Notícia

O Estado do Maranhão

Brasil é potência mundial em pesquisa genômica

Publicado em 24 junho 2001

BRASÍLIA - Notícia sobre o Brasil no exterior costumava ser sinônimo de tragédia - chacinas, rebeliões, árvores tombadas, violência, fome e pobreza. Coisa boa mesmo só nos tempos de carnaval e cadernos de turismo. Até o futebol, maior orgulho do brasileiro, passou para o espectro negativo do noticiário. Hoje o Brasil brilha em outros campos. O gramado deu lugar ao laboratório, a bola foi substituída pelo microscópio e as camisas canarinho foram trocadas por aventais brancos. O novo produto de exportação brasileiro é algo além de qualquer expectativa: a pesquisa genômica. O estopim para essa revolução científica foi o seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, divulgado na capa da edição de 13 de julho de 2000 da revista Nature, uma das mais conceituadas publicações científicas no mundo. O trabalho foi resultado de um esforço coletivo de quase 200 pesquisadores, em 34 laboratórios paulistas. REDE - Ligados por uma rede virtual de pesquisa, eles mapearam em menos de três anos todo o código genético da xilella, que causa a doença do amarelinho em laranjais. A comunidade científica ganhou seu primeiro genoma completo de uma praga agrícola, cortesia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que financiou a pesquisa. DESTAQUE - A repercussão na mídia internacional foi imediata. Jornais de renome como THE NEW YORK TIMES, Chicago Tribune, Le Figaro, El País, Clarín e a revista Newsweek foram alguns que noticiaram com destaque a conquista brasileira. "Samba, futebol e ... genômica. A lista de coisas pelas quais o Brasil é conhecido acaba de ficar maior", escreveu a The Economist. "Pela primeira vez estamos recebendo jornalistas estrangeiros para fazer reportagens sobre o Brasil. Isso mostra que entramos para o ranking dos países produtores de conhecimento", afirma o médico veterinário Rodolfo Rumpf, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agro-pecuária (Embrapa), outra instituição que vem conquistando posição de destaque na biotecnologia. Rumpf anunciou em março o nascimento da primeira vaca clonada no Brasil, colocando o país entre os poucos que dominam essa tecnologia. Sua equipe do Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargem) agora trabalha no desenvolvimento de gado geneticamente modificado, mais produtivo e resistente a doenças - pesquisa com fortes implicações econômicas para o País. "A genética pode ser um poderoso produto de exportação; e o Brasil tem condições de assumir uma posição de liderança nesse setor", garante Rumpf. EXPLOSÃO - O crescimento do setor foi explosivo nos últimos dois anos. A Fapesp sozinha tem 12 projetos de seqüenciamento genético de bactérias, plantas, parasitas e genes humanos relacionados a tumores - um investimento de quase US$ 50 milhões. O mercado de biotecnologia movimentou US$ 500 milhões no ano passado e atrai cada vez mais o interesse das empresas de capital de risco. "O setor privado está começando a perceber que vale a pena investir em ciência nesse país", avalia o diretor científico da Fapesp, José Fernando Perez. "O próximo capítulo dessa história será o desenvolvimento de uma forte indústria nacional de biotecnologia. Estamos otimizando as condições para que isso ocorra." A competência brasileira atraiu atenção até do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que firmou parcerias com a Fapesp para o seqüenciamento de três variantes da xilela que atacam plantações naquele país. "A cooperação com os EUA é um indicador muito favorável", aponta Perez.