Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram, no fim de março, o nascimento do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O feito, resultado de quase seis anos de estudos, ocorreu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP), e é considerado um marco para o avanço do xenotransplante, técnica que busca viabilizar o uso de órgãos de animais em humanos.
O projeto é desenvolvido pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR) e reúne pesquisadores como os médicos Silvano Raia, Mayana Zatz e Jorge Kalil. A iniciativa começou em 2019, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), e tem como objetivo desenvolver suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos compatíveis com o organismo humano, reduzindo o risco de rejeição.
Segundo os pesquisadores, a clonagem de suínos é uma das etapas mais complexas do processo, especialmente devido a desafios biológicos ainda não totalmente compreendidos. Apesar disso, os porcos são considerados candidatos ideais para doação de órgãos por apresentarem semelhanças anatômicas e fisiológicas com os humanos, além de rápida reprodução. Para viabilizar os transplantes, os cientistas utilizam técnicas avançadas de edição genética, como o CRISPR-Cas9, que permite desativar genes responsáveis pela rejeição e inserir genes humanos nas células dos animais.
O primeiro animal clonado nasceu saudável, com 1,7 kg, após gestação de quase quatro meses. Os embriões foram implantados em fêmeas híbridas das linhagens Landrace e Large White. De acordo com a equipe, outras gestações já estão em andamento, o que indica domínio da técnica e abre caminho para a expansão do projeto.
Os suínos serão mantidos em instalações com alto nível de biossegurança, incluindo laboratórios inaugurados em 2024 e 2025 em São Paulo, preparados para produzir animais em grau clínico e livres de patógenos. O controle sanitário rigoroso é considerado essencial, já que os órgãos produzidos poderão ser utilizados como produtos médicos, sem risco de transmissão de doenças.
Inicialmente, o foco será a produção de rins, córneas, corações e pele, que juntos representam cerca de 94% da demanda por transplantes no Sistema Único de Saúde (SUS). A expectativa é que, no futuro, os órgãos produzidos no Brasil tenham custo inferior aos desenvolvidos por países como Estados Unidos e China, tornando a tecnologia mais acessível.
Embora ainda não haja aprovação para a realização de xenotransplantes em larga escala, estudos clínicos já estão em andamento no exterior. Para os pesquisadores brasileiros, dominar essa tecnologia é estratégico para garantir autonomia ao país e fortalecer o sistema público de saúde, que concentra a maior parte dos transplantes realizados no Brasil.