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Gazeta Mercantil

Brasil constrói telessensor de ondas gravitacionais

Publicado em 02 setembro 2002

O Brasil começa a integrar a rede internacional de detecção de ondas gravitacionais com a construção do seu primeiro telessensor gravitacional. O equipamento, que está em fase final de desenvolvimento no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), tem capacidade de detecção considerada bastante competitiva em relação aos maiores interferômetros laser existentes hoje no mundo. A detecção das ondas gravitacionais tornou-se um dos maiores desafios da ciência, já que o fenômeno só chega à Terra com amplitudes menores que um bilionésimo do diâmetro de um átomo. Até hoje, os maiores observatórios gravitacionais existentes nos Estados Unidos e na Itália só conseguiram atingir esse nível de sensibilidade com investimentos que ultrapassam a casa dos US$ 360 milhões. "Os detectores norte-americanos, por exemplo, possuem dois túneis de vácuo, perpendiculares entre si, medindo cerca de quatro quilômetros cada um", comenta Odylio Aguiar, coordenador do projeto Gráviton no Brasil. O telessensor brasileiro, batizado de Mário Schenberg em homenagem a um dos maiores físicos do País, morto em 1990, utiliza uma técnica de detecção mais barata, com antenas esféricas ressonantes. Segundo Odylio Aguiar, embora pequeno (65 cm de diâmetro), o telessensor terá uma sensibilidade para detectar ondas na faixa de freqüência de 3 mil a 3,4 mil Hertz. Os telessensores estrangeiros observam ondas numa faixa de freqüência mais larga, de 1 mil a 10 mil Hertz. "Nosso equipamento, porém, vai operar numa faixa competitiva, pois tem sensibilidade igual ou superior aos grandes interferômetros laser". A previsão é que entre em operação no final de 2003. As ondas gravitacionais são deformações no espaço que se propagam com a velocidade da luz. Apesar de terem sido comprovadas matematicamente por Albert Einstein, em 1916, as ondas nunca foram detectadas diretamente. A detecção indireta da onda ou do efeito causado pela emissão dela sobre um sistema binário de estrelas valeu o prêmio Nobel de Física em 1993 aos cientistas norte-americanos Taylor e Hulse. OBSERVAÇÃO DO UNIVERSO O conhecimento dessas ondas, de acordo com Aguiar, abrirá uma janela para a observação do universo ao permitir a descoberta de fenômenos nunca revelados pela física e astrofísica. A observação desses fenômenos ajudarão a ciência, por exemplo, a ampliar seus conhecimentos em tecnologias de supercondutores, supercriogenia (resfriamento de materiais) e até no controle da gravidade, a partir do entendimento de como as forças da natureza se interagem. Os equipamentos de detecção de ondas gravitacionais mais sensíveis em operação hoje estão nos Estados Unidos, Itália, Alemanha, Austrália e Japão. "O objetivo dos cientistas envolvidos nesses projetos é chegar a uma sensibilidade de 100 a mil vezes menor que a de um bilionésimo do diâmetro de um átomo, pois nessa dimensão a ocorrência das ondas é muito rara." Além de ser mais barato, cerca de US$ 800 mil, o telessensor brasileiro tem outras vantagens tecnológicas em relação aos seus concorrentes no mundo. A geometria esférica escolhida para o equipamento, segundo o pesquisador Odylio Aguiar, permite que ele seja capaz de determinar a localização no céu de onde veio a onda e também a sua polarização. "Nos telessensores laser, essa capacidade só é obtida se quatro deles estiverem simultaneamente em operação e orientados para pontos diferentes." Os telessensores norte-americanos, segundo o pesquisador, estão paralelos, não sendo possível determinar os parâmetros de localização e polarização da onda. A Itália e a Holanda também estão desenvolvendo telessensores que utilizam antenas esféricas ressonantes, com o detalhe de que as esferas são fabricadas no Brasil pela empresa Italbronze, de Guarulhos, em São Paulo. A esfera é feita de uma liga de cobre e alumínio, que pesa cerca de 1,5 tonelada. FAPESP FINANCIA PROJETO O projeto do telessensor é financiado com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e conta com a participação da Universidade de São Paulo (USP), onde o equipamento ficará instalado, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Federal de Ensino de São Paulo, da Universidade Bandeirante, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade de Leiden, na Holanda. O centro emergente de análise de dados do detector brasileiro ficará instalado no Departamento de Física do ITA, em São José dos Campos (SP). Toda a rotina de análise de dados do detector será feita pelos pesquisadores do Inpe em conjunto com os alunos do ITA e dos alunos de pós-graduação do Inpe. O pesquisador holandês que colabora com o projeto brasileiro, Georgio Frossati, desenvolveu o curso de mestrado nessa área no Brasil, no Instituto de Física da USP, durante o tempo em que morava no País. Frossati, que hoje é o chefe da equipe envolvida na construção do telessensor holandês, já esteve no livro dos recordes na década de 80, como o cientista que conseguiu as temperaturas mais baixas em experimentos para observação de ondas gravitacionais..