Cientistas da USP em Piracicaba conseguiram criar o primeiro porco clonado da América Latina, um animal de 1,7 kg nascido após seis anos de tentativas, com o objetivo de usar seus órgãos geneticamente modificados para transplantes em humanos e reduzir as filas de espera do SUS.
Resumo
Cientistas da USP em Piracicaba criaram o primeiro porco clonado da América Latina após seis anos.
O animal de 1,7 kg nasceu em laboratório, marcando avanço na clonagem de suínos no Brasil.
Objetivo é usar órgãos de suínos geneticamente modificados para transplantes em humanos.
Projeto foca em rim, córnea, coração e pele, que representam 94% da demanda do SUS.
Porcos são escolhidos por semelhança de órgãos com humanos, exigindo edição genética.
Pesquisadores inativaram genes de rejeição e empregaram genes humanos para compatibilidade.
Cientistas da USP em Piracicaba conseguiram criar o primeiro porco clonado da América Latina, um animal de 1,7 kg nascido após seis anos de tentativas, com o objetivo de usar seus órgãos geneticamente modificados para transplantes em humanos e reduzir as filas de espera do SUS.
O animal, que nasceu com 1,7 kg em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba, interior de São Paulo, é resultado de um trabalho de quase seis anos de pesquisadores vinculados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR) da Universidade de São Paulo (USP).
Marco na clonagem de suínos no Brasil
A clonagem de suínos é considerada uma técnica mais complexa do que a clonagem de gado, área em que o Brasil já possui vasta experiência com bovinos e equinos. Segundo Ernesto Goulart, professor do Instituto de Biociências (IB) da USP e principal pesquisador do XenoBR, dominar essa etapa era um dos maiores desafios do projeto. O fato de o animal ter nascido saudável indica o sucesso da técnica, e outras gestações já estão em andamento.
Porcos como doadores de órgãos para humanos
Há anos, os porcos são escolhidos como potenciais doadores para xenotransplantes devido às semelhanças de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os humanos. No entanto, para evitar a rejeição imunológica, o genoma do animal precisa ser editado.
Os pesquisadores brasileiros inativaram três genes suínos que induzem a rejeição e inseriram sete genes humanos nas células suínas para aumentar a compatibilidade com o organismo do receptor. Os embriões resultantes foram transferidos para fêmeas híbridas (linhagens Landrace e Large White), e após uma gestação de quase quatro meses, o primeiro clone nasceu.
O projeto visa utilizar os órgãos desses animais geneticamente modificados para realizar transplantes em humanos, contribuindo para a redução das filas de espera do Sistema Único de Saúde (SUS). Inicialmente, o foco está em rim, córnea, coração e pele. Juntos, esses órgãos e tecidos representam 94% da demanda atual por transplantes no sistema público brasileiro, que financia a maioria desses procedimentos.
Avanços e desafios dos xenotransplantes
Estudos clínicos com xenotransplantes já estão sendo conduzidos em países como Estados Unidos e China, além do Brasil. Goulart mencionou que os primeiros transplantes cardíacos em pacientes resultaram em sobrevida de cerca de 60 dias. Um transplante de rim em um paciente funcionou por meses, com o falecimento posterior sendo atribuído a um infarto não relacionado ao transplante. Outro paciente teve o rim funcionando por mais de 270 dias antes de retornar à diálise.
Os porcos têm sido escolhidos como potenciais doadores para xenotransplante por causa das semelhanças de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os dos humanos — Foto: Docme Comunicação para Genoma USP/divulgação