Notícia

JC e-mail

Brasil deveria estar mais adaptado a mudanças climáticas, diz ministério

Publicado em 10 setembro 2013

Secretário do Ministério de Ciência e Tecnologia afirma que falta mais integração entre ciência e criação de políticas

O Brasil já deveria estar se adaptando muito mais às mudanças climáticas, na opinião do secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, Carlos Nobre. Pouco antes do lançamento oficial do primeiro relatório de avaliação nacional sobre clima, produzido pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), Nobre demonstrou nesta segunda-feira a preocupação com a necessidade de haver mais políticas públicas e ações da iniciativa privada brasileira sobre transformações no meio ambiente que são, segundo ele, inexoráveis.

 

Projeções do PBMC indicam que a temperatura média no Brasil será de 3 a 6 graus Celsius mais elevada em 2100 do que no final do século XX, dependendo do padrão futuro de emissões de gases de efeito estufa, como adiantou a revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O relatório que o PBMC deve apresentar na tarde desta segunda-feira vai mostrar também que na Amazônia e na caatinga a quantidade de chuvas pode ser 40% menor e nos pampas há uma tendência de aumento de um terço nos índices de chuvas.

 

Carlos Nobre reclama que apesar de o setor da agricultura brasileira tomar medidas de planejamento em relação às mudanças climáticas - porque os agricultores já estão sentindo na prática os efeitos das alterações no clima - em outras áreas não há ações sendo feitas.

 

- O Brasil já deveria estar se adaptando muito mais a mudanças climáticas. Por exemplo: é inexorável que o nível do mar vai aumentar. Não sabemos exatamente quando. Até o final do século pode ser 50 cm, até 1 metro, 1,20 metro. Isso não tem mais como mudar. Mas o Brasil tem políticas de uso do espaço costeiro de convivência com esse aumento? Não. Até agora não tem. É como se o nível do mar não existisse - disse Carlos Nobre.

 

O secretário diz que se preocupa muito com o desenvolvimento de políticas de adaptação no Brasil que assegurem uma transição para um desenvolvimento sustentável a curtíssimo prazo.

 

- Não é a médio prazo, dez anos, 20 anos, 30 anos - diz Nobre.

 

Segundo ele, o Ministério da Ciência e Tecnologia está fazendo o seu papel, de investir no desenvolvimento de pesquisas e geração de conhecimento, mas ainda falta uma maior integração entre pesquisas e criação de políticas. Na opinião dele, é preciso que outros setores do governo e outros agentes se mobilizem.

 

- Eu espero que essa reunião do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas sirva como um despertar, para chamar a atenção dos formuladores e da sociedade em geral, porque não existe formulação de política pública que não seja através de uma pressão social - disse. - (O ministério de Ciência) é o ministério que oferece diagnósticos. E muitas das políticas não são nem federais, elas são estaduais, setoriais, ou têm que ser adotadas pela iniciativa privada -completou Carlos Nobre.

 

No entanto, para Nobre, o Brasil vai conseguir atingir as suas metas de redução de emissões de gases e vem se empenhando mais que outros países em desenvolvimento.

 

- O Brasil está bastante comprometido, é um ponto fora da curva. Acho que o Brasil vai atingir suas metas em 2020.

 

O secretário não pareceu ter grandes expectativas em relação à próxima Convenção do Clima, que será realizada em novembro, em Varsóvia (Polônia).

 

- Cada COP (conferência climática) tem um pequeno avanço. Mas na minha opinião é muito pequeno esse avanço. Por mais que eu seja totalmente favorável ao multilateralismo e não veria nenhuma possibilidade fora do multilateralismo, acho que esse mecanismo global está deixando muito a desejar. Ele não está conseguindo um grande acordo que sinalize uma inflexão das emissões em algum momento no futuro próximo. E por outro lado também não está conseguindo gerar recursos suficientes que permitam aos países mais pobres, e eu não estou colocando o Brasil nessa lista, se dotarem de ferramentas de adaptação - disse.

 

Na opinião de Carlos Nobre, os esforços feitos pela ONU não têm sido suficientes.

 

- Alguma coisa tem que acontecer em outra esfera e eu não sei qual é, porque não existe governança global. A ONU é hoje um mecanismo de governança global e esse mecanismo está colocando avanços micrométricos todos os anos mas não o suficiente para, na visão de um cientista, falar "o risco no futuro foi diminuído". Hoje o risco no futuro existe e é muito preemente.

 

Assim como outros analistas ambientais, Nobre disse achar possível, mas improvável que a comunidade internacional chegue a um acordo que defina metas obrigatórias de redução de emissões em todos os países para conter o aumento de temperatura na Terra em 2 graus Celsius até 2050. O acordo, se for alcançado, seria incluído em 2015 num convênio global para vigorar em 2020.

 

- Possível é. Mas provável acho que não. Tem que ter alguma mudança estrutural na maneira como as negociações avançam e no desejo dos países - afirmou, dizendo ser fundamental que Estados Unidos e China se engajem na redução de emissão de gases e na busca de energia limpa.

 

(Marcelle Ribeiro/O Globo)

http://oglobo.globo.com/ciencia/brasil-deveria-estar-mais-adaptado-mudancas-climaticas-diz-ministerio-9884552#ixzz2eUt4n3IM