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Brasil decola na biologia estrutural

Publicado em 14 setembro 2001

Quando o Brasil decidiu investir na capacidade de fazer Seqüenciamento no fim dos anos 90, sabia-se que ele não tinha poder de fogo para competir com os gigantes industriais. Então, ele escolheu um nicho - plantas indígenas e bactérias - importante para a saúde pública e para a economia do país. A estratégia funcionou: no ano passado, seus cientistas viraram notícia ao completar o primeiro seqüenciamento público de um fitopatógeno, a bactéria Xylella fastidiosa, causadora de doença que ataca culturas cítricas e outras plantações. Esse triunfo levou o país a criar confiança para se habilitar à próxima etapa, a do genoma funcional. O Brasil está apostando que sua modesta infra-estrutura uma nova rede de biologia estrutural ligada ao único Laboratório de Luz Síncrotron do Hemisfério Sul - será suficiente para chegar aos ganhos almejados e dar ao Brasil a base de apoio neste campo em expansão já tão concorrido. No inicio de agosto, destacados cientistas de todo o mundo reuniram-se em SP para conhecer as instalações e conhecer melhor a rede. Mas eles alertaram o pessoal do governo que o caminho à frente será difícil. "Na ciência competitiva de hoje, não há ninguém em posição confortável", diz Johann Deisenhofer. Prêmio Nobel de Química de 88 e pesquisador do Centro Médico Sudoeste da Universidade do Texas, Dalas, EUA. "O Brasil parece estar caminhando para entrar na competição científica, mas ainda tem um longo caminho pela frente". A Rede de Biologia Molecular Estrutural engloba 16 laboratórios no estado de SP. Criada este ano, a rede já está se expandindo, com planos para convidar em setembro laboratórios de todo o país a disputarem uma das 10 novas vagas. "Antes de mais nada, queremos melhorar a capacidade do Brasil na área, contribuindo para a formação de recursos humanos", diz Rogério Meneghini, bioquímico e diretor do Centro de Biologia Molecular Estrutural, SP, que coordena toda a rede. Mas criar uma massa crítica de pesquisadores é objetivo bastante ambicioso, admite o físico Glaucius Oliva, membro da rede. "Quando o programa Genoma Brasileiro começou, há quatro anos, nosso país tinha um grupo de especialistas em seqüenciamento", diz Oliva, também professor da USP. "Tudo o que precisávamos fazer era jogar a semente e esperar o resultado da plantação." O banco de dados tem considerável porção do genoma da cana-de-açúcar, a seqüência completa da Xylella fastidiosa, que ataca laranjais, e Xanthomonas axonopodis pv. Citri, causadora do câncer cítrico. Em contraste, observa Meneghini, há apenas cerca de 20 biólogos estruturais em todo o Brasil. A rede está recebendo US$ 3,2 milhões em quatro anos da Fapesp, a mais rica e bem-sucedida agencia de fomento no Brasil. O dinheiro vai para materiais e equipamentos, com a expectativa de que a indústria entre com recursos adicionais como parte de seu apoio a projetos importantes. "Seria muito bom se os recursos fossem maiores", diz Wayne Hendrickson, pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes da Universidade de Cotumbia. EUA. "Por outro lado, o importante a fazer - sempre que os recursos são limitados - é definir devidamente o foco. O foco que está emergindo no Brasil são as doenças tropicais, que permanecem muito específicas para as condições econômica, social e de saúde no Brasil." Entre os objetivos iniciais estão as proteínas relacionadas à malária, hepatite B e os vírus variantes do HIV que prevalecem TV Brasil. O centro de pesquisa dirigido por Meneghini é voltado para clonagem, purificação e cristalização de proteínas. Ele é parte do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), de primeira geração, uma máquina de 1,37 gigaeletrons volts com capacidade para 24 linhas de luz. O laboratório, atualmente com 10 linhas de luz em operação, gastou há pouco US$ 1,5 milhão com a aquisição de duas máquinas de ressonância magnética nuclear dedicadas à análise de proteínas. Outros pesquisadores reconhecem o potencial do programa, mas sabem que serão necessários mais recursos. As instalações do LNLS, especialmente os laboratórios de biologia, são de ponta e não muito diferentes dos laboratórios norte-americanos, diz Deisenhofer. "O síncrotron brasileiro é pequeno em comparação com as máquinas de terceira geração da Europa, Japão e EUA, mas é um bom ponto focai para o crescimento de uma comunidade especializada em biologia estrutural." Hendrickson acrescenta: "Hoje, a máquina não é forte o suficiente para ser competitiva. Mas a know-how para caracterizar proteínas está aqui, com o mesmo potencial que permitiu ao Brasil tomar-se competitivo em seqüenciamento." Meneghini afirma que a Fapesp planeja investir mais, US$ 3,5 milhões para implementar os avanços capazes de aumentar a energia dos raios X necessários para análise de proteínas e também a resolução da fonte de luz, tornado-a comparável às fontes mais poderosas do mundo. Enquanto isso, membros da rede elaboram a lista das proteínas específicas a serem pesquisadas. A lista, porém, deve ser mantida em sigilo em vista de seu provável valor comercial. "Se uma proteína analisada for promissora, vamos patentear primeiro, para só depois publicar", diz Meneghini. Ele também promete ser rápido: "Esperamos ter os primeiros resultados até o final do ano." (Texto da Science, de 31/9 - Tradução de Carta Almeida e José Monserrat Filho) - Jornalista de ciência 1° PRÊMIO PUC-RJ O 1º Prêmio Mostra PUC-RJ agraciou 13 trabalhos dos 46 inscritos, nas quatro diferentes categorias previstas. Concorreram alunos de graduação e pós-graduação matriculados no ano de 2001 em estabelecimentos de ensaio superior do estado do RJ. O valor de cada premiação foi de R$ 8 mil destinados à viabilização do projeto apresentado. A PUC-RJ teve quatro trabalhos premiados, dois na área de Teologia e Ciências Humanas e dois na área de Ciências Sociais, empatados em 1º lugar. Outro projeto de parceria entre a PUC-RJ, a UFF e a UniRio, foi vencedor na área de Teologia. Dois trabalhos da UFRJ foram premiados, um na área Biomédica e outro na Técnico - Científica. Também a Uenf foi contemplada com dois prêmios nestas mesmas áreas. AUFF teve dois trabalhos agraciados, um na área de Ciências Sociais e outro na Técnico-Científica. A Unigranrio teve trabalho vencedor na área Biomédica. Foram inscritas no certame 38 instituições de ensino superior. O julgamento foi realizado em apenas uma etapa. CBPF MOSTRA O QUE TEM PESQUISADO O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), fundado em 1949, está lançando CBPF - na Vanguarda da Pesquisa, sua primeira publicação da divulgação científica, que busca apresentar a um público leigo seus principais trabalhos de pesquisa. A iniciativa se deve, em especial, à necessidade de mostrar à opinião pública a importância científica do Centro, que está sendo avaliado pelo MCT. "Resolvemos mostrar as pesquisas feitas em nossa instituição de forma compreensível ao grande público", afirma o diretor do CBPF, João dos Anjos. Cada grupo de pesquisa assumiu o desafio de resumir em cerca de 1.500 palavras os projetos em curso. Foi uma tarefa difícil e muitos estiveram a ponto de desistir. Extrair as idéias mestras e colocá-las em forma compreensível para a maioria da população parecia em alguns casos uma tarefa impossível. Mas, uma cobrança persistente por parte dos editores e de várias interações dos autores com Cássio Leite Vieira, editor científico, permitiu chegar-se a textos homogênios, claros, simples e concisos sobre 25 temas tão complexos como novas entropias, caos quântico, estabilidade nuclear, supercondutividade, partículas elementares e biominerais magnéticos, entre outros. A publicação traz ainda um perfil e breve histórico do CBPF e depoimentos exclusivos de quatro de seus fundadores, os físicos César Lattes, José Leite Lopes, Jayme Tiomno e Elisa Frota-Pessoa. Problema adicional foi conseguir financiamento para produzir uma publicação de qualidade, com ilustrações que contribuem muitas vezes para facilitar a compreensão dos artigos. Mais uma vez a persistência dos editores foi essencial para se encontrar órgãos e empresas dispostos a financiá-la. Por fim, graças ao apoio do MCT, da Agência Nacional de Petróleo (ANP), da Faperj e da empresa Cimcorp a revista ficou pronta. Seu lançamento será realizado no próprio CBPF, no fim de setembro, com a possível presença do ministro da C&T, Ronaldo Sardenberg. Peça seu exemplar pelo e-mail JC e-mail