Notícia

Revista Globo Rural

Brasil é vanguarda na clonagem animal

Publicado em 29 outubro 2012

Por Alana Fraga

Enquanto os países europeus mantêm cautela em relação à clonagem animal, o Brasil tem conquistado progressos com o uso competente da técnica. Quem afirma é Lawrence Smith, cientista paulistano que iniciou as pesquisas que resultaram na geração do primeiro mamífero clonado do mundo, a ovelha Dolly,em 1996. Aos 55 anos, filho de imigrantes ingleses, ele está de volta ao Brasil após 23 anos de cátedra na Universidade de Montreal, no Canadá. Vai lecionar no Departamento de Reprodução Animal da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal (SP), onde formou-se em medicina veterinária. Smith teve os créditos reconhecidos pelo embriologista lan Wilmut e pelo biólogo Keity Campbell, autores da revolucionária clonagem, no livro Dolly, a segunda criação.

Globo Rural > A clonagem da ovelha Dolly foi um grande passo da ciência. Depois, o processo tornou-se mais compassado. Em qual estágio a clonagem se encontra hoje?

Lawrence Smith > Quando foi feita a Dolly, foram necessários 300 embriões. Um para 300 era a eficiência daquela época. Hoje em dia, com bovinos, temos projetos com eficiência de um em 20. Agora, temos bem menos problemas de perdas iniciais e pós-nascimento. Mas precisamos continuar pesquisando para tentar eliminar tantas perdas.

GR >A Dolly morreu um pouco envelhecida para a idade dela, não foi? Isso ocorre com os clones?

Smith >A Dolly morreu devido aos sintomas de um câncer hepático, algo que ocorre com certa frequência em ovelhas na Escócia. Por isso, não sabemos se esse câncer foi devido à clonagem ou se algo naturalmente induzido. Quanto ao envelhecimento precoce de clones, já existem evidências científicas de que os clones envelhecem no mesmo ritmo de animais normais.

GR >Para que área estão sendo direcionadas as pesquisas da clonagem e da genética?

Smith >Podemos copiar animais de alto valor genético para propagar sua potencialidade mais rapidamente. A ferramenta pode ser utilizada também em bancos de células para recuperação de animais e espécies. Recentemente, foi encontrado na Sibéria um mamute soterrado no gelo, a 200 metros. As células dele estavam em boas condições e pesquisadores estão buscando alternativas para clonar esse mamute.

GR >Como essas pesquisas de células-tronco podem ser aplicadas na medicina veterinária?

Smith >A aplicação mais usada é em problemas do sistema locomotor em equinos. Estamos tentando produzir tendões, cartilagens, tecido ósseo. Quando um animal de corrida muito valioso quebra ou estende o ligamento, podemos injetar essas células-tronco que, reprogramadas, podem se transformar em células de tendões, músculos. Geralmente, quando um animal tem uma lesão grave, é sacrificado.

GR >Mesmo que testes mostrem que os produtos de clones não diferem de animais normais, a comercialização dos clones e da progênie (pelo uso do sêmen de clones) ainda não está autorizada em alguns países. Por quais razões isso acontece?

Smith >Creio que é um receio devido à ignorância do que é um clone. Quando os primeiros clones surgiram, acharam que íamos produzir monstros. Depois constataram que eram animais normais. Os países europeus, que são mais cautelosos, vão levar tempo para aceitar, mas vão perceber que países como Estados Unidos, Brasil, Argentina e Nova Zelândia estão tendo benefícios com a tecnologia.

GR >No Brasil, uma bezerra da raça simental, Vitória, foi o primeiro animal clonado, desenvolvido pela Embrapa. Temos clone de nelore, de brahman, de guzerá, gir leiteiro e até o girolando, uma raça nacional, vai ser clonada. Qual é o ganho para a pecuária brasileira?

Smith >A clonagem que está sendo feita no Brasil é bastante avançada. O rebanho bovino brasileiro, principalmente, vai progredir aceleradamente usando a clonagem. Obviamente a aplicação dela para as diferentes raças, como a girolando, vai beneficiar tanto pecuaristas brasileiros como de outros países. Acho que o Brasil só tem a ganhar se continuar na vanguarda da genética bovina. Foi uma decisão sábia dos brasileiros se abrirem à clonagem.

GR >A ABCZ, Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, passou a registrar os clones, o que avalizou a tecnologia e facilitou seu crescimento. Na Expozebu deste ano, a vaca clonada Dengosa Mutum, da raça gir leiteiro, teve 33% de suas cotas vendidas por R$ 615 mil num leilão. Podemos dizer que a clonagem entrou no foco dos negócios?

Smith >Acho que a clonagem, antes dessa aceitação da ABCZ, era feita de maneira um pouco clandestina. Existiam clones, todo mundo sabia. Agora, isso acabou, e às vezes um animal clonado pode ser mais benéfico do que um comum, por estar mais jovem.

GR >Já é possível avaliar os resultados obtidos com os filhos dos clones?

Smith >Um dos maiores estudos a que eu tive acesso surgiu depois que fizemos o primeiro clone canadense, o touro Starbucks. Usamos o sêmen dele para inseminar mais de 100 novilhas. Todos deram nascimento a bezerros normais, mas que tivemos de eliminar mesmo depois de constatar que eram normais pelo fato de o Canadá não aceitar a comercialização desses animais. Um estudo da Agência para Alimentação e Medicamentos (FDA, sigla em inglês) americana mostrou que a produção leiteira de vacas filhas de clones foi semelhante à produção das filhas do touro original (não clonado).

GR >Que instituições, no Brasil, dão apoio às pesquisas?

Smith >A Fapesp tem estimulado algumas companhias com subsídios para compra de equipamentos, o que é bastante positivo.

GR >Críticos exigiam cautela acerca da clonagem, preocupados com a saúde dos animais. Outros dizem que a clonagem pode reduzir a variabilidade genética das raças. O que o senhor tem a dizer sobre essas críticas?

Smith >Você pode copiar um animal e fornecê-lo para o Brasil inteiro, só que não se faz isso, porque assim diminui muito a variabilidade genética. E no longo prazo reduz a taxa reprodutiva dos animais. Existem fórmulas que mostram qual é o nível de consanguinidade que não afeta a reprodução. Isso é sabido por meio até da inseminação artificial, quando o mesmo touro é usado sempre e afeta a fertilidade dos animais. De outro lado, abre a possibilidade de fazer banco de raças, que hoje estão desaparecendo. Assim, a ferramenta também abre a porta para aumentar a variabilidade.

GR >Em que ponto o senhor acha que a ética veterinária difere da medicina humana na clonagem?

Smith >Difere muito. Na medicina humana, foi aceito internacionalmente que não se justifica a utilização da clonagem. Uma coisa que estamos aprendendo é que o clone não iria ter a mesma personalidade. São muito diferentes entre eles. A personalidade de um animal é influenciada pelo ambiente. Usar embriões humanos causa um bloqueio ético muito maior do que em animais, nos quais, na verdade, usamos muito material de abatedouro.

GR >Em sua opinião, a ciência do boi está mais adiantada que a ciência do homem?

Smith >A clonagem de animais abriu as portas para as células-tronco. Os homens vão se beneficiar indiretamente da clonagem com as células-tronco.