um controle para uso de ajuste médico e o fio que a conecta ao órgão artificial. Um pequeno orifício na pele é feito para dar passagem ao cabo conector.

Testes e planos futuros

Entre 1998 e 2000, o engenheiro Aron Andrade desenvolveu o primeiro protótipo; de 2000 a 2002, a equipe realizou testes agudos em carneiros - o coração sintético era implantado e depois retirado após algumas horas. De 2002 em diante, foram feitos testes crônicos em bezerros. A próxima etapa contará com os primeiros testes em humanos, e para isso, o projeto recebeu aprovação do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A princípio serão implantados 10 corações artificiais em pacientes do Hospital do Coração de São Paulo e do Instituto Dante Pazzanese. As 10 pessoas serão dividas em dois grupos de cinco, e o primeiro grupo terá implantes externos para uma melhor análise médica. "É menos prático e móvel, mas é pela segurança do paciente. Se houver algum problema, será mais simples de remover o aparelho", explica Andrade. No implante interno, o coração artificial fica em uma cavidade abdominal, abaixo do diafragma.

O projeto deve ser concluído em poucos anos. "Realizaremos os testes finais entre 2013 e 2014", estima Andrade. A ideia inicial é que o órgão artificial seja fornecido pelo SUS. "Depois, é começar a salvar vidas em outros hospitais, outra cidades e, quem sabe, até em outros países", conclui o engenheiro.

davirampazzo.oerj@gmail.com