O Brasil deu um passo histórico na área da medicina regenerativa com a criação do primeiro porco clonado da América Latina, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). O avanço faz parte de um projeto inovador que busca viabilizar o uso de órgãos de suínos em transplantes humanos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O animal nasceu em um laboratório do Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (IZ-Apta), em Piracicaba (SP), após quase seis anos de pesquisas. O feito é considerado essencial para o desenvolvimento do xenotransplante — procedimento que envolve a transferência de órgãos entre espécies diferentes.
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A iniciativa integra o Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR) e conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O projeto é liderado por especialistas renomados nas áreas de cirurgia, genética e imunologia.
Tecnologia genética é chave para evitar rejeição
Os porcos foram escolhidos por apresentarem semelhanças anatômicas e funcionais com os humanos, além de rápida reprodução. No entanto, para que os órgãos sejam compatíveis, os cientistas utilizam técnicas avançadas de edição genética, como o CRISPR/Cas9.
Nesse processo, três genes suínos responsáveis pela rejeição foram inativados, enquanto sete genes humanos foram inseridos nas células do animal, tornando os órgãos mais compatíveis com o organismo humano.
Após a modificação genética, os embriões foram implantados em fêmeas híbridas, resultando no nascimento de um suíno saudável, com 1,7 kg, após cerca de quatro meses de gestação.
Estrutura de alto controle sanitário
Os animais clonados serão mantidos em instalações com rigoroso controle sanitário, incluindo laboratórios com nível de biossegurança elevado. O objetivo é garantir que os órgãos produzidos estejam livres de patógenos e aptos para uso médico.
Inicialmente, o projeto pretende focar na produção de órgãos como rim, coração, córnea e pele — que juntos representam a maior demanda por transplantes no Brasil.
Impacto direto no SUS
O avanço é estratégico para o país, já que o SUS é responsável por até 96% dos transplantes realizados no Brasil. Com a tecnologia, a expectativa é reduzir filas e ampliar o acesso a procedimentos que hoje dependem da doação humana.
Além disso, o domínio dessa técnica evita que o Brasil dependa de tecnologias estrangeiras, especialmente em um cenário em que países como Estados Unidos e China já avançam em estudos clínicos sobre xenotransplantes.
Apesar dos resultados promissores, a técnica ainda está em fase de desenvolvimento e depende de validações clínicas e aprovação de órgãos reguladores para uso em larga escala.
Perspectivas futuras
Os pesquisadores pretendem formar um plantel inicial de suínos clonados e, a partir deles, expandir a produção por reprodução natural. A meta é tornar o custo dos órgãos acessível e viável para o sistema público de saúde.
Mesmo antes da aplicação definitiva, os cientistas apontam que os órgãos suínos podem ser utilizados como solução temporária — conhecida como “transplante ponte” — para pacientes em estado crítico que aguardam um doador compatível.
O avanço coloca o Brasil em posição de destaque na pesquisa científica mundial e abre caminho para uma nova era na medicina de transplantes.