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Terra Magazine

Borbulhantes do eixo Paris-Sampa-Rio

Publicado em 24 abril 2009

Por Deolinda Vilhena

Vocês não podem imaginar a minha alegria a cada vez que sei do lançamento de um novo livro teórico de teatro, pena que no nosso Brasil eles sejam tão raros, pois inúmeras são as lacunas da bibliografia em torno do pensamento sobre a estética teatral nesse nosso país tropical. Nossas publicações de teatro, sejam textos dramáticos, sejam ensaios, sobrevivem graças a uns poucos malucos como Jacó Guinsburg. Pois foi com minha natural alegria e uma pontinha de inveja que recebi o e-mail/convite de Béatrice Picon-Vallin contando-me dos últimos lançamentos com os quais ela esteve envolvida.

Primeiro o relançamento - com direito a uma versão atualizadíssima - do livro Meyerhold - "Écrits sur le théâtre" (volume II) e depois, o livro de Odette Aslan, "Paris capitale mondiale du théâtre - Théâtre des Nations", lançado no dia mundial do teatro, no Théâtre de la Ville, com direito à presença de Emmanuel Demarcy-Mota, diretor do teatro, à apresentação do livro feita por Béatrice Picon-Vallin, e com debate animado por Colette Godard, autora e crítica teatral da maior importância que contou com a participação de Lucien Attoun, diretor do Théâtre Ouvert e André-Louis Périnetti, presidente de honra do Institut international du Théâtre. Chique, très chic...

Para quem não sabe Béatrice Picon-Vallin é diretora de pesquisas no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), durante anos foi professora de história do teatro no Conservatório Nacional Superior de Arte Dramática de Paris, e é diretora das coleções Arts du spectacle (CNRS), Théâtre XX siècle (L'Age d'Homme, Lausanne) e Mettre en scène (Actes Sud-Papiers, Arles).

Béatrice esteve em novembro passado no Brasil, ocasião do lançamento de seu livro "A Cena em Ensaios", no qual debate o teatro russo da segunda metade do século 20, em edição mais do que especial da Editora Perspectiva. Na época Boris Schnaiderman em artigo no Estado de S.Paulo a reconhecia como "um dos grandes nomes do estudo e discussão das realizações do teatro russo no século 20, embora sua atuação não se restrinja a elas". E dizia mais: "temos neste livro um conjunto de ensaios muito rico de uma grande pensadora do teatro moderno.".

Grande especialista em teatro europeu do século XX, suas pesquisas incluem a história do teatro russo, a encenação, o trabalho do ator, compreendendo ainda as relações entre a cena e as imagens (cinema, vídeo, novas tecnologias), a pedagogia do trabalho da cena e a relação com as neurociências.

Béatrice é, também, a maior estudiosa da obra de Meyerhold, e teve o privilégio de apresentá-lo ao público francês numa antologia em quatro volumes. Béatrice teve acesso ao arquivo do próprio encenador, salvo por Eisenstein, por ocasião da prisão de Meyerhold, que culminou com seu fuzilamento.

Não podemos esquecer que de Brook a Mnouchkine todos bebem na fonte de Meyerhold, que fez do ator o centro de suas pesquisas e foi um dos grandes reformadores da cena ao articular e confiar no trio ator-música-luz, redimensionando a ênfase dada ao literário da produção teatral das primeiras décadas do século passado. Graças a Meyerhold o teatro passou a ser classificado como a arte da composição, designação da crítica européia ao escrever sobre a encenação de "O Inspetor Geral", de Nicolai Gogol, por ele encenada em 1926

Paris, capital mundial do teatro

Autora de diversos livros, alguns dos quais velhos conhecidos dos nossos estudantes de teatro, como "O ator no século XX", traduzido por Rachel Araújo e Jacó Guinsburg - ele está em todas hoje -, de incontáveis artigos e ensaios, Odette Aslan apresenta agora sua mais recente obra, "Paris capitale du théâtre - Le Théâtre des Nations" que conta a história de um dos mais importantes festivais de teatro realizado entre 1954 em 1965, com o intuito de reunir todos os países durante um Festival Internacional de Arte Dramática em Paris. Não por acaso o lançamento aconteceu no Théâtre de la Ville, antigo Sarah-Bernhardt no qual o festival nasceu e assistiu ao nascimento de grandes encenações assinadas por Maurice Béjart, Visconti, Brecht, Brook ou o Living Theater, meros desconhecidos naquele momento.

Odette Aslan, cuja formação passa pelo teatro, pela dança e pela música clássica usou com certeza de todo esse capital para escrever um livro que retraça a história de um teatro que influenciou todas as obras que nós conhecemos hoje, graças a esse teatro que abrigou diversas companhias internacionais e funcionou como verdadeiro trampolim para muitas carreiras assim como serviu de mediador entres as diferentes culturas coreográficas, líricas e dramáticas mundiais.

O livro responde as mais diversas questões, conta o que se passava artisticamente em Paris durante o reinado do festival e do Théâtre des Nations, além de contar quem permitiu que essas obras dramáticas do mundo inteiro pudessem ser apresentadas ao mesmo tempo na Cidade Luz.

"Paris capital mundial do teatro", segundo me disse Béatrice, registra ainda a passagem da companhia Maria Della Costa, em 1960, com a peça "Gimba, Presidente dos Valentes", escrita por Gianfrancesco Guarnieri, por encomenda do grande e saudoso produtor Sandro Polloni - o homem que me ensinou a produzir. "Gimba, Presidente dos Valentes", levava à cena a realidade dos morros cariocas, em forma de musical e após a estréia, em 17 de abril de 1959 - exatos 50 anos - revelou o talento de um jovem diretor, Flávio Rangel, cuja encenação espetacular fez da peça um sucesso monumental que a levaria a Paris, exatamente para o Théâtre des Nations. Aliás, depois de "Gimba", só "Morte e Vida Severina" - que marcou para sempre Béatrice Picon-Vallin, capaz de cantarolar em português algumas das canções da peça - nos anos 60 e "Macunaíma" nos anos 80 abalaram Paris em chamas, depois disso nosso teatro nunca mais ocupou os grandes palcos da França. De vez em quando uma ou outra coisa aparece por lá, mas num circuito alternativo, não sei se é a França que nos deve ou se somos nós que devemos à França mas seria bem bom preencher essa lacuna. Quem se habilita?

"Chapeau" para Jacó Guinsburg

No texto acima disse que no Brasil só Jacó Guinsburg pode encarar a publicação dos livros de Béatrice Picon-Vallin e Odette Aslan. Não sei se entre meus leitores todos conhecem Jacó Guinsburg. Na dúvida, aproveito a ocasião para prestar uma homenagem a esse crítico, ensaísta e professor, cuja importância Sábato Magaldi, meu mestre maior, assinala no prefácio de "Da cena em cena", livro publicado em 2001 e que aborda aspectos relevantes de concepções e correntes estéticas no teatro, no qual diz que Jacó Guinsburg: "é ensaísta de primeira grandeza - rigoroso, culto, conhecedor profundo de seu objeto de estudo, e se movimenta com desenvoltura pela estética, pela filosofia e pela arte, em que o teatro se tornou o foco privilegiado, além de dispor de sóbria elegância no domínio do idioma."

Professor de "Estética Teatral" e "Teoria do Teatro" da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, aposentado desde 1991, Jacó foi homenageado, em 2001, com o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo, na qual orientou - e ainda orienta - muitos dos maiores nomes da pesquisa teatral no Brasil - entre os quais destaco Sílvia Fernandes, Antônio Araújo e Cibele Forjaz.

No mês passado, durante a festa de entrega do Prêmio Shell aos melhores do teatro de 2008 em São Paulo, Jacó foi o grande homenageado da noite e, na hora dos agradecimentos, sua conhecida generosidade se fez presente: fez questão de dividir o prêmio com seus companheiros de crítica Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Maria Teresa Vargas, todos autores publicados pela Perspectiva.

Muitas são as razões para que um prêmio de teatro seja outorgado a um homem que há anos aposta no teatro, mas esse reconhecimento deveu-se em grande parte aos acervos nacional e internacional ofertados por Jacó, enquanto autor e editor, ao público e aos estudiosos de teatro ao longo dos anos. Arquivos dedicados à análise e à difusão do teatro, e dos quais fazem parte, mais diretamente, cerca de 200 títulos, entre peças, críticas e estudos.

Autor, entre outros, de "Stanislávski e o Teatro de Arte de Moscou"; "Leoni de' Sommi: um Judeu no Teatro da Renascença Italiana"; "Diálogos sobre Teatro"; "Aventuras de uma Língua Errante: Ensaios de Literatura e Teatro Ídiche"; "Stanislávski, Meierhold e Cia."; além de tradutor de obras de Diderot, Lessing, Nietzsche, entre outras, Jacó é também o mais importante especialista em teatro russo e ídiche entre nós, semiologista e teórico do teatro. Na Enciclopédia de teatro do Itaú Cultural, no verbete a ele dedicado encontramos bem mais que Diretor Presidente da Editora Perspectiva, mas como o grande desbravador "especialmente do campo da estética e dos estudos teatrais com uma notável linha editorial, cujos títulos já se constituem em bibliografia obrigatória."

Vou ficar na torcida para que algum dos meus 17 leitores encaminhe essa coluna ao Jacó e quem sabe a Perspectiva mais uma vez salva a pátria e publica os livros da Béatrice e da Odette Aslan? Afinal, quem não chora não mama, que segundo Bibi Ferreira é o "décimo primeiro mandamento".

Amigos do Folhetim

Raras são as nossas revistas na área de teatro. As mais conhecidas são ligadas aos departamentos de artes cênicas de universidades, como a Sala Preta (USP), a Repertório (UFBA), a Percevejo (UNIRIO) e a Urdimento (UDESC). A publicação dessas revistas, do meu ponto de vista, é mais uma vitória pessoal dos seus editores e colaboradores do que fruto dos recursos alocados para a publicação, normalmente escassos e suados, e não raro muitas se deparam com problemas que atrasam a publicação e comprometem a periodicidade. Todas sofrem com um problema: a distribuição.

Se nossas universidades já encontram dificuldade em manter suas respectivas revistas o que dizer de uma companhia de teatro que se aventura na área, num país onde não existe uma única publicação comercial - semanal, mensal ou anual - dedicada exclusivamente ao teatro?

Sempre sonhei em editar uma revista de teatro. Bom não esquecer que nem todos os diplomas posteriores a minha graduação mudaram a essência de minha alma, sou, antes de tudo jornalista, talvez por isso tire o chapéu para a turma do Teatro do Teatro do Pequeno Gesto que desde 1998 se bate para colocar na rua dois números por ano da revista Folhetim.

Tendo como editora responsável Fátima Saadi, Folhetim edita também a coleção Folhetim/Ensaios, que já lançou dois volumes: A exibição das palavras. Por uma idéia (política) de teatro, do diretor, dramaturgo e professor da Sorbonne Denis Guénoun, e a coletânea de ensaios A arte do teatro: entre tradição e vanguarda. Meyerhold e a cena contemporânea, de Béatrice Picon-Vallin, do qual falamos linhas acima.

Pela trajetória do Folhetim e por acreditar na importância da revista desejo vida longa a revista e divido com vocês o e-mail que recebi de Fátima Saadi na esperança de encontrar, entre os meus 17 leitores, ao menos 17 novos amigos do Folhetim que, aderindo ao Clube dos Amigos do Folhetim, ao qual já me associei, estarão em companhia de pessoas como Sílvia Fernandes e Béatrice Picon-Vallin, os primeiros membros desse Clube especial. Eis a mensagem e os contatos para adesão ao clube:

"Em 2008 o Folhetim completou 10 anos de existência e lutou bravamente para lançar o nº 27. Crescemos em muitos aspectos, a revista ganhou amplitude e distribuição nacional, conta com colaboradores no Brasil e no exterior, mas imprimir a revista continua a ser nosso maior problema, visto que não conseguimos nenhum patrocínio ou apoio permanente. Na tentativa de garantir a impressão de, ao menos, um número por ano, decidimos criar um Clube de Amigos do Folhetim. Para 2009, cada participante colaborará com R$100,00 e terá direito a cinco exemplares da revista, à sua escolha, dos números 15 ao 27, segundo a disponibilidade do estoque. A todos aqueles que quiserem se associar ao nosso Clube de Amigos, desde já, nossos sinceros agradecimentos. Saudações folhetinescas, Fátima Saadi pela Equipe do Folhetim Teatro do Pequeno Gesto"

Contatos: saadi@pequenogesto.com.br

http://www.pequenogesto.com.br

Uma exposição para (re)descobrir Alécio de Andrade

Balthazar e Florêncio, filhos de Alécio e Patrícia Newcomer

Estava terminando a coluna quando recebi um convite de Naruna Andrade e Pedro Guimarães - dois grandes amigos que encontrei no Théâtre du Soleil e que me muito me ajudaram ao longos dos cinco anos e meio de pesquisa no reino de Mnouchkine - para o vernissage da exposição de Alécio de Andrade - irmão de Naruna e do grande ator Roberto Bonfim - intitulada "O Louvre e seus visitantes". Belíssimo ensaio com 88 fotos do carioca Alécio de Andrade (1938-2003) sobre o Museu do Louvre, cujas salas Alécio percorreu por quase 39 anos, e desses passeios deixou cerca de doze mil imagens.

Considerado um dos nomes mais importantes da fotografia brasileira, notabilizado por seus retratos de personalidades e imagens do universo infantil e de Paris, cidade na qual se instalou durante a ditadura militar (1964) e onde viveu até sua morte. Entre 1966 a 1970 foi fotojornalista correspondente para a revista Manchete. A convite de Henri Cartier-Bresson passa a integrar o quadro de profissionais da Agência Magnum em 1970, na qual permanece até 1976. Durante anos manteve colaboração regular com as revistas nacionais: Fatos e Fotos, Isto é, Jornal do Brasil, Manchete, isso sem falar nas publicações estrangeiras: Elle, L'Express, Le Monde, Le Nouvel Observateur, Liberátion, Marie-Claire, Le Figaro, Stern, American Photographer, Fortune, Newsweek.

Para os que não conhecem o trabalho de Alécio deixo um comentário de Carlos Drummond Andrade "não pode haver melhor uso da fotografia do que este de alimentar-nos da porção perdida de nossa alma. Uma arte vinculada com a mais fugitiva e perene das realidades poéticas, eis o dom sublime de Alécio de Andrade". Acharam pouco? Pois procurem o poema "O que Alécio vê" que integra o livro "Amar se aprende amando" e depois corram para ver a exposição no Instituto Moreira Salles.

Aliás, em paralelo a esta mostra, será realizada hoje, às 19h, uma conferência de Jean Galard (diretor do serviço cultural do Museu do Louvre de 1987 a 2002) intitulada "O Louvre e seus públicos: uma política cultural". Imperdível!

SERVIÇO "O LOUVRE E SEUS VISITANTES" FOTOS DE ALÉCIO DE ANDRADE Onde? Instituto Moreira Salles - São Paulo - Rua Piauí, 844, 1º andar, Higienópolis Informações: Tel. 11 3825-2560 / Fax. 11 3661-0984 Quando? Até 21 de junho Horário: de terça a sexta, das 13h às 19h

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora, Doutora em Estudos teatrais pela Sorbonne, pós-doutoranda em Teatro na ECA/USP com bolsa da FAPESP.