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Brasil adota nova técnica para diagnosticar doenças neuromusculares

Publicado em 23 janeiro 2012

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), em parceria com cientistas da Suécia, estão utilizando a eletromiografia de fibra única para o diagnóstico de miastenia grave.

A miastenia grave é uma doença neuromuscular que causa fraqueza anormalmente rápida nos músculos voluntários, e afeta de 10 a 20 pessoas por milhão por ano.

Desenvolvida no fim da década de 1960 pelo neurofisiologista Erik Stålberg, da Universidade de Uppsala, a eletromiografia de fibra única ainda não era utilizada no Brasil devido à falta de pesquisadores que dominassem a técnica, que é bastante complexa.

Para aprender a utilizá-la, o professor João Aris Kouyoumdjian, da Famerp, realizou, uma especialização em Uppsala, em que foi orientado pelo próprio professor Stålberg, e iniciou pesquisas sobre a técnica no Brasil.

Os resultados da pesquisa, realizada por Kouyoumdjian em parceria com Stålberg, foram publicados em dezembro na revista Muscle & Nerve. Anteriormente, o grupo publicou outros quatro trabalhos sobre a utilização da técnica em pessoas saudáveis para obtenção de valores de referência.

"Esse trabalho representa um marco para a neurofisiologia clínica brasileira. É o primeiro relato acadêmico da utilização dessa técnica em miastênicos no país", disse Kouyoumdjian.

De acordo com ele, o método é muito eficaz para o diagnóstico da miastenia grave, assim como relatado em outras pesquisas internacionais. Entre os 20 pacientes com miastenia grave examinados no projeto de pesquisa, o método identificou anormalidade na transmissão neuromuscular em 18 deles. "A sensibilidade foi de 90%", disse.

No estudo, foram utilizados apenas eletrodos de agulhas concêntricas descartáveis, mais seguros e mais finos do que os utilizados até então para a realização de eletromiografia de fibra única.

Introduzido no músculo do paciente, o eletrodo é capaz de detectar contrações isoladas de duas fibras musculares próximas, em uma mesma unidade motora, que são registradas como potenciais de ação na tela do equipamento.

Ao comparar os registros é possível medir a variação do tempo de contração de uma fibra muscular em relação à outra - denominada jitter -, que em pessoas sem a doença dura, no máximo, de 35 a 40 microssegundos, dependendo do músculo analisado.

Já em pacientes com desordem da transmissão neuromuscular, como os com miastenia grave, o jitter aumenta, podendo atingir valores tão elevados como de 100 a 150 microssegundos.

"Na miastenia grave, os receptores de acetilcolina que regulam a contração são parcialmente bloqueados por anticorpos de tal maneira que a transmissão sináptica se torna mais lenta, originando os sintomas", explicou Kouyoumdjian.

Segundo Kouyoumdjian, atualmente há 80 pacientes com miastenia grave em atendimento no ambulatório da Famerp. O tratamento é realizado com um medicamento que aumenta a oferta de acetilcolina na junção neuromuscular (anticolinesterásico piridostigmina) e, posteriormente, com imunossupressores.

A estimativa do pesquisador é que surjam entre 10 e 20 novos casos da doença apenas na região de São José do Rio Preto por ano. A doença atinge principalmente mulheres jovens, na faixa etária de 18 a 30 anos, e homens na faixa dos 50 anos.

O principal sintoma da miastenia grave é fraqueza que oscila durante o dia. Os pacientes costumam acordar bem pela manhã e, no decorrer do dia, começam a sentir fraqueza, apresentando queda assimétrica das pálpebras, diplopia (visão dupla), dificuldade para estender os braços ou subir escadas. (Agência Fapesp).