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Jornal do Brasil

BRASIL AVANÇA NO BEM-ESTAR HUMANO

Publicado em 16 julho 1996

O Brasil passou do 63° lugar para o 58° no ranking de desenvolvimento humano da ONU, que leva em consideração fatores como a renda per capita, a expectativa de vida e o acesso á educação. Na América Latina, porém, o Brasil está abaixo da Argentina (30°), Costa Rica (31°), Uruguai (32°), Chile (33°), Panamá (43°), México (48°) e Colômbia (49°). Na avaliação do desenvolvimento humano em todo o planeta, a ONU alerta para o crescimento das desigualdades e afirma que 358 bilionários controlam uma renda maior do que os países que abrigam 45% da população mundial. O Canadá é o primeiro país do mundo em termos de bem-estar humano, seguido dos Estados Unidos e do Japão. No fim da lista estão três nações africanas: Somália, Serra Leoa e Nigéria. A queda da atividade econômica reduzia em 11,83% a arrecadação do governo em junho. Também no mês passado, a balança comercial (exportações menos importações) registrou déficit de US$ 327 milhões. As exportações caíram 6,77%. MUNDO ESTÁ FICANDO MAIS "DESUMANO" Relatório da ONU alerta para escalada da desigualdade e afirma que 358 bilionários têm mais do que 45% da população global NOVA IORQUE - Existem hoje no mundo 1,6 bilhão de pessoas em piores condições sociais e humanas sociedades desenvolvidas e humanas do que há 10 anos e, a se manterem as atuais tendências, as disparidades econômicas entre países ricos e subdesenvolvidos deixarão de ser "injustas para se tornarem desumanas", alerta a edição de 1996 do Relatório do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD). Os 358 bilionários existentes no mundo têm uma renda combinada maior do que o Produto Interno Bruto somado de países que abrigam 45% da população mundial, afirma o documento. O relatório aponta avanços nos índices de 15 países, englobando 1,5 bilhão de pessoas, que assistiram a outras 1,6 bilhão em 89 países afundarem no subdesenvolvimento humano. Em 19 destes países, incluindo Haiti, Libéria, Nicarágua, Ruanda, Sudão, Gana e Venezuela, a renda per capita é menor hoje do que era em 1960. Outros 70 país regrediram para a renda que tinham em 1980 e outros 43 estão de volta aos níveis de 1970. O PNUD alerta que esta performance tão sofrível torna imperativo que os dirigentes mundiais reavaliem o quadro internacional, ressaltando que uma elite de países experimenta níveis recordes de bem-estar e a maioria afunda na falta de esperança. Rico - As diferenças entre pobres e ricos aumentam entre países e também internamente, nas sociedades desenvolvidas. No mundo rico, a Grã-Bretanha registra a maior disparidade, com os 20% mais ricos ganhando 10 vezes mais do que os 20% mais pobres. Entre as nações em desenvolvimento, o índice de marginalização aumentou no Brasil, Chile, Guatemala, Guiné-Bissau e diminuiu em Bangladesh, Hungria, Indonésia e Nepal. O relatório da ONU faz uma avaliação da qualidade de vida em cada país, combinando indicadores de saúde, educação e renda per capita. Por estes critérios, o Canadá manteve o primeiro lugar, seguido de Estados Unidos, Japão, Holanda e Noruega. Entre os países em desenvolvimento, Hong Kong é o primeiro, seguido de Chipre, Barbados, Bahamas, Coréia do Sul e Argentina. Na lanterna da lista estão Moçambique, Etiópia, Afeganistão, Burkina Faso, Somália, Serra Leone e Niger. De um total de 46 países com crescimento econômico, 27 criaram mais empregos, entre eles Botsuana, China, Indonésia e Cingapura. "O mundo se tornou mais polarizado e o abismo entre ricos e pobres aumentou. Dos US$ 23 trilhões do PIB mundial em 1993, US$ 18 trilhões pertenceram aos países desenvolvidos e apenas US$ 5 bilhões aos subdesenvolvidos, onde vivem 80% da humanidade", afirma o relatório. "Os 20% mais pobres viram sua cota da renda mundial diminuir de 2,3% para 1,4% nos últimos 30 anos. No mesmo período os 20% mais ricos pularam de 70% para 85% da renda mundial", diz o relatório. Alguns dados positivos do documento são sempre contrabalançados por contrastes negativos. Assim, "nas últimas três décadas, a proporção de pessoas com crescimento de renda de pelo menos 5% ao ano mais do que dobrou, passando de 12% para 27%. Mas a proporção dos que experimentaram crescimento negativo mais que triplicou, de 5% para 18%". A Ásia, onde vive mais da metade da população mundial, vem experimentando um formidável e acelerado crescimento econômico. A África subsaariana vem declinando desde o final dos anos 70 e apesar de vários esforços de recuperação, tem 20 países com renda menor do que há 20 anos. A América Latina e o Caribe começaram uma lenta recuperação no final dos anos 80, mas 18 nações ainda estão abaixo da renda per capita de 1986. Aids - O PNUD observa que as disparidades de crescimento estão esmagando muitas das 10 mil culturas distintas do planeta. Da mesma maneira, são responsáveis pela alta incidência de Aids. Na África há países, como a Zâmbia, que perderam mais de 10 anos de desenvolvimento humano por causa da epidemia do HIV. BRASIL PASSA A LIDERAR LISTA DOS MÉDIOS O Brasil subiu algumas posições nos índices de desenvolvimento humano do Programa de Desenvolvimento da ONU (PNUD), passando de 63° lugar para 58°, e agora lidera a classificação dos países de desenvolvimento humano médio, seguido da Líbia, Ilhas Seychelles e Bielorrússia. Imediatamente acima do Brasil está a Rússia, o último da lista dos países de alto desenvolvimento humano. Na América Latina, o Brasil está bem abaixo da Argentina (30º lugar), Costa Rica (31º), Uruguai (32º), Chile (33º), Panamá (43º), México (48º) e Colômbia (49º). Segundo o PNUD, os brasileiros têm uma esperança de vida de 66,4 anos, menor do que a de alguns países que ficaram abaixo do Brasil por deficiência em outros itens, como a Bulgária (71,2 anos), Belize (73,7) e Cuba (75,4). O governo brasileiro investe 2,8% do orçamento em saúde, um índice que só o Chile, com 3,4%, supera na América Latina. Em 1994, registraram-se no Brasil 7,3 casos de Aids por 100 mil habitantes, um número alto diante do Chile (1,5 caso), Paraguai (0,5) e Bolívia (0,2). Na área educacional, o Brasil tem uma taxa de alfabetização de 82,4%, e o percentual de crianças e jovens matriculados nos diversos graus do ensino é de 72%. O Produto Interno Bruto per capita do Brasil é de US$ 5,5 mil, contra mais de US$ 8 mil da Argentina e Chile. O Brasil continua a apresentar uma dos maiores graus de desigualdade de renda do mundo. A renda per capita dos 20% mais pobres é de US$ 534 anuais, contra a renda média de US$ 5,5 mil. A diferença de renda média entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres é de 30 vezes e a desigualdade se concentra nos estratos superiores da população: "Entre 1960 e 1990, os 20% mais ricos aumentaram sua participação na renda total de 54% para 65%. A renda total dos 50% mais pobres no mesmo período caiu de 18% para 12% do total", afirma o relatório. Na comparação dos indicadores brasileiros com a média dos grupos de médio e alto desenvolvimento humano, o relatório assinala que a expectativa de vida do brasileiro ao nascer é de 66,4 anos contra 67,2 da média dos países de desenvolvimento médio e 71,2 dos países de desenvolvimento alto. O índice de população com acesso a serviços de água é de 87%, a ingestão diária de calorias por pessoa é de 2.824, a taxa combinada de matrículas escolares nos três graus do ensino é de 72% PARADOXOS DA AMÉRICA LATINA CARLOS FRANCO Os dados que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou são surpreendentes, pois a evolução do desenvolvimento humano na América Latina e do Caribe só é menor do que a dos países da Europa Ocidental, que integram a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE). Segundo o mexicano Alejandro Hernández, chefe do escritório do PNUD em Nova Iorque, que analisou os dados da América Latina, isso ocorre porque são levados em conta apenas as variáveis expectativa de vida, saúde, educação e renda per capita. Portanto, as oscilações políticas e econômicas não necessariamente interferem na curva. O ex-ministro do Planejamento da Costa Rica e diretor do PNUD para a América Latina, Fernando Zumbado, explicou que "ainda não foi possível incluir no relatório do desenvolvimento humano o item liberdade, que alteraria estes gráficos". Por essa razão, disse, países como a Coréia do Sul são bem classificados, enquanto a curva da América Latina, nos anos 60, 70 e 80 não captava os regimes militares, mas apenas os resultados de investimentos em educação e saúde, com destaque para o combate à mortalidade infantil. Zumbado destacou ainda que se a China e a Índia, com seus enormes contingentes populacionais, fossem excluídas do grupo asiático, este ficaria em segundo lugar. "Alguns países da região têm crescido economicamente e investido mais e eficientemente seus recursos sociais." Os países da América Latina e do Caribe têm apresentado um crescimento econômico medíocre, que não ultrapassou 3% anuais nas últimas três décadas, segundo Zumbado. Esta é outra vertente que o gráfico do desenvolvimento humano não contempla; caso contrário, a curva da região seria diferente. A renda per capita da Argentina, por exemplo, está entre as mais elevados do mundo em desenvolvimento, mas 20% da população rural vivem em pobreza financeira e 29% não têm acesso a água potável. Na América Latina, em recuperação econômica, exemplificou Zumbado, a taxa de pobreza cresceu de 23% para 28% entre 1985 e 1990, enquanto as políticas educacionais contemplavam os ricos e a reforma agrária foi amplamente ignorada. PROGRESSO Países em desenvolvimento - A média de expectativa de vida aumentou mais de um terço entre 1960 e 1993. Hoje, é de mais de 70 anos em 30 países. - Nas três últimas décadas, a população com acesso a água saudável passou de 36% a 70%. - Freqüência do curso primário passou de 48% a 77% entre 1960 e 1991. - A produção de alimentos per capita aumentou em cerca de 20% nos 10 últimos anos, apesar do aumento populacional. - Percentual de jovens matriculadas (primário e secundário) passou de 38% a 78% em 20 anos. - Mortalidade infantil caiu de 150 para 70 por mil nascimentos (1960-93). - A imunização básica nos 20 últimos anos salvou a vida de cerca de 3 milhões de crianças por ano. PAÍSES INDUSTRIALIZADOS - Expectativa de vida de mais de 75 anos, em 1992, em 24 de 25 países industrializados considerados. - Freqüência ao ensino superior passou de 15% a 40% entre 1960 e 1990. - Entre 1970 e 1990 passou de 25 a 67 para cada 100 homens o número de mulheres fazendo estudos superiores de ciência e tecnologia. - As mulheres constituem hoje mais de 40% da força de trabalho e cerca de 25% dos profissionais em gestão e administração. - Gastos com segurança social representam cerca de 15% do PIB. ATRASO PaísES em desenvolvimento - Cerca de 17 milhões de pessoas morrem anualmente de doenças infecciosas e parasitárias curáveis. - Mais de 90% dos 18 milhões de pessoas com o vírus HIV estão nos países em desenvolvimento. - Cerca de 800 milhões de pessoas não têm comida suficiente, cerca de 500 milhões sofrem de desnutrição crônica. - Quase um terço da população - 1,3 bilhão de pessoas - vive na pobreza. - Mais de um terço das crianças são desnutridas. - Mortalidade de 97 por mil nascimentos entre as crianças de menos de 5 anos - quase o sêxtuplo do que nos países industrializados. - Cerca de 20 milhões de hectares de florestas tropicais são degradados ou arrasados todo ano. PAÍSES INDUSTRIALIZADOS - Quase dois milhões de pessoas infectadas com o HIV. - Mais de um terço dos adultos não tem educação secundária completa. - Mais de 30 milhões de pessoas buscam trabalho: o índice total de desempregados é de 8% (quase 15% entre os jovens). - 40% dos lares - os mais pobres - têm apenas 18% da renda total. - A média salarial das mulheres ainda é de dois terços da média masculina. - Mais de 100 milhões de pessoas vivem abaixo do limite oficial de pobreza; mais de 5 milhões de sem-teto.