A prioridade do projeto é fornecer rins, córneas, coração e pele para o SUS, que responde por 90% a 96% dos transplantes no Brasil.
BRASIL – Pesquisadores da USP obtiveram, no final de março, o primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP), após quase seis anos de tentativas.
O marco faz parte do projeto XenoBR (Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante), liderado pelos professores Silvano Raia, Mayana Zatz e Jorge Kalil, com apoio da FAPESP. O objetivo é gerar suínos geneticamente modificados capazes de fornecer órgãos para transplantes em humanos sem rejeição imunológica.
A clonagem de suínos é considerada tecnicamente mais desafiadora do que a de bovinos e equinos, domínio já consolidado no Brasil. Porcos são escolhidos para xenotransplante devido às semelhanças de tamanho e funcionamento dos órgãos com os humanos, além da reprodução rápida e ninhadas numerosas.
Para evitar a rejeição, os pesquisadores usaram a ferramenta CRISPR/Cas9 para inativar três genes suínos que induzem a rejeição. Em seguida, empregaram técnicas de inserção gênica de precisão (com enzimas que cortam o DNA em pontos específicos) para adicionar sete genes humanos às células suínas, tornando-as mais compatíveis.
Os embriões editados foram transferidos para fêmeas híbridas (Landrace e Large White). Após gestação de quase quatro meses, o clone nasceu saudável, com 1,7 kg. Outras gestações já estão em andamento, indicando o domínio do processo.
Os porcos clonados serão mantidos em dois laboratórios pioneiros de grau clínico na América Latina, com rigoroso controle sanitário (nível de biossegurança NB2). Um foi inaugurado em 2024 no campus da USP; o segundo, no final de 2025, no IPT. Os animais crescem rápido: com cerca de 7 meses atingem peso para transplante em adulto de 80 kg.
A prioridade do projeto é fornecer rins, córneas, coração e pele para o SUS, que responde por 90% a 96% dos transplantes no Brasil. A meta é que o custo dos órgãos produzidos no país seja uma fração do valor praticado por Estados Unidos e China, que já realizam estudos clínicos e casos de uso compassivo do xenotransplante.