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Brasil Econômico

Brasil busca meta realista para a inovação

Publicado em 02 dezembro 2009

Cientistas, empresários e governos tentam chegar a um consenso em torno de metas mais realistas para o progresso da inovação na indústria brasileira.Todos reconhecem ter havido, desde 2004, com a edição de novas leis federais de incentivo, importantes avanços no fomento da pesquisa e do desenvolvimento de produtos e processos inovadores. Apesar disso, ainda consideram insuficiente o volume de investimentos diante da crescente competição pós-crise mundial. Segundo especialistas ouvidos pelo BRASIL ECONÔMICO, a melhora desse indicador requer maior sintonia entre projetos privados e contrapartidas fiscais do setor público.

Para Carlos Américo Pacheco, professor de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Brasil encontra-se numa posição mediana no ranking mundial da inovação, aplicando 1%do Produto Interno Bruto (PIB) em aprimoramento tecnológico, "o que não é de todo ruim". Enquanto outros pesquisadores e entidades da indústria defendem a multiplicação desse percentual para três ou quatro vezes, o pesquisador da Unicamp considera razoável a meta de 1,5%em dez anos. Para o professor, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, o ideal seria o Brasil pelo menos conquistar a liderança em inovação entre os grandes emergentes, observando líderes tradicionais como Alemanha, Estados Unidos e Japão. "Entre nossos competidores diretos, estamos à frente da África do Sul e do México, praticamente empatados com Índia, mas bem atrás de China e Rússia", diz.

Pacheco considera legítimas (mas exageradas) as críticas sobre a burocracia para obter recursos dos programas federais de incentivo e renúncia fiscal, mas acha que a sociedade precisa entender que o investimento em desenvolvimento tecnológico tem repercussões em toda a economia. E a meta ideal de 1,5% até 2019 seria alcançada mediante um aumento dos desembolsos e isenções dos governos, dos atuais 0,05% para 0,15%. "A inovação se consagra no setor privado, mas com apoio estatal", diz, acrescentando que é importante o empresário entender que investir em inovação não é modismo, mas algo do qual o crescimento da economia vai depender.

Diálogo com empresas

"Encorajar a inovação é algo urgente, mais do que os empresários pensam. Mas também é importante que esse avanço seja feito de forma estrutural", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Sobre a parceria essencial entre universidades e empresas, ensinada pelas nações mais desenvolvidas e até por emergentes, o Brasil tem conseguido bons avanços, sobretudo o acadêmico.

Para Brito, o maior entrave no diálogo entre os atores da inovação é cultural e está nas empresas, devido à falta de cientistas na sua folha de pagamento.

"A indústria brasileira foi exposta muito tardiamente à competição internacional, nos anos 1990, e não criou o hábito de ter pesquisadores em seus quadros", diz.

Os dois lados ainda custam a falar a mesma língua, apesar de avanços recentes.