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O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

Brasil é o terceiro maior fornecedor de dados sobre o genoma do câncer

Publicado em 23 julho 2000

Por (Hebert França/Agência Brasil)
Brasília - Após o seqüenciamento da Xylella fastidiosa, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) volta a ser foco de atenção com a divulgação feita na sexta-feira de manhã, em São Paulo, dos resultados alcançados pelo Projeto Genoma Humano do Câncer. Com pouco mais de um ano de trabalho, a pesquisa brasileira já contribuiu com mais de 279 mil seqüências de genes para o GenBank, base de dados genéticos mantida pelo National Institute of Health e de uso liberado para a comunidade científica internacional. Essa quantidade de informação gerada pelo projeto da Fapesp, em parceria com o Instituto Ludwig, coloca o país como terceiro maior fornecedor de dados, com 13,2% do total do GemBank. Para os tumores de cabeça/pescoço, mama e estômago, cuja incidência é grande no país, o Brasil possui a maior quantidade de informações. No câncer de mama a Fapesp disponibilizou os dados referentes ao seqüenciamento de mais de 63 mil genes, contra quase 16 mil do resto do mundo. Com o tumor de cabeça e pescoço a participação da pesquisa nacional é ainda maior, representa mais de 97% de toda a informação do banco de dados. Comparado à pesquisa com a praga do amarelinho, o Projeto Genoma Humano gerou volume de informação três vezes superior. De acordo com José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp, os bons resultados alcançados com o projeto Genoma Humano Câncer levaram a fundação a duplicar o objetivo do projeto, que deve chegar a 1 milhão de seqüências. Esse número colocará o Brasil, junto com o Nacional Câncer Instituto, dos EUA, como os países com maior contribuição de genes expressos humanos. A quantidade de informações depositadas até hoje no GemBank, superior a 100 milhões de nucleotídeos, permitem identificar metade dos genes humanos expressos em tecidos provenientes de tumores cancerígenos. Para coordenar os vários laboratórios seqüenciadores e de bioinformática envolvidos nos estudos, foi criado um consórcio de pesquisa, a rede Onsa (em inglês, Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos), que tem por principal financiador a Fapesp. Os estudos do genoma do câncer se concentram em seis laboratórios da USP, Unicamp e Unifesp. A tecnologia de seqüenciamento usada no Brasil é diferente e, segundo seus autores, torna o processo mais rápido e eficiente. A metodologia, batizada de Orestes (Open Reading Frames Expressed Sequence Tags), foi desenvolvida por Emmanuel Dias Neto, como parte de seu pós-doutorado pelo Instituto Ludwig. A técnica utilizada mundialmente para seqüenciar genes identifica fragmentos das extremidades. "O Orestes analisa a região central, aquela que codifica as proteínas necessárias ao funcionamento da maquinaria celular", explica Perez. A combinação das seqüências Orestes, com as outras informações disponíveis no GemBank, possibilita a descoberta das seqüências completas de genes humanos envolvidos no mecanismo molecular que desencadeia os cânceres. O que torna mais fácil diagnosticar e determinar tratamentos. A metodologia Orestes foi aplicada à seqüência do cromossomo 22, finalizada em dezembro passado. O trabalho detectou outros 100 genes, além dos 545 anotados pelos pesquisadores do Human Genome Project. (Hebert França/ Agência Brasil) DEPOIS DO GENOMA DA XYLELLA, BRASIL DEVE PENSAR NA INDÚSTRIA DA BIOTECNOLOGIA Brasília - O genoma da Xylella fastidiosa e do câncer não são os únicos projetos da Fapesp. Em entrevista à Agência Brasil. José Fernando Perez, diretor científico, fala sobre o programa de genética molecular da fundação. Ele é PhD pela Escola Politécnica de Zurique, na Suíça, e professor do Instituto de Física da USP. O Sr. poderia fazer um resumo dos projetos de seqüenciamento genético financiados pela Fapesp? Com o sucesso da Xylella foram iniciados vários projetos. Um deles é o da cana-de-açúcar, co-patrocinado pela Coperçucar. Não é um genoma completo, a cana tem 120 cromossomas, seria muito complexo, é um genoma de estudos de genes expressos. O projeto tem como meta identificar 50 mil genes do vegetal. Com diversas finalidades que se possa imaginar nessa linha de melhoramento de espécies: criar variáveis adaptáveis a certos solos, resistentes a químicos, que se adaptem a determinadas circunstâncias ambientais. Um ponto importante, também, é aumentar o teor de açúcar das espécies. No momento, esse é o maior projeto de genes expressos de plantas feito em ambiente acadêmico. Com essa pesquisa, a rede Onsa, instituto virtual que coordena os projetos de seqüenciamento e bioinformática, foi expandida utilizando laboratórios em Pernambuco e em Alagoas, regiões grande produtoras de cana e com pesquisas na área. Esses laboratórios, além de entrarem na parte de seqüenciamento, participam na garimpagem de informação. Esse tipo de pesquisa gera um volume de informação muito grande e é preciso montar formas eficientes de busca de informação. Separar o que é relevante. A participação desses laboratórios será importante nisso. O cronograma do projeto está sendo seguido e até o final desse ano devem estar levantadas as informações sobre os 50 mil genes pesquisados. Estamos seqüenciando, também, a bactéria Clavibacter xyli, de tamanho semelhante à Xylella, mas com genoma nada parecido, que ataca a cana-de-açúcar. Esses dois projetos irão dialogar. Pela primeira vez na história teremos o genoma da planta e de seu patógeno. É como se daqui a pouco fizemos o genoma da laranja, hipótese não descartada. Isso é cientificamente interessante, porque irá ajudar a entender a patogenicidade, mas também do ponto de vista de descoberta de resultados para controlar tipos de bactérias. Esse projeto tem a parceria com laboratórios australianos. O DNA da bactéria é fornecido por um grupo australiano. Há outros projetos com pragas que atacam culturas agrícolas? Há o projeto da Xanthomonas citri, que causa o cancro cítrico, doença que atinge as plantações de laranja do mundo inteiro. É uma doença perigosa, pois para combatê-la é preciso extirpar a árvore e isolar a área atingida. Não é como o amarelinho, que de certa forma permite que se conviva com ele, mas acarreta um prejuízo anual de US$ 100 milhões. Com o cancro cítrico, o prejuízo potencial é maior, pois a região afetada fica isolada. A China não tem uma produção de laranja relevante em função do cancro. A Xanthomonas estava numa lista de bactérias escolhidas para seqüenciamento por pesquisadores americanos. Entretanto, quando anunciamos o início de nosso trabalho, eles desistiram. Esses dois projetos mostram que o país está formando um nicho de competitividade, uma liderança internacional na área de patógenos vegetais. Acabamos de seqüenciar a Xylella, agora vem a Xanthomonas que até o final do ano estará concluída. Com o genoma da Xylella fica mais fácil as pesquisas com a Xanthomonas? A hipótese que se levanta é que todos os genes da Xylella sejam parte do genoma da Xanthomonas, que é um organismo genético maior, com duas vezes a quantidade de genes que a Xylella. É um projeto que também tem parceria com citricultores. Esse apoio é importante, porque permite financiar aqueles custos que não podem ser cobertos pela Fapesp como pagamento de salários e contratação de técnicos. Voltando à Xylella, com o genoma estruturado, o que fazer agora para combater o amarelinho? As pesquisas não se enceraram. Pelo contrário, apenas começaram. Estamos fazendo com a Xylella um estudo de genoma funcional, ou analisar as funções dos genes. Saber por que ela é patogênica. Como consegue sobreviver na seiva da planta, que é um meio pobre? Quais são seus mecanismos de sobrevivência e multiplicação? A Fapesp está patrocinando 21 projetos, grupos com pesquisa bem focalizada em como utilizar a informação sobre o genoma. Conhecendo o genoma, que hipóteses posso testar: sobre a patogenicidade; como controlar; como entender. O desafio do programa do genoma funcional da Xylella é: se você tem uma boa idéia de como entender o amarelinho a partir do genoma, nós queremos patrocinar seu projeto. O programa ainda está no início, longe dos resultados que permitam antever qualquer tipo de controle da praga. Há alguns dias foi divulgado o interesse norte-americano em investir nas pesquisas brasileiras com o intuito de que o genoma de uma variante da Xylella, que ataca as videiras na Califórnia, fosse seqüenciado, como será essa pesquisa? Quando se tem genomas parecidos, nesse caso duas bactérias primas, a Xylella da laranja e a da uva, é possível fazer o que se chama de genoma comparativo. Analisar os genomas dos diferentes organismos e verificar porque agem de formas diferentes e reagem diferentemente apesar de parentes. Mesmo sendo próximas as espécies possuem genomas diferentes. As diferenças são significativas, essa tem esse gene, por isso não ataca a uva. As diferenças estruturais podem ser percebidas pelo fato da Xylella atacar as videiras na Califórnia, mas não atingir os laranjais. Haverá transferência de tecnologia? Não. Todos os projetos serão desenvolvidos aqui com a metodologia dos laboratórios brasileiros. É valor agregado puro. Eles mandam a bactéria, nós trabalhamos e enviamos o resultado. Estamos fazendo a parte intelectual. O fato do Serviço de Pesquisa em Agricultura e da Associação de Viticultores da Califórnia terem entregue a pesquisa da Xylella a nossos pesquisadores suscitou uma certa ciumeira. Alguns laboratórios norte-americanos gostariam de desenvolver o trabalho e ficaram surpresos pela nossa escolha. Muito desses laboratórios conseguiriam seqüenciar a Xylella, mas o que eles não conseguiriam fazer com tanta eficiência como nós seriam as anotações. Temos experiência específica nesse organismo e isso não se transfere assim facilmente. É um ponto importante essa nossa especificidade e essa competência que estamos criando na área de patógenos vegetais. O objetivo com as pesquisas da Xylella era adquirir competência no segmento de seqüenciamento de genomas, com os resultados obtidos, qual passa ser o objetivo da Fapesp ao investir nessa área? Agora que adquirimos competência, queremos ser competitivos. O objetivo é estimular a formação de empresas na área de biotecnologia no país e atrair investimentos internacionais nessa área. O retorno é uma preocupação, mas como sabemos, resultados em trabalhos de pesquisa da área acadêmica são pequenos. Para se ter idéia, 97% das patentes norte-americanas são originárias do meio empresarial. Do projeto da Xylella, nós temos uma patente depositada, a da goma xanthomica, importante na indústria do alimento. Ela pode ser usada em engenharia de alimentos, como espessante, e, também, como lubrificante de brocas para perfuração de poços de petróleo. Há um real interesse nessa patente, a forma da goma produzida pela Xylella é diferente, os especialistas em goma reconhecem o valor do patenteamento. Claro que iríamos patentear tudo que pudéssemos. Contudo, o mais importante é mostrar a competência do país, atrair investimentos, capital de risco, pata fazer gerar a indústria de biotecnologia, que é o que o país precisa, uma rigorosa indústria de biotecnologia. Com o crescimento na demanda por pesquisas de bioinformática e a reduzida mão-de-obra especializada não haverá um problema de sobrecarga? A Fapesp pretende investir na formação de pessoal? Quando iniciamos o projeto da Xylella, perguntávamos se havia pessoal suficiente para desenvolvê-lo. Tínhamos sérias dúvidas. Foi Um desafio, mas o projeto teve a capacidade de atrair profissionais. Nesse momento pós-genoma, o desafio se estende, também, às universidades. Elas têm que começar a preparar os biólogos para a era genoma. Os graduados precisam Ter formação em outras áreas, devem entender de informática e de modelos de matemática, por exemplo. A Fapesp criou bolsas especiais para estimular a formação acadêmica, para que os pesquisadores não se sintam prejudicados em permanecer no meio. Muitos dos que sonham participar de pesquisas acadêmicas desistem, desmotivados com as coisas de valor irrisório oferecidas. O profissional que investir nessa área terá a possibilidade, a longo prazo, dele mesmo ter sua empresa de biotecnologia. O que estamos tentando é abrir oportunidades aos nossos jovens, para que se sintam motivados a permanecer nessa área fascinante do conhecimento. O potencial econômico é muito alto. A Fapesp é procurada por bancos, empresas da área de biotecnologia e empresas de capital de risco que vislumbram formas de parcerias. Há quatro anos, quando começamos o trabalho com a Xylella, se disséssemos que estaríamos no estágio em que nos encontramos, seria uma alucinação. Estudar o genoma de doenças tropicais faz parte dos futuros projetos da Fapesp? Estamos pensando em alguns parasitas que podem ser bons candidatos, porque não suscitam interesse de empresas. A leishmaniose, a esquistossomose, a malária, todos os parasitas dessas doenças precisam ser estudados. Compete ao Brasil, onde a incidência dessas moléstias ainda é grande, criar liderança nessa área. Há outros patógenos em estudo. As indústrias nacionais estão cientes da importância desses avanços biotecnológicos? O investimento das indústrias que co-financiam projetos de estruturação genômica é a fundo perdido. Elas hão sabem exatamente o que fazer com essa informação. Apesar disso, essa é uma boa estratégia, incentivar a geração de informação e criar um estímulo, uma agenda de pesquisa para a comunidade científica nacional. Mas essas empresas, como as que investiram no amarelinho, não são as que fazem a inovação, tecnológica. Temos que incentivar o surgimento de indústrias de biotecnologia. Esse é o grande desafio do momento. Começamos a ser competitivos, estamos otimistas, mas precisamos ser prudentes O sucesso cria desafios. Não queremos ficar eternamente falando do sucesso da Xylella. Qual é o desafio atual dentro dos estudos do genoma? O genoma estrutural, grupo de pesquisa que estudará a estrutura das proteínas. A idéia, tanto do projeto do câncer, quanto da Xylella, é pegar os genes e as proteínas que existem, isolar, caracterizar, purificar e depois cristalizar. Analisar a estrutura desse cristal em laboratório. Outra iniciativa é, dentro das pesquisas com genoma do câncer clínico. A idéia é envolver os médicos, criar oportunidade para que eles usem as informações geradas pelo projeto e façam outras perguntas, facilitando o entendimento da doença. É algo inovador, relacionar os aspectos genéticos com a evolução dos pacientes e buscar um tratamento. Integrar os médicos às pesquisas. Esse projeto, além de toda essa questão de propriedade intelectual, tem uma preocupação cultural importante. Fazer com que nossa medicina comece a utilizar os recursos da moderna genética. O programa tem uma série de aspectos: bacteriológico, agro-econômico, cultural, social, tecnológico. A Biotecnologia faz parte dos projetos das outras fundações de amparo à pesquisa? Nenhum dos outros estados cumpre rigorosamente os preceitos constitucionais, que determina o repasse de 1% da sua arrecadação para as Fundações de Amparo à Pesquisa. São Paulo repassa 1% da receita do rateio do mês anterior, sem discussão. No Rio de Janeiro sentimos que há um esforço. Inclusive há uma proposta de genoma conjunto, para estudar uma dessas bactérias fixadoras de nitrogênio. Contudo, não vejo mobilização no sentido de desenvolver projetos de biotecnologia.