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Brasil está em posição privilegiada como fornecedor de novos químicos

Publicado em 27 fevereiro 2010

Por Fábio Reynol

Agência Fapesp

Os produtos naturais foram fonte de cerca de metade dos compostos químicos descobertos entre 1981 e 2002. Nesse contexto, ao abrigar cerca 20% da biodiversidade mundial, o Brasil está em uma posição privilegiada como fornecedor de novos químicos, de acordo com especialistas presentes no Workshop Internacional Biota-Fapesp sobre Metabolômica no Contexto da Biologia de Sistemas, que aconteceu nesta semana.

Segundo Emerson Ferreira Queiroz, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Aché, a indústria farmacêutica tem reconhecido e valorizado cada vez mais a natureza como fonte de novas moléculas. Entre vários exemplos, citou a rapamicina, molécula obtida de uma bactéria encontrada na Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico.

O medicamento é utilizado como imunossupressor, prevenindo a rejeição de órgãos transplantados, especialmente os rins. O nome do princípio ativo foi dado em homenagem à ilha, que era chamada por seus nativos de Rapanui, disse.

Do mesmo modo, foi a partir da saliva do lagarto venenoso conhecido como Monstro de Gila (Heloderma suspectum) que surgiu um medicamento para o tratamento da diabetes tipo 2. E, a partir de um molusco marinho Conus magus, foi desenvolvido o ziconotida, um poderoso analgésico empregado para tratar dores crônicas.

Adriano Andricopulo, coordenador do Laboratório de Química Medicinal e Computacional do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo, outro palestrante no primeiro dia do workshop, concordou com o imenso potencial natural.

Com a grande diversidade biológica de nosso planeta, particularmente no Brasil, temos uma importante oportunidade para descobrir compostos que levem ao desenvolvimento de novos medicamentos para prevenir doenças e distúrbios que afetam o homem, disse.

Queiroz ressaltou a importância da Amazônia, mas afirmou que o país deveria prestar mais atenção em outros biomas. O Brasil tem muito mais do que a região amazônica. Há o Pantanal, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e os Pampas. Todos fontes inexploradas de moléculas para a indústria de medicamentos, disse.

Queiroz ressaltou que o desenvolvimento científico e tecnológico no setor farmacêutico evoluiu muito nos últimos anos, o que tem facilitado o desenvolvimento de novos medicamentos.

Hoje, já podemos criar estruturas aplicáveis a partir de 1 micrograma de uma substância descoberta. Quando comecei a carreira, eram necessários no mínimo 20 microgramas e, na época do meu pai, não dava para fazer uma estrutura com menos de 70 miligramas de material, comparou.

Andricopulo destacou que a mudança promovida na pesquisa de medicamentos da abordagem tradicional para uma baseada na genômica e na proteômica tem transformado estratégias fundamentais de pesquisa e desenvolvimento na indústria farmacêutica.

A descoberta de drogas é um processo altamente complexo e caro, que demanda esforços integrados em diversos aspectos relevantes envolvendo inovação, conhecimento, tecnologias, pesquisa e desenvolvimento e gerenciamento, disse.

Duas questões importantes para o desenvolvimento de medicamentos a partir de produtos naturais são a localização de alvos moleculares apropriados e a seleção de moduladores de pequenas moléculas, que vão fazer a ligação da proteína com seu alvo. Há uma conexão clara entre biologia e química medicinal, ressaltou.