Notícia

Adital - Agência de Informação Frei Tito para América Latina

Brasil: direito à cidade, renda básica universal e ética política em São Paulo

Publicado em 10 dezembro 2015

Por Cristiano Morsolin

Com a presença do prefeito [de Bogotá, Colômbia], Gustavo Petro, foi realizado recentemente o lançamento do Prêmio CGLU Cidade de Bogotá pela Paz, por parte da Comissão de Cooperação para o Desenvolvimento e Diplomacia das Cidades, da Rede Mundial de Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU), o qual tem por objetivo gerar reconhecimento para iniciativas locais que promovam o diálogo e a paz, e será entregue oficialmente na ocasião do CGLU, na capital colombiana (em outubro de 2016).

A redução da pobreza, a melhoria da qualidade de vida e a realização dos direitos das populações em situação de pobreza e vulnerabilidade da cidade, são algumas das apostas da Bogotá Humana, e que estão alinhadas com os principais objetivos do Direito à Cidade.

É por isso e alinhado com as apostas de governo que a Secretaria de Integração Social e a Direção Distrital de Relações Internacionais de Bogotá, em colaboração com a Comissão de Inclusão Social, Democracia Participativa e Direitos Humanos da Rede Mundial da CGLU, realizaram o ‘EncontroInternacional sobre a erradicação da pobreza e o direito à cidade ‘, entre os dias 19 e 20 de novembro deste ano.

Durante o Encontro, cerca de 20 peritos internacionais, provenientes de governos locais, da academia, redes de cidades e especialistas em direitos humanos, compartilharam experiências, que permitem que os governos locais adotem políticas públicas que contribuam para a construção das cidades, com uma economia urbana equitativa e solidária, que, por sua vez, garantam a inserção produtiva e o fortalecimento dos setores populares.

Participaram representantes de cidades como Montevidéu (Uruguai), São Paulo (Brasil), Curitiba (Brasil), Barcelona (Espanha), Plaine Commune (França), Lisboa (Portugal), Utrecht (Holanda), da Romênia, Cidade do México, Santiago (Chile) e Bogotá.

A CGLU 2016 se constituirá no evento mais importante de Bogotá, no próximo ano, recepcionando de 12 a 15 de outubro de 2016, cidades de todo o mundo, fortalecendo sua posição nos temas mundiais que determinam o futuro na agenda do clima (UNFCCC), na agenda urbana (Hábitat III) e na agenda dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (1).

 

Eduardo Matarazzo Suplicy, dirigente histórico do Partido dos Trabalhadores (PT)

Neste seminário internacional, realizado em Bogotá, consegui entrevistar Eduardo Matarazzo Suplicy, após 24 anos como senador do PT, hoje, com 74 anos, dirige a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos, na metrópole de São Paulo, responsável por coordenar políticas públicas para a infância e adolescência, juventude, LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais], imigrantes, entre outros públicos.

Dirigente histórico do Partido dos Trabalhadores do Brasil (PT), professor de Economia da Escola de Administração de Empresas e de Economia de São Paulo, entre outras instituições, é autor do livro "Renda básica de cidadania, a resposta dada pelo vento”, um texto que aprofunda a ideia medular da sua carreira como político.

Em 2000, quando era pré-candidato à Presidência, Eduardo Matarazzo Suplicy decidiu viver três dias na favela de Higienópolis, em São Paulo, para poder trabalhar o conceito de renda básica. Suplicy, três vezes eleito senador em São Paulo, pelo PT, apresentou, de próprio punho, o projeto que deu origem à Lei 10.835/2004, que estabelece uma renda básica de cidadania no Brasil. O legislador suplanta o papel de professor quando expõe exaltado os argumentos do seu projeto.

É um dos políticos mais respeitados do Partido, em seu país. Com sua ex-mulher, Marta Suplicy, compartilham a mesma paixão: a cidade de São Paulo.

Os Suplicy têm uma origem militante que os distingue da maioria dos históricos petistas. A liderança de Lula da Silva foi forjada nas lutas operárias dos anos 1970 e 1980, na periferia industrial de São Paulo. Marta Suplicy já era uma pessoa midiática, antes de ganhar as eleições municipais de 2000, graças ás suas intervenções nos programas de televisão, como sexóloga. Eduardo Suplicy provém de uma família rica. Os Matarazzo, pelo lado de sua mãe, são reconhecidos pioneiros na indústria brasileira.

Ele se diz tão próximo de Lula como de sua sucessora, Dilma Rousseff, de quem destaca sua fortaleza e convicção. Suplicy conheceu Lula nos anos 1970, quando este era líder dos metalúrgicos, e ele escrevia colunas sobre Economia para o jornal Folha de São Paulo. Suplicy o descreve como "um líder com um carisma muito grande, no entanto, uma pessoa simples. Sempre se dirige à população de maneira simples, didática e, muitas vezes, usando comparações com o que o povo brasileiro conhece melhor: o futebol”.

20 milhões de habitantes em São Paulo

O cenário da entrevista exclusiva com Eduardo Matarazzo Suplicy vai além da fronteira de São Paulo. A zona metropolitana de São Paulo, no Brasil, tinha 4,8 milhões de habitantes, em 1960. 50 anos depois, eram 19,7 milhões. No lapso de tempo transcorrido entre ambos os momentos, a metrópole incorporou uma agenda populacional equivalente a 1,3 vezes a população da região metropolitana de Paris, 1,5 vezes a do Rio de Janeiro e duas vezes a de Londres. No mesmo intervalo, as atividades produtivas agregadas alcançaram uma escala comparável à da economia do Chile.

Um grupo de pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) – um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs), apoiados pela Fapesp [Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo] – se propôs a decifrar, na medida do possível, o enigma dessa esfinge urbana. O resultado disso é o livro intitulado "A metrópole de São Paulo no século XXI: espaços, heterogeneidades e desigualdades”.

"A metrópole continua sendo fortemente desigual, mas suas desigualdades se reconfiguraram. O acesso aos serviços públicos se expandiu, embora os serviços prestados apresentem diferenças de qualidade, segundo o segmento atendido. E, fundamentalmente, as periferias, que antes agrupavam quase exclusivamente populações pobres, erguem-se em espaços mais heterogêneos, em termos sociais”, disse Eduardo Cesar Leão Marques, livre docente do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e vice-diretor do CEM, em declarações à Agência FAPESP (2).

No dia 13 de agosto de 2015, 18 pessoas foram mortas e seis feridas em ataques perpetrados por pessoas armadas, em 11 locais do estado de São Paulo, em um espaço de tempo de três horas.

Segundo dados oficiais, 56 pessoas foram mortas em massacres em São Paulo até agora, em 2015. Os dados, entregues pela Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo ao Instituo Sou da Paz, por meio de uma solicitação de acesso à informação, indica que isso representa um aumento a respeito do ano anterior, quando se registraram 49 mortes em massacres, durante todo o ano. Segundo uma reportagem realizada pelo SPTV, baseada em números oficias obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, em 2014, um em cada cinco homicídios ocorridos em São Paulo foi perpetrado pela Polícia. De acordo com a informação jornalística e com as organizações da sociedade civil, as vítimas deste tipo de mortes frequentemente são homens afrodescendentes, entre 15 e 30 anos, em situação de pobreza e residentes de bairros da periferia urbana de São Paulo. Menos de 8% dos casos de mortes ocorridos em situações que a Polícia qualifica como "enfrentamentos” chegam a julgamento, em São Paulo. Organizações, como a Anistia Internacional, expressaram sua preocupação pelas mortes de pessoas em mãos de policiais em São Paulo. (3)

Camila Dias, especialista em violência da Universidade de São Paulo, disse que há "esquadrões da morte”, que operam quase com impunidade. "Praticamente, todas as matanças que ocorrem em São Paulo têm participação de policiais militares. A dinâmica das execuções, o uso de máscaras, o horário, o grande números de vítimas, tudo isto indica um padrão que se repete”, comentou Camila à AFP (4).

Brutalidade e violência por parte da Guarda Civil Metropolitana (CGM) e da Polícia Militar (PM), falta de diálogo com o prefeito Fernando Haddad [Partido dos Trabalhadores – PT] e o processo de higienização resultante da especulação imobiliária. Esta é a situação a que estão submetidos os habitantes das ruas de São Paulo, de acordo com o sacerdote Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua.

"O tratamento da Polícia Militar e a GCM é assim: portando armas, chutam a comida, retiram os documentos, as roupas, o cobertor. As práticas higienistas da Prefeitura de São Paulo estão convertendo-se na forma de atuar permanente em relação aos moradores de rua”, disse em entrevista à Adital, em maio de 2015 (5).

Existem outros pontos de vista, como o de Jacyara Silva de Paiva, líder da Pedagogia Social no Brasil (6). Também é educadora social, advogada, teóloga, doutora em Pedagogia Social pela UFES/USP [Universidade Federal do Espírito Santo/ Universidade de São Paulo] e professora da Faculdade Estácio de Sá/Espírito Santo.

Ela comenta que os "prefeitos anteriores, como Luiza Erundina (1989-1993), Marta Suplicy (2001-2005) e, agora, Haddad têm uma relação comum com as políticas progressistas. Apesar de, agora, militar em partidos diferentes, devido a problemas internos no PT, eles vêm de uma mesma linha ideológica, são progressistas, são de esquerda, de fato, os três. Penso que Erundina e Haddad têm uma visão mais humanista, gosto da forma como eles agem, Marta é progressista, mas ela vem sempre da elite. Posso dizer que o processo de pedagogia social (em setembro, realizamos nosso V Congresso Internacional, em Vitória) tem muito a ver com as políticas do prefeito Haddad, que busca a inclusão de setores historicamente marginalizados; pessoalmente, gosto muito do compromisso político e ético de Eduardo Matarazzo Suplicy”, conclui Jacyara Silva de Paiva.

 

A zona metropolitana de São Paulo tinha 4,8 milhões de habitantes, em 1960. 50 anos depois, eram 19,7 milhões. Na foto, centro de Sao Paulo visto a partir da Favela Jacqueline

Entrevista exclusiva com Eduardo Matarazzo Suplicy

Conversar com Eduardo Matarazzo Suplicy é muito interessante, especialista político de esquerda, conecta uma maneira amável de valorizar a política da Polis com a Filosofia e a Ética.

Eu liderei uma carta aberta às Nações Unidas sobre o tema das crianças e adolescentes em situação de rua e dos trabalhadores, firmada por 74 especialistas de todo o mundo (7) e que, no Brasil, foi apoiada pelo senador Cristovam Buarque, ministro da Educação do primeiro governo do presidente Lula (ele publicou vários de meus artigos) (8) e por Verônica Müller, professora da Universidade de Maringá [Paraná] e membro do Movimento Nacional Meninos e Meninas de Rua (MNMMR). O que pensa sobre essa problemática da infância e adolescência em situação de rua, hoje, relacionada, no Brasil, ao debate sobre a redução da idade penal?

É um tema muito importante, por isso deixo uma mensagem em vídeo (que, após pronta, será divulgada), para que possam difundir em nível mundial. Se queremos reduzir a criminalidade violenta, necessitamos de instrumentos que elevem o nível de justiça na sociedade, não devemos reduzir a idade penal. Para prevenir a criminalidade juvenil, tem que se priorizar a educação de qualidade para todos e todas, desde a primeira infância, com o objetivo de promover um desenvolvimento integral. Nessa ótica, a "Renda Básica Cidadã” é uma ferramenta para reduzir a criminalidade e a violência nas favelas. A Prefeitura de São Paulo abriu uma consulta, até 30 de novembro [de 2015], para debater a implementação de turno [escolar] para 100 mil alunos da rede municipal, em 2016. O programa "São Paulo Integral” pretende ampliar a jornada escolar de cinco horas para sete horas, mesclando disciplinas, como Matemática e Português, com atividades esportivas e culturais. Desde 2013, 72 mil crianças estão matriculadas em 367 escolas da cidade, com educação em tempo integral.

As primeiras páginas de todos os jornais brasileiros destacaram que, em março [de 2015], o senhor começou a questionar a Polícia Militar perto do pátio de um Colégio, defendendo dois moradores de rua vítimas de violência policial. Sobre este mesmo tema, a editora Boitempo acaba de publicar, em cooperação com o portal Carta Maior, a antologia "Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação”, da qual o senhor é coautor. "Uma conclusão quase unânime dos autores é que um dos insumos da violência é a ausência de democracia real. Ao final, o sistema democrático no Brasil é uma conquista recente. Talvez, por conta disso tenhamos mais problemas com os órgãos de segurança do que os países onde o sistema existe há mais tempo e onde a participação democrática vai além do direito ao voto”, reflete o cientista político Guaracy Monguardi na apresentação do livro. Que medidas o senhor sugere a respeito?

Para superar a criminalidade violenta e o abuso policial, lembramos os ensinamentos de Thomas More, em "Utopia”, em 1516, refletindo que a pena de morte não havia contribuído para diminuir os assaltos, os roubos e assassinatos. Ao invés de infligir esses castigos horríveis, seria muito melhor garantir para todos os meios de sobrevivência digna, assim, ninguém estaria exposto a essa terrível necessidade de fazer-se ladrão e depois cadáver. Isto se põe em prática com a educação e a "Renda Básica de Cidadania”.

O senhor é inspirador em nível mundial da Renda Básica Universal (RBU), nos apresenta esta proposta inovadora, considerando que, em 1991, o senhor apresentou, no Senado do Brasil, um projeto de lei para instituir um programa de renda mínima, e, em 2004, foi aprovada a lei que estabeleceu a Renda Básica de Cidadania, que deveria ser aplicada gradualmente, começando pelos mais necessitados. No Brasil, cerca de 50 milhões de pessoas são beneficiárias do Programa Bolsa Família...

A Renda Básica Universal é direito de qualquer pessoa, sem importar seu sexo, raça, idade, condição civil ou socioeconômica, de participar da riqueza comum da nação, como um direito cidadão, uma renda que, com o progresso do país, será suficiente para atender às necessidades básicas de cada pessoa, e que não se negará a ninguém, nem sequer aos mais ricos. Desta maneira, eliminaremos totalmente qualquer burocracia para averiguar quanto ganha cada um no mercado formal ou informal, e qualquer estigma ou vergonha que uma pessoa possa ter ao informar suas escassas rendas e pedir um complemento. Com essa ajuda básica, a pessoa poderá decidir se começa outra atividade mais útil, porque, atualmente, as pessoas que recebem alguma ajuda do Estado pensam que, se conseguem um novo trabalho, o governo pode lhes retirar a ajuda, e por isso podem desistir de buscar algo melhor.

A partir do ponto de vista da dignidade, da liberdade do ser humano, teremos a melhor vantagem. Para a mulher, que, por falta de alternativa, resolve vender seu corpo; para o jovem, que se torna membro da quadrilha de narcotraficantes. O dia em que todos na família tenham uma renda básica suficiente para atender às necessidades vitais, a pessoa vai ganhar o direito de dizer NÃO. Por isso, a renda básica elevará o grau de liberdade e dignidade de cada um na sociedade.

A ideia da RBU pode ser encontrada em textos que remontam a Aristóteles, Confúcio e à Bíblia, e se encontra na famosa "Utopia”, do inglês Thomas More, de 1567, nas ideias de Thomas Paine, que, em 1795, após a Revolução Francesa, propôs uma indenização paga como aluguel de uso do solo a todos os cidadãos. Qual é o horizonte filosófico que inspira a RBU?

Existem, dentro de cada um de nós, valores éticos muito importantes, valores cívicos, valores de identidade, de bem-estar e de fé, que necessitam ser levados em conta pelos governos e por todos os segmentos da sociedade.

Esses valores sempre foram muito relevantes para a humanidade, pois são responsáveis pelas grandes transformações ocorridas durante a história. Valores, como os que estimularam tantos brasileiros a seguirem Antônio Conselheiro, de Canudos. Que inspiraram escritores, como Machado de Assis ou Gabriel García Márquez; ou poetas como Pablo Neruda e Castro Alves, a escreverem obras de grande significado humano e social. Valores que iluminaram Mahatma Gandhi, ao liderar seu povo na conquista da independência da Índia. Valores que caracterizaram o longo caminho percorrido por Nelson Mandela e seu povo, para acabarem com o Apartheid, na África do Sul. Esses valores levaram milhões de brasileiros às ruas, em 1984, na campanha que reclamava eleições diretas. O mesmo ocorreu em 1992, quando, novamente, esses valores instigaram nosso povo, sobretudo, os jovens "caras pintadas”, que se mobilizaram na campanha Ética na política, que terminou com a queda do presidente da República, que havia quebrado seus compromissos com a Nação.

Recentemente, no início do século XXI, o povo argentino, conduzido por esses valores transformadores, manifestou sua vontade firme de ter um governo democrático, que garantisse a soberania da nação e a vida com dignidade de todo seu povo. Para que esses valores sejam respeitados, é necessário que exista uma lei justa.

O filósofo Aristóteles, que viveu no século IV AC, insistiu que uma lei para ser justa necessita distinguir o que é participável e não compartilhável do que é distribuível. Participável é aquilo que não pode ser distribuído porque, se fosse dividido, desapareceria, perderia sua realidade. O poder, por exemplo, é participável. A troca de bens e riquezas são distribuíveis. A lei justa para o que é participável deve determinar que todas as pessoas são iguais perante a lei. A lei justa para o distribuível é aquela que encontra uma medida por meio da qual a distribuição dos bens e das riquezas sociais produza igualdade entre as pessoas.

O critério dessa medida, segundo Aristóteles, é a quantidade total de bens e riquezas da sociedade, a partir das relações de troca. Portanto, o critério é impedir que, por meio da troca, a desigualdade cresça. A divisão dos bens e riquezas não se realiza a partir da quantidade de trabalho de cada um e, sim, a partir da totalidade da riqueza social. Aquele que não trabalha também tem direito a uma parte da riqueza social. Em primeiro lugar, porque quem não trabalha pode estar sendo impedido de trabalhar. Em segundo lugar, porque é necessário, para a paz interna da sociedade, que não exista miséria nem desigualdades profundas. Pode-se criar um sistema, por meio do qual se coleta mais dos que mais têm, com o objetivo de assegurar, deste modo, a todos o suficiente para viver com dignidade.

 

Eduardo Suplicy defende a Renda Básica Universal, como um direito do cidadão participar da riqueza comum do país, uma renda que, com o progresso do país, seria suficiente para atender às necessidades básicas de cada pessoa.

Quais são os precursores da RBU no Brasil?

No último quarto do século XIX, desenvolveu-se, em Canudos, município localizado no Estado da Bahia, nordeste do Brasil, uma verdadeira organização social, econômica e política, criada sob um complexo sistema religioso, e que contava com Antônio Conselheiro como líder. Essa comunidade colocou em prática "uma concepção de trabalho mutualista, cooperativa, solidária”. Em Canudos, onde chegou a haver 24 mil pessoas e 5,2 mil casas, experimentou-se um tipo de poder sócio-místico, religioso, assistencial, comunitário, que se inspirou na "fraternidade igualitária do comunismo cristão primitivo”, e onde a fome estava ausente. "Eles trabalharam em conjunto. Ninguém tinha nada. Todo mundo preparava a terra para cultivá-la, todo mundo trabalhava. Na colheita, cada um tinha a sua parte. Ninguém ficava com menos ou com mais. Conselheiro havia sido leitor de Thomas More e suas experiências eram semelhantes às dos socialistas utópicos Fourier e Owen. Canudos foi dizimada por forças do Exército Brasileiro, e Antônio Conselheiro foi decapitado em 1897.

Mais tarde, ao final de 1940, a publicação do livro "A geografia da fome, do professor de Geografia Humana Josué de Castro, causou bastante impacto, devido à expressão que dava o título do seu livro. Essa original combinação de palavras trazia consigo uma nova maneira de estudo da existência da fome, utilizando métodos geográficos. Criava-se nele uma geografia não das grandezas humanas, nem das riquezas naturais do nosso país, e sim uma geografia de suas misérias. A fome talvez seja a mais perigosa das forças políticas, e a miséria a causa fundamental de tantas revoltas. Em uma época na qual os economistas neomalthusianos propunham, como solução para a fome, a redução das taxas de natalidade, o livro de Josué de Castro propunha um aumento da produção de alimentos e, além disso, destacava o fato de que o índice de natalidade era mais alto entre os desnutridos e mais baixo entre os bem alimentados, mesmo abaixo do nível de equilíbrio, e tendo em conta que os índices de mortalidade nesses grupos é bem menor. Sabia, portanto, que os aspectos econômicos e culturais influem nas taxas demográficas e, neste sentido, defendia, como uma boa forma de obter taxas harmoniosas de crescimento demográfico, a melhora da dieta alimentar, o aumento dos padrões de vida e de educação, nos países com altas taxas de natalidade, entre outras propostas sociais.

Em 1951, esse livro foi seguido de outro, "Geopolítica da fome, no qual Josué de Castro estende seus estudos às questões da fome no mundo. Ele acreditava que não era uma utopia a eliminação da fome no planeta, desde que se procedesse um ajuste do homem à terra, bem como se fizesse uma melhor distribuição dos bens produzidos pela humanidade. Afirmava que dos resultados dessa luta dependia também a sobrevivência da civilização. Via como imprescindível que se elevassem os padrões de vida das populações mais pobres, e apresentou algumas propostas fundamentais no direito a uma renda mínima garantida.

Que outras experiências atuais existem, em nível internacional?

No Uruguai, o Plano de Equidade Uruguai, publicado em 2008, prevê também a transição dos programas sociais existentes para uma renda universal. No Estado de Maghya Pradesh, na Índia, onde a partir de 2011 se pagou a 6.000 habitantes de oito povos durante dois anos a soma de 350 rupias por mês, e a metade aos meninos e meninas até 14 anos. Em outras 12 vilas, não se pagou. Comparam-se os resultados, que foram muito positivos para os que receberam o rendimento.

Na Europa, a partir de janeiro de 2016, a cidade holandesa de Utrecht distribuirá a 300 participantes um cheque anual de entre 900 e 1.300 euros, dependendo do número de membros das famílias. Na Suíça, onde 100.000 cidadãos têm direito a exigirem um referendum sobre um tema de interesse geral, em 2013, 126.000 cidadãos pediram para realizarem a consulta, para estabelecer a RBU.

A experiência mais bem-sucedida foi no Estado do Alaska, Estados Unidos, onde, ao final dos anos 1960, foram descobertas grandes reservas petrolíferas, e, em 1976, o governador do Estado propôs aos 300.000 habitantes (hoje, são 730.000), separarem 25% dos rendimentos da exploração de petróleo para constituir um fundo, que pertence a todos. A ideia foi submetida à votação e aprovada pela maioria dos votantes. Criou-se o Fundo Permanente do Alaska, que realiza investimentos em títulos, ações e empreendimentos imobiliários e que passou de 1 bilhão de dólares, no começo dos anos 1980, para 53 bilhões de dólares, hoje. Cada pessoa que vive mais de um ano no Alaska preenche um formulário e cobra sua parte. Em 2008, foram distribuídos 2.069 dólares por semana. Dessa forma, o Alaska, que era o estado mais desigual do país, hoje, é o mais igualitário, juntamente com Utah.

 

Na Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy coordena o programa "Braços Abertos”, para 1.500 pessoas que consomem crack e outras drogas.

Como relaciona, agora, seu compromisso institucional na Prefeitura de São Paulo com a perspectiva mais global de luta contra a exclusão?

Na Prefeitura de São Paulo, coordeno o programa "Braços Abertos”, para 1.500 pessoas que consomem crack e outras drogas, na perspectiva da redução do dano, que podem receber 15 reais por dia, um quarto, temos também um programa para transexuais e LGBT. Para lutar contra a exclusão e a pobreza, é necessário elevar o grau de liberdade e de dignidade da pessoa, necessitamos de justiça política e de justiça redistributiva, a Renda Básica de Cidadania é uma maneira para que todos e todas participem da riqueza da nação. Os encontros de base do Partido dos Trabalhadores (PT), às vezes, começam com a leitura do Êxodo, em busca da Terra Prometida, em busca da reforma agrária. Segundo meu amigo bispo monsenhor Luciano Mendes de Almeida, ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que não menciona somente Marx, existe a carta de São Paulo aos Corintos que fala sobre seguir Jesus, que é tão poderoso vivendo com os mais pobres... Para construir justiça, é preciso colher muito, assegurar a sobrevivência de toda a humanidade, necessitamos de fraternidade, como dizia Luther King, "I have a dream” [Eu tenho um sonho], que defendia o mesmo da Renda Básica Universal; é necessário rechaçar o cálice da violência, lutar contra a pobreza, caminhando versus a Utopia.

O que pensa sobre a corrupção que afeta o PT, continua acreditando na presidenta Dilma?

Em 2014, foi a sétima eleição livre que tivemos. Felizmente, a presidenta Dilma venceu, isto necessita ser respeitado e apoiado. Eu apoio a presidenta Dilma, apoio a democracia e não quero saber nada sobre nenhum tipo de golpismo. Respeito e tenho afinidade com pessoas, como Heloísa Helena, Luiza Erundina, Marta Suplicy, mas prefiro continuar no PT, acredito e sigo acreditando em seus propósitos desde a fundação do PT. Quando existem problemas sérios com algumas pessoas de uma organização política com mais de 1 milhão e meio de afiliados, considero que é minha responsabilidade procurar prevenir e corrigir os erros. Por exemplo, hoje, estou na Secretaria dos Direitos Humanos, onde trabalhamos com transparência, o mesmo com o prefeito Haddad, que criou a controladoria para prevenir problemas.

Concluindo, que balanço faz de sua visita aqui em Bogotá?

Bogotá, por meio de políticas inclusivas e da participação popular, conseguiu diminuir a pobreza de 11,9% (800.000 pobres), em 2012, para 5,4% (420.000), em 2015; é uma realização importante. Durante o Foro Internacional sobre Erradicação da Pobreza e Direito à Cidade, fui aplaudido, mostrando que a proposta da Renda Básica de Cidadania pode promover a paz.

NOTAS

(1) www.bogota2016.uclg.org

(2)http://agencia.fapesp.br/formulan_en_un_estudio_un_diagnostico_de_sao_paulo_en_brasil_en_el_siglo_xxi/21444/

(3) http://www.oas.org/es/cidh/prensa/comunicados/2015/092.asp

(4) http://www.lanacion.com.py/2015/08/19/quien-es-el-principal-sospechoso-de-masacres-en-brasil-la-policia/

(5) http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=ES&prevlang=PT&cod=85036

(6) http://revistarayuela.ednica.org.mx/resource/reconocimiento-internacional-de-la-carta-abierta-naciones-unidas-escrita-por-74-expertos-so

(7) http://www.adital.com.br/site/noticia_imp.asp?lang=ES&img=N&cod=87009

(8)Especialistas alertam que urbanização exclui milhões de crianças , 07 MARÇO 2012 -

http://cristovam.org.br/portal3/index.php?option=com_content&view=article&id=4704:especialistas-alertam-que-urbanizacaoexclui-milhoes-de-criancas&catid=160:infanciaejuventude&Itemid=100124

AUTOR

*Cristiano Morsolin, pesquisador italiano radicado na América Latina desde 2001. Cofundador do Observatório sobre América Latina SELVAS (Milão), autor de vários livros, pesquisa a relação entre movimentos sociais e políticas emancipatórias. Colabora com a Universidade Federal do Espírito Santo (Brasil) e outras organizações internacionais sobre o tema direito à cidade e segregação nas periferias.

https://diversidadenmovimiento.wordpress.com/