Pesquisadores ligados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante, da Universidade de São Paulo, anunciaram a obtenção do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O feito representa um passo decisivo para o avanço do xenotransplante, técnica que busca utilizar órgãos de animais em humanos.
O animal nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba, e integra um projeto voltado à criação de suínos geneticamente modificados para reduzir o risco de rejeição imunológica em transplantes.
Segundo Ernesto Goulart, professor do Instituto de Biociências da USP e pesquisador responsável pelo projeto, a clonagem de suínos é uma das etapas mais complexas nesse tipo de estudo. Ele destaca que, apesar da experiência brasileira com clonagem de bovinos e equinos, os porcos apresentam desafios biológicos ainda pouco compreendidos.
Os suínos são considerados candidatos ideais para doação de órgãos devido à semelhança estrutural e funcional com os órgãos humanos. No entanto, sem modificação genética, há rejeição imediata pelo sistema imunológico. Para contornar esse problema, os pesquisadores desativaram três genes suínos associados à rejeição e inseriram sete genes humanos nas células dos animais.
Os embriões modificados foram implantados em fêmeas híbridas das linhagens Landrace e Large White. Após cerca de quatro meses de gestação, nasceu o primeiro exemplar saudável, pesando 1,7 quilo.
De acordo com a equipe, o sucesso do nascimento indica domínio da técnica e abre espaço para novas gestações já em andamento. O objetivo é viabilizar o uso de órgãos como rim, coração, córnea e pele, que juntos atendem a maior parte da demanda por transplantes no Sistema Único de Saúde.
Experimentos semelhantes já vêm sendo realizados em países como Estados Unidos e China. Casos recentes incluem transplantes cardíacos com sobrevida de cerca de 60 dias e transplantes renais com funcionamento por meses, evidenciando o potencial da tecnologia, embora ainda em fase experimental.