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Brasil aumentou exponencialmente a formação de pesquisadores, mas diminuiu o fomento à pesquisa

Publicado em 17 março 2000

Esse desequilíbrio, desenvolvido nos últimos dez anos, não é novo, mas está de novo em cena. Foi enfatizado pelo presidente da Fapesp, Carlos Henrique Brito Cruz, em entrevista ao caderno Mais da Folha de SP, de 12/3. O número de trabalhos científicos publicados pelo Brasil pulou de 2 mil por ano, na década de 80, para 9 mil, em 99. De 95 a 98, a produção científica brasileira cresceu 160%. No entanto, como destacou Brito Cruz, "o sistema federal brasileiro tem sido muito deficiente, especialmente no período de 92 até agora". A partir de 90, houve decréscimo do orçamento disponível para custeio no sistema federal. "O crescimento (do número) de pesquisadores qualificados não foi acompanhado de um crescimento das verbas para custear as pesquisas", disse Brito Cruz. Ou seja. temos vivido com "muita bolsa, pouco fomento". Até quando? O Ministério da C&T (MCT), inteiramente remodelado e dinamizado desde a posse do embaixador Ronaldo Sardenberg. dá mostras de estar enfrentando este grave problema. Quando Sardenberg diz e reitera que "precisamos pôr a C&T na agenda deste país", ele certamente e acima de tudo está na busca de mais recursos para a atividade científica e tecnológica no país. As verbas que o setor tem hoje são insuficientes, ele próprio e seus assessores reconhecem numa boa. O Brasil precisa de muito mais C&T para desenvolver-se de fato no mundo globalizado e "sem colher-de-chá" de hoje. E, portanto, de muito mais dinheiro. Saído de onde? O Tesouro Nacional está reservado para manter a estabilidade, a prioridade nº 1 do governo - um jogo financeiro pesado com forças superpoderosa, que devoram grande parte de nossos recursos e riquezas. Do Tesouro, portanto, pouco ou quase nada se pode esperar. Urge encontrar outras fontes. Desde o ano passado, os fundos setoriais (do petróleo, das telecomunicações, da energia, da informática etc.) passaram a ser festejados como a salvação da lavoura, o tão sonhado dinheiro novo e crescente, cuja cor não tem se visto há uma década. A esperança nunca foi tão grande. O presidente FHC, visivelmente contagiado pelo novo astral do novo MCT, não só começou a falar bem mais sobre C&T, como anunciou em janeiro que em fevereiro o país e sua comunidade científica conheceriam o plano salvador dos novos fundos para remodelar o panorama espremido do financiamento à pesquisa nacional. Em fevereiro, não deu. Talvez agora em março ou no início de abril tenhamos a grande notícia. Tomara que a imensa expectativa não seja frustrada. Mas os fundos, por melhores que sejam, ainda não resolvem de todo o problema da C&T no Brasil. O outro desafio, talvez ainda maior, é levar os empresários do país a investirem em pesquisa. Como salientou Brito Cruz, "a empresa no Brasil tem pouca cultura de valorizar o conhecimento e o desenvolvimento tecnológico". Por isso, um alto funcionário do MCT me disse com toda a convicção que uma das maiores batalhas do Ministério este ano será "colocar a C&T na agenda econômica do país". A tarefa exigirá enorme dose de criatividade e de mobilização política dentro do próprio governo: a área econômica, evidentemente, não poderá ficar de fora. E é aí que está o "x" do problema. Agora, que ninguém se iluda: a empresa privada jamais irá financiar ou patrocinar a pesquisa que se faz nas Universidades (a busca de conhecimento). O papel da empresa privada limita-se a pagar a inovação tecnológica que, aliás, pode lhe trazer polpudas vantagens e lucros. E isso já é uma grande coisa. No Brasil é quase uma revolução. Vale aqui o comentário de Brito Cruz ao Mais!: Criou-se no país a idéia de que, se o governo não tem dinheiro para financiar a pesquisa, as Universidades deveriam buscar financiamento na empresa. "Mas isso é errado. Nunca vai acontecer. A pesquisa que se faz na Universidade é um tipo de pesquisa que precisa ser financiada pelo governo." Ou seja, o fomento à pesquisa é dever intransferível, e hoje inadiável, do governo. (José Monserrat Filho)