Suínos crescem rápido e, em cerca de 7 meses, já servem para transplantes em humanos de 80 kg.
Pesquisadores vinculados ao Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), da Universidade de São Paulo (USP), celebraram nas últimas semanas um resultado aguardado há quase seis anos. Após diversas tentativas, o grupo conseguiu obter o primeiro porco clonado no Brasil e na América Latina.
O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba, no interior de São Paulo. O nascimento representa um marco para o avanço de um projeto ambicioso no país: gerar suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos sem provocar rejeição imunológica.
A iniciativa é liderada pelo cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP, pela geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco, um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiado pela FAPESP, e pelo imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.
O projeto teve início em 2019, por meio de uma parceria com a farmacêutica EMS no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) da FAPESP, e ganhou escala a partir de 2022 com a criação do XenoBR, um dos centros financiados pela fundação.
A despeito do desafio de cloná-los, os porcos têm sido escolhidos como potenciais doadores para xenotransplante por causa das semelhanças de tamanho e funcionamento de seus órgãos com os dos humanos. Além disso, são domesticados, se reproduzem bem em cativeiro e originam ninhadas grandes em poucos meses.
Se os órgãos desses animais fossem transplantados diretamente em humanos, contudo, seriam rejeitados imediatamente pelo sistema imune humano. Por isso, o genoma do animal precisa ser editado.
"O xenotransplante envolve uma cadeia de tecnologias complexas, como a modificação genética utilizando a ferramenta CRISPR/Cas9", explica Goulart.
Com essa ferramenta, que permite inserir ou deletar nucleotídeos (blocos de construção do material genético) e até genes inteiros no genoma, os pesquisadores inativaram três genes suínos que induzem a rejeição. Com isso, utilizando técnicas de inserção gênica de precisão, que emprega uma enzima capaz de cortar a dupla fita do material genético celular em um ponto específico e inserir novos segmentos, empregaram sete genes humanos nas células suínas para torná-las mais compatíveis com o organismo do receptor.
Os embriões resultantes dessas edições foram transferidos para fêmeas híbridas (linhagens Landrace e Large White). Após uma gestação de quase quatro meses, o primeiro clone de suíno nasceu saudável, com 1,7 kg.