Notícia

Jornal do Brasil

"Boom" estelar

Publicado em 19 abril 2000

Os milhares de pontinhos brilhantes no céu tiveram origem em diferentes momentos ao longo dos 15 bilhões de vida da Via Láctea. Houve dois instantes, no entanto, que o universo assistiu a uma formação de estrelas acima da média naquela galáxia. O boom estelar foi constatado por pesquisadores do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, que, através da análise da presença de metais pesados em diferentes épocas da Via Láctea, descobriram que o ritmo de formação de estrelas não é constante, como se pensava. O processo de formação de estrelas é semelhante ao das galáxias. Primeiro, nuvens de gás, contendo principalmente hidrogênio, condensam. Como a temperatura no interior dessas concentrações gasosas é muito elevada - alguns milhares de graus Celsius -, ocorre um processo de fusão termonuclear. Átomos de hidrogênio se fundem, formando outro elemento químico: o hélio. Toda vez que isso acontece, há liberação de energia, o que faz a estrela brilhar. O ritmo de consumo dos átomos de hidrogênio varia de estrela para estrela. As grandes - com massa no mínimo dez vezes maior do que a do Sol - consomem mais rápido e, por isso, morrem mais cedo. Vivem apenas alguns milhões de anos, o que no mundo da astronomia é muito pouco. Ao morrerem, essas estrelas deixam um rastro de metais pesados, como o enxofre, que são produzidos enquanto estão vivas. "Constatamos uma presença forte desses metais pesados em dois períodos da vida de nossa galáxia, o que mostra que no momento anterior houve atividade intensa de formação estelar", disse o astrônomo Walter Maciel, da USP. O pesquisador calcula que o primeiro surto tenha ocorrido há cerca de 13 milhões de anos e o segundo, há 8 milhões de anos. Segundo ele, a quantidade de elementos químicos pesados na Via Láctea é pelo menos quatro vezes maior hoje, do que no momento de sua formação. Walter não sabe ao certo o que causou o fenômeno. A hipótese é que a Via Láctea teria passado perto de outra galáxia, o que teria provocado uma perturbação, tornando o gás interestelar da Via Láctea mais denso e favorecendo a geração de novas estrelas. "As galáxias estão em constante movimento. Quando elas se aproximam, acontece o chamado efeito maré, que faz com que as nuvens de gás fiquem mais densas", explicou. O astrônomo não estudou as estrelas pequenas, como o Sol, porque estas têm uma vida mais longa, superando 5 bilhões de anos. Diferente das grandes, estas estrelas não produzem metais pesados e gastam pouco combustível - o hidrogênio - para se manterem acesas. "Precisaríamos de mais tempo para avaliar o intervalo de formação dessas estrelas", disse Walter.