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Jornal Floripa

Brasil deveria aprofundar relação com Israel, mas não mudar embaixada, avalia Celso Lafer

Publicado em 10 novembro 2018

À frente do Ministério das Relações Exteriores em duas ocasiões, em 1992 (governo Collor) e entre 2001 e 2002 (FHC), o jurista Celso Lafer, 77, vê com bons olhos a aproximação do Brasil com Israel desejada pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

Mas pondera: transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, intenção externada por Bolsonaro em algumas ocasiões , não é uma boa ideia. "Um país deve selecionar as áreas de atrito, e não ampliar suas áreas de atrito", disse em entrevista ao UOL .

Descendente de família judaica e autor de "A Reconstrução dos Direitos Humanos - um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt", sobre a obra de uma das mais influentes pensadoras judias do século 20, Lafer diz que sua avaliação parte de "uma perspectiva laica, não religiosa".

"Considerando a dimensão simbólica que a mudança da embaixada tem, eu não me precipitaria", afirmou Lafer.

Veja também: Jerusalém é a capital de Israel? Não para todos. Entenda os argumentos Autoridades palestinas esperam que Bolsonaro tenha 'sabedoria' sobre embaixada Post de filhos de Bolsonaro com referência a forças de Israel gera polêmica no país Hoje, embaixada está em Tel Aviv

Atualmente, a embaixada brasileira (assim como a da maior parte dos países) está instalada em Tel Aviv, cidade que funciona como capital israelense para comunidade internacional.

Foi ali onde, em 1948, Israel declarou independência.

Mas para Israel (e também para a Palestina), a capital deveria ser Jerusalém. E em 1980, o governo israelense declarou a cidade sagrada sua capital "indivisível" e anexou a parte leste -- o que contraria acordos internacionais que previam que a cidade deveria ser compartilhada entre israelenses e palestinos.

"Quem decide a capital do Estado é o respectivo Estado. Não vejo o porquê desta celeuma toda", disse Bolsonaro na última quarta-feira (7).

Lafer explica:

Jerusalém é uma cidade simbólica. Reconhecer Jerusalém (como capital de Israel), neste momento, na minha percepção, é mais ou menos como jogar uma pá de cal no tema dos dois estados [Israel e Palestina]

A transferência da embaixada também contraria os Acordos de paz de Oslo (1993), que previam negociações pacíficas entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina sobre fronteiras e o status de Jerusalém.

"Sei que os acordos de Oslo vêm sendo comprometidos por várias circunstâncias. Israel tem a sua responsabilidade, mas os palestinos também", avalia Lafer.

Uma possível mudança da embaixada do Brasil mimetiza movimento realizado em maio por Donald Trump, que levou a embaixada dos EUA para Jerusalém.

Lafer diz que o gesto de Trump respondia também às aspirações de grupos evangélicos nos Estados Unidos. "Acho que este é o caso de Bolsonaro também", afirmou.

O ex-chanceler alerta ainda que a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém poderia atrapalhar o comércio brasileiro com os países árabes.

"Pode afetar, porque símbolos e valores têm o seu papel na política externa. A situação do Oriente Médio também é muito complicada. Existe hoje um tipo de entendimento entre Arábia Saudita, Egito e Israel que se contrapõe a Irã e talvez Turquia, por exemplo. No entanto, o Egito suspendeu a visita oficial por problemas de agenda, o que mostra que este é um tema que gera muito atrito", disse Lafer.

Expertise israelense

Mesmo sem mudar a embaixada de local, Lafer acredita que há espaço - e vantagens - para um aprofundamento das relações entre Brasil e Israel.

O presidente eleito reuniu-se algumas vezes com o embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelly, durante a campanha e após a vitória. E Bolsonaro elogiou, em reiteradas oportunidades, o poderio militar e científico de Israel.

"Bolsonaro está querendo romper as resistências ideológicas que existem. Ele deveria dar prioridade para toda a área de pesquisa, ciência e inovação. Israel é um modelo inovador nesta área", disse.

"Examinei isso mais de perto quando presidi a Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], e acompanhei um pouco do que se faz em Israel. Esta é uma área que eu escolheria como prioritária e preferencia, mais do que qualquer outra coisa", afirmou. "É uma área onde Israel tem interesse, e onde o Brasil também tem. E significaria um adensamento das relações", defende.