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Boris Vargaftig: ‘Pílula do câncer’, uso temerário de conceitos deturpados

Publicado em 16 fevereiro 2020

Por Boris Vargaftig*

Uma pergunta assola o mundo: quando o câncer será vencido?

Pretendia eu dar continuidade ao meu primeiro artigo neste blog, prolongando a discussão sobre a divergência entre a teoria da evolução e o criacionismo, ciência não ciência, mas crença não baseada em observação ou experimentação.

Preferi adiar, para estudar mais e tratar deste assunto mais tarde, para agora discutir um aspecto da doença que tanto afeta a vida diária das pessoas: o câncer.

O câncer deixou de ser uma doença definida como mortal e passou a ser, na maioria dos casos, uma doença crônica, certamente grave e potencialmente mortal mas, com crescente frequência, controlável.

Assim, por exemplo, é comum o oncologista não mais operar tumor de próstata sem metástase (que não se disseminou para outros órgãos) em pessoas idosas.

É que a duração de suas vidas é pouco afetada por esse câncer de desenvolvimento lento. Falando mais cruamente: a morte por outras doenças interrompe o ciclo.

Por outro lado, produtos e novas modalidades de tratamento são lançados com frequência, os procedimentos de diagnóstico e de acompanhamento do tratamento sofreram grandes mudanças.

Os temidos efeitos colaterais dos tratamentos quimioterápicos são cada vez melhor controlados, mesmo no caso dos derivados da platina, eficientes contra tumores como o do ovário, mas dotados de potencial tóxico que, por vezes, obrigava a suspensão do tratamento.

Neste caso, o remédio era pior do que a moléstia tratada.

Antieméticos [para evitar vômitos] poderosos foram desenvolvidos a partir de pesquisas fundamentais sobre os receptores de substância biológicas ditas neurotransmissoras, como a serotonina.

A membrana de nossas células contêm estruturas moleculares específicas. Isso significa que sua estrutura química tridimensional é crítica. Pequenas alterações modificam sua capacidade de reconhecer substâncias estimulantes ou moduladoras de funções.

Assim, existem receptores para a pressão arterial sensíveis a substâncias endógenas, isto é, formadas no próprio organismo, como a noradrenalina.

Temos receptores que reconhecem as endorfinas, substâncias ligadas ao reconhecimento da dor.

Temos outros para os hormônios, mensageiros químicos que, através de seus receptores, transmitem mensagens à periferia do organismo, alterando o metabolismo, induzindo o crescimento ou a diferenciação celular.

Estes conhecimentos são essenciais para a pesquisa de novos tratamentos e têm servido de base para a descoberta de novos agentes antihipertensivos, novos derivados hormonais e muitos outros.

Há uns quatro anos a imprensa veiculou informações sobre o que foi logo denominado “a pílula do câncer”, uma substância de estrutura relativamente simples, denominada fosfoetanolamina.

Esta substância havia sido isolada em 1936 de tumores malignos bovinos, sendo identificada ulteriormente em outras localizações.

Testes não publicados em revistas especializadas (portanto, não foram submetidos à habitual crítica por especialistas anônimos) haviam mostrado ausência de toxicidade da fosfoetanolamina, mas sem revelar ação antitumoral em ratos.

Ocorria ação antitumoral in vitro sobre células isoladas, porém em concentrações elevadas e fora do contexto da doença em organismos vivos.

A confusão e a lamentável ilusão se estabeleceram quando um professor de química na USP, hoje aposentado (nada contra esta ilustre categoria, da qual participo), sintetizou a fosfoetanolamina e começou, quando solicitado, a fornecer a substância a doentes.

A reitoria da USP suspendeu a distribuição das cápsulas contendo a fosfoetanolamina, invocando, a meu ver legitimamente, a inexistência de demonstração de atividade antitumoral.

Porém, decisões judiciais obrigaram a USP a manter o fornecimento de uma substância de atividade ignorada e ensaios clínicos foram planejados.

Um modo de ação foi proposto, sem evidências experimentais aceitáveis.

O modo de ação sugerido envolveria uma complexa atividade no sistema imunológico de autodefesa atribuída à fosfoetanolamina. Esta restabeleceria a higidez do sistema imunológico alterado em vigência de câncer que induz o não reconhecimento das células cancerosas por outras células que as eliminam.

Esta explicação tem base racional, muitos investigadores partem desta hipótese plausível, mas no caso da fosfoetanolamina, nada a suporta, ao menos por enquanto.

Os relatos de cura de pacientes automedicados constituem hipótese, eventualmente favorável, mas nunca uma prova.

Até sua eventual e improvável substituição por métodos derivados do grande desenvolvimento da biologia molecular nos últimos anos, a descoberta de novos medicamentos envolve uma complexa série de etapas.

Existe uma fase pré-clínica, onde predominam a química (que fornece o novo medicamento, de suposto potencial terapêutico) e a farmacologia, que estuda suas propriedades in vitro e in vivo, para confirmar ou infirmar a atividade desejada.

Esta etapa envolve forçosamente ensaios em animais experimentais, não existindo alternativa para substituí-la.

Ninguém aceitaria ser tratado com produtos de efeitos desconhecidos, baseado somente na presença de atividade favorável e de ausência de efeito nocivo.

Não é possível acusar os laboratórios de abusos e de serem guiados exclusivamente pelo lucro, que ignoram a vida humana e, ao mesmo tempo, impedi-los de efetuar os estudos adequados.

Numa sociedade socialista em que o lucro não seria o motor do desenvolvimento científico e, portanto, do aumento do conforto humano, continuariam a ser empregados os métodos científicos que o capitalismo teria desenvolvido anteriormente, quaisquer que sejam suas motivações, humanitárias (não!) ou comerciais (sim!).

Num desenvolvimento ulterior, o plenário do Supremo Tribunal Federal, por 6 votos a 4, deferiu medida liminar na Ação Direta de Inconstitucionalidade 5.501 (em 19 de maio de 2016), tendo por autora a Associação Médica Brasileira (AMB) para suspender a eficácia da lei nº 13.269/2016 (publicada em 14 de maio de 2016, no Diário Oficial da União) que autorizava pacientes com câncer a usarem a fosfoetanolamina sintética antes de seu registro, em geral (sic) obrigatório, na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

A presidenta da República havia endossado a permissão – erro grave. Ninguém, inclusive a presidenta, é obrigado a conhecer os mecanismos de autorização de uso clínico de medicamentos e o bom senso exige então a consulta a especialistas.

Nenhum destes acharia plausível autorizar o que poderia se revelar um verdadeiro pó de pirlimpimpim…

Esta tragicomédia teve um outro aspecto inédito: o deputado gaúcho Marlon Santos, que lidera um movimento para levar para o Rio Grande do Sul a produção e distribuição dos comprimidos de Fosfo para pacientes de câncer, empunhou com galhardia a bandeira patriótica e proclamou: “Anvisa aprovou fosfoetanolamina em remédio importado, mas veta nossa Fosfo”!

Dirigindo-se à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como a um ente dotado de vida e razão, proclamou o parlamentar do PDT gaúcho:

“Anvisa, para de se achar no direito de dizer que desconhece a substância Fosfoetanolamina, porque tu liberou a Fosfoetanolamina suja dentro de um medicamento charmado CAELYX”.

Na continuidade, o ilustre parlamentar cobrou das autoridades “vergonha na cara“ e citou a “reserva de mercado” que, segundo ele, procura-se dar a um medicamento estrangeiro caríssimo, enquanto a substância desenvolvida aqui sairia quase de graça.

Espantosa temeridade! O produto comercializado sob o nome Caelyx é um potente agente quimioterápico, a dezoxirubidomicina, cujo excipiente contém fosfoetanolamina.

Seu preço, claramente abusivo, não deriva do custo da fosfoetanolamina, mas da avaliação mais do que discutível feita pelo seu provedor, o laboratório farmaceutico Schering (USA).

Outros exemplos proliferam da aplicação imprudente ou mesmo criminosa de noções equivocadas ou de conhecimentos deturpados.

Falaremos disto em qualquer momento oportuno.

Algumas referências acessíveis:

1. Lote de teste da “pílula do câncer” fica pronto, por René Moreira, jornal “O Estado de São Paulo”, 3 de maio de 3016, página A16.

2.A prova final da fosfoetnolamina, por Marcos Pivetta, revista FAPESP 243, 17-23, 2016

3. A pílula do cancer (pílula do barulho), por Natalia Cuminale, revista Veja, 25 de maio de 2016, 77-83.

4. Brasil mostra sua cara, por Hélio Schartzman, Folha de São Paulo, 17 de abril de 2016.

5. Fosfoetanolamina sera objeto de pesquisa em humanos Jornal do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), p. 9, maio de 2026.

6. Eficácia da pílula do câncer” é reprovada em novo teste”, Reinaldo José Lopes, A Folha de São Paulo, 1 de junho de 2016, B&.

7. CFM não recomenda prescrever a droga, Jornal Medicina-Conselho Federakl de Medicina, abril de 2016

8. Justiça Pre-científica, Editorial da Folha de São Paulo, 18 de outubro de 2015.

9. Pressa que ameaça vidas, Editorial do Estado de São Paulo, 17 de abril de 2016.

10. USP fecha laboratório da “pílula do cancer” Folha de São Paulo, 12 de abril de 2016, B8

11. Laudo técnico do estudo de amostras, Manoel Odorico de Moraes Filho, Laboratório de Oncologia experimental, UFCe.

12. Nature, Editorial, Drugs on demand – Controversy in Brazil over access to a purported cancer cure could set a harmful precedent, 24 de novembro de 2015

13. Nature, News, Heidi Ledford, Brazilian courts tussle over unproven cancer treatment, 24 de novembro de 2015 Em decisão liminar, STF suspende lei que liberva “pílula do cIancer”, UOL, São Paulo, 19 de maio de 2016.

*Boris Vargaftig é médico farmacologista, professor titular aposentado da USP

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