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Jornal Opção (Goiânia, GO) online

Bons hábitos reduzem efeitos de AVCs

Publicado em 22 agosto 2021

Por Italo Wolff

Exercícios físicos, alimentação saudável e manter a mente ativa são cruciais para evitar e reduzir o impacto de doenças graves

Na tarde da sexta-feira, 6, Iris Rezende sentiu fortes dores de cabeça e, acompanhado da família, foi ao Instituto de Neurologia de Goiânia. O ex-prefeito de Goiânia e ex-governador de Goiás, de 87 anos, passou por bateria de exames e a causa das dores foi identificada: um Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico (AVCH). Em outras palavras, houve um rompimento de vaso sanguíneo no lobo temporal direito, a área do cérebro próxima à têmpora direita.

Nesses casos, o procedimento médico padrão é uma cirurgia para drenar e conter o sangramento. A assessoria do político informou que Iris Rezende estava consciente logo antes de passar pela operação, às 16 horas da sexta-feira. Após três horas, a equipe médica considerou o procedimento um sucesso. Segundo o neurologista Valter da Costa, que realizou a cirurgia juntamente com o irmão, Joaquim da Costa, o uso prolongado de anticoagulante foi considerado o principal motivo do AVC.

Nos dias seguintes, em entrevistas coletivas, uma das filhas do ex-prefeito, Ana Paula Rezende, reportou a recuperação de Iris Rezende: “De sexta-feira para cá foi um susto muito grande, pois estamos acostumados a vê-lo com muita saúde, com muito ânimo, sempre em movimento. Não lembro de ver meu pai doente, então isso me deixou muito abalada. No entanto, estou confiante e com muita esperança de que tudo vai dar certo”.

Iris é adepto de uma vida simples | Foto: Foto: Jackson Rodrigues

Ana Paula Rezende também afirmou que o pai sempre manteve um estilo de vida saudável e foi extremamente ativo — física e mentalmente. Na avaliação do neurocirurgião Valter Costa, é possível que o ex-prefeito não apresente nenhuma sequela. “Pelo aspecto que está a área do hematoma, ele vai evoluir muito bem. É possível que fique sem sequela”, postula o médico.

A recuperação positiva de Iris Rezende tem motivo que mora no seu estilo de vida. O ex-prefeito de Goiânia sempre teve uma vida agitada por conta dos cargos públicos que ocupou, mas nunca deixou de lado os bons hábitos. A boa alimentação sempre esteve presente. Volta e meia ele participava de caminhadas, seja em eventos públicos ou mesmo em campanhas, mas essa era uma rotina em seu dia a dia – quem o acompanha de perto relata que a esteira era um equipamento utilizado todas as manhãs pelo emedebista. além do acompanhamento de um personal trainer.

O professor, fisioterapeuta, doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP, e que atualmente ocupa a função de coordenador científico do Hospital ENCORE, Dr. Giulliano Gardenghi, avalia que esse estilo de vida foi fundamental para reduzir os efeitos do AVC. “O que se pode dizer é que a pessoa que sempre teve hábitos saudáveis é ela acaba tendo uma proteção na recuperação. Assumindo que a agressão do AVC existe, há também a possibilidade dos tecidos do cérebro se regenerarem melhor”, aponta.

O especialista ainda avalia que uma pessoa como hábitos como o de Iris Rezende tem histórico de vasos sanguíneos mais saudáveis, pressão arterial regular. “Tudo isso ajuda o indivíduo em outro fator muito importante que é observado neste caso: por ser sempre ativo e ter boa alimentação, ele passa a ter uma boa massa muscular e uma boa reserva maior. Isso acaba ajudando na recuperação física pós-evento (AVC)”, afirma.

Equipe de cirurgia | Foto: Nielcem / Gov. Tocantins

“Durante a cirurgia, o objetivo não é somente salvar a vida do paciente, mas também evitar sequelas, especialmente diante do fato de Iris já ter 87 anos”, explica o Dr. Feres Chaddad, professor, chefe da Disciplina de Neurocirurgia da Unifesp e coordenador da Neurocirurgia da A Beneficência Portuguesa de São Paulo. “O AVC atingiu o lobo temporal direito, que tem função na percepção auditiva”, explica Feres Chaddad. “Os pacientes com lesões do lobo temporal direito geralmente perdem a acuidade para estímulos auditivos não verbais, como a percepção musical.”

O tempo também é fundamental para evitar possíveis sequelas. Em um AVC, cerca de 120 milhões de células cerebrais morrem a cada hora em função dos danos causados pela falta de fornecimento sanguíneo no tecido. Comparando com a taxa de perda celular, que ocorre normalmente, é como se, em uma hora, o cérebro envelhecesse algo em torno de quatro anos.

Dr. Feres Chaddad é uma referência nacional e internacional no campo da microcirurgia neurológica | Foto: Reprodução

“Todo procedimento neurocirúrgico em contexto de um AVC hemorrágico é delicado”, explica o neurocirurgião. “A recuperação também pode levar um tempo maior, pelo fato de o cérebro ter sofrido um ferimento e também pelo tamanho do coágulo formado.” Segundo o governador de Goiás, o médico-ortopédico Ronaldo Caiado (DEM), que acompanhou a cirurgia, o coágulo retirado de Iris Rezende estava com tamanho de 4 por 9 centímetros, o que é considerado grande. “No entanto, de acordo com as informações divulgadas pelo hospital, a resposta do movimento das mãos de Iris é muito positiva”, assinala Chaddad.

Segundo o neurocirurgião, após a cirurgia e respectivas análises de equipes multidisciplinares, é ideal que o paciente siga para reabilitação de possíveis sequelas e mantenha o acompanhamento e controle das comorbidades que possam estar associadas ao risco mais elevado de reincidência do quadro.

As causas mais comuns que levam ao AVC hemorrágico, mais raro do que o AVC Isquêmico, são a hipertensão arterial que, quando descompensada, pode levar ao rompimento de vasos cerebrais; o aneurisma cerebral, caracterizado por uma área de enfraquecimento da parede de uma artéria; malformação arteriovenosa (MAV), que se refere às artérias e veias naturalmente malformadas; e o uso prolongado de anticoagulantes, que são medicamentos usados para prevenir tromboses em pacientes de risco.

Como a pressão sanguínea é um dos fatores de risco, é essencial manter a hipertensão sob controle, afirma o médico Feres Chaddad, e a melhor maneira de fazer isso é tendo um estilo de vida saudável, evitando o consumo de álcool, cigarro, drogas e comidas ultraprocessadas, praticando atividades físicas regularmente e evitando o consumo de sódio em excesso.

O caso de Iris Rezende é exemplar. O ex-governador de Goiás permanece internado, mas em processo de recuperação. Por que, aos 87 anos, se deu uma recuperação mais rápida? Médicos postulam que é preciso um estudo de caso, mas sugerem que a vida saudável que o ex-prefeito levava pode tê-lo ajudado na recuperação.

Iris Rezende sofreu um acidente automobilístico grave, em 1990, quando fazia sua campanha para governador do Estado. Sangrou muito e os médicos tiveram de retirar seu baço. Ele tinha, na época, 57 anos de idade. Desde então, ao contrário de outros políticos, passou a cuidar mais da saúde. Começou a fazer exercícios físicos, de manhã bem cedo — com personal trainer (que sempre fica impressionado com sua disposição e disciplina). O ex-prefeito, antes do AVC, fazia esteira, de maneira vigorosa, e musculação. Mesmo com a idade, não se acomodou à vida sedentária. Observe-se que permaneceu magro.

Ao mesmo tempo em que cuidava do físico, Iris Rezende se preocupava em manter a mente ativa. Auxiliares ficavam impressionados com sua capacidade de ler a documentação sobre contratos e outros assuntos essenciais. Sempre que julgava necessário, mandava alterá-los. Os principais projetos da prefeitura tinham de passar por seu crivo. Ao secretário de Finanças, sempre pedia informações objetivas sobre a arrecadação e incentivava a formatação de um caixa para fazer investimentos mais dispendiosos. Também queria saber todos os passos das articulações políticas. Médicos ponderam que manter a saúde física, com exercícios e alimentação saudável — sem uso de açúcar, por exemplo —, contribui, de maneira decisiva, tanto para não se ficar doente quanto para, no caso de doença, uma recuperação mais rápida e sem ou com menos sequelas.

O AVC é a segunda maior causa de mortes no mundo, atrás apenas da doença isquêmica cardíaca, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os 80 mil óbitos anuais no país devidos ao AVC provocam inclusive impactos econômicos importantes, segundo a “Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria”.

O AVC Hemorrágico ocorre quando vasos que levam sangue ao cérebro se rompem, provocando a paralisia da área cerebral, que fica sem circulação sanguínea. Frequentemente o sangue que escapa dos vasos forma coágulos. Já o AVC Isquêmico (AVCI), conhecido como derrame ou isquemia cerebral, é causado pela falta de sangue em uma área do cérebro por conta da obstrução de uma artéria, por trombos formados por placas gordurosas ou por coágulos sanguíneos.

Os sintomas súbitos do AVC podem durar de minutos até horas. Os indícios mais comuns são dor de cabeça, formigamento, perda da fala, alteração da visão, fraqueza ou adormecimento em apenas um lado do corpo, dificuldade para entender coisas simples, engolir, tontura e perda da força da musculatura do rosto (que frequentemente leva à boca torta). Os sinais acontecem de forma súbita e podem ser únicos ou combinados.

Quando não mata, o AVC deixa sequelas que podem ser leves e passageiras ou graves e incapacitantes. As mais frequentes são paralisias em partes do corpo e problemas de visão, memória e fala. A falta do sangue, que carrega oxigênio e nutrientes, pode levar à morte neuronal em poucas horas. Por isso, o reconhecimento dos sintomas e encaminhamento rápido ao hospital são atitudes fundamentais.

Foto: Reprodução/Banco da Saúde

Marcelo M. S. Lima é professor associado do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenador do Laboratório de Neurofisiologia da UFPR e pesquisador associado da Rede Nacional de Ciencia para Educacão (Rede CpE). Por meio da Agência Bori, o pesquisador relata que o coronavírus causador da pandemia de Covid-19 pode se instalar no cérebro e provocar lesões que aumentam a probabilidade de o paciente sofrer um AVC.

Marcelo M. S. Lima escreve que a Covid-19 pode provocar inúmeras alterações além do comprometimento respiratório. Há relatos de que a infecção pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) pode causar problemas cardíacos, renais, alterações pressóricas, distúrbios de coagulação e prejuízos imunológicos, fazendo desta uma doença multissistêmica. O cérebro é um dos órgãos especialmente afetados pelo vírus. Complicações neurológicas têm sido reportadas em 36,4% dos pacientes, tendo ainda se mostrado mais comuns em 45,5% dos pacientes com quadros mais severos de infecção.

A ausência de olfato, documentada em uma parcela significativa de pacientes, é um sinal de alerta. O olfato é regulado pelo sistema nervoso central, a partir da ativação de células receptoras olfatórias presentes na cavidade nasal. Ao que tudo indica, o SARS-CoV-2 é capaz de usar essa ponte de entrada e assim invadir o sistema nervoso central, confundindo e alterando o processamento sensorial. Esse mecanismo de desregulação olfatória está longe de ser devidamente explicado, principalmente porque ela parece perdurar por semanas após o desaparecimento de outros sintomas típicos da infecção, como a febre e a falta de ar.

Especula-se que a gravidade do comprometimento respiratório poderia ser atribuída às lesões neuronais observadas nos centros de controle respiratório e cardíaco do cérebro localizados no tronco encefálico.

A descrição desse padrão lesivo sugere que o cérebro pode ser invadido pelo vírus não só por via olfatória, mas também através do nervo vago, que é constituído por milhares de prolongamentos de neurônios (axônios) que partem dos pulmões e se dirigem ao tronco encefálico. Este mesmo nervo também possui projeções axonais provenientes do trato gastrointestinal e que vão ao cérebro, indicando que o SARS-CoV-2 também poderia acessar o sistema nervoso central a partir do intestino.

Uma vez instalado no cérebro, o vírus parece ser capaz de produzir lesões multifocais pela deflagração de enorme neuroinflamação, induzida por uma tempestade de interleucinas, e com consequências desastrosas como a encefalopatia severa, isquemias, necrose e convulsões. Mas outro achado, inédito, e recentemente descrito em pacientes com Covid-19, é uma lesão neuronal por desmielinização. Quando a bainha de mielina (que funciona como um isolante que protege os axônios) é destruída, há uma perda significativa da capacidade de comunicação entre os neurônios, prejudicando o sistema nervoso central. Outra constatação diz respeito aos casos de isquemias e mesmo de hemorragias cerebrais associados às infecções mais severas, sendo que a ocorrência de hipercoagulabilidade e o aumento do processo neuroinflamatório parecem compor esse pano de fundo para os AVCs.

Muito do que descobriremos acerca dessas consequências da Covid-19 para o cérebro ainda serão construídas mediante uma cuidadosa investigação dos pacientes recuperados, à semelhança do que já se identificou para o vírus da zika. Talvez seja possível prever uma maior gravidade neurológica para os idosos, que possuem menor reserva neuronal e, principalmente, para aqueles que já possuem doenças neurodegenerativas em curso, pois estas compartilham os mesmos gatilhos neuroinflamatórios.

Segundo um estudo financiado e anunciado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a realidade virtual pode ajudar na recuperação de pacientes de AVC e doenças neurodegenerativas. José Tadeu Arantes, da agência Fapesp, reporta que programas de reabilitação baseados em realidade virtual estão se tornando um importante recurso complementar às terapias motoras convencionais para esses pacientes. Estimulando vários sistemas sensoriais, especialmente os sistemas visual e auditivo, a imersão do paciente em ambientes virtuais promove e intensifica o trânsito de informações (input/output) no sistema nervoso central.

“A expectativa é que isso aumente a conectividade cerebral, ao estimular novas conexões neurais necessárias para recuperar as perdas causadas pelas lesões ou pela própria condição clínica do paciente”, diz à agência Fapesp Alexandre Brandão, pesquisador no Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto Brasileiro de Neurociência e de Neurotecnologia (BRAINN).

Brandão é o autor principal do estudo Biomechanics Sensor Node for Virtual Reality: A Wearable Device Applied to Gait Recovery for Neurofunctional Rehabilitation, premiado como “Best Paper” na área de Realidade Virtual na 20a Conferência Internacional em Ciências de Computação e suas Aplicações (The 20th International Conference on Computational Science and its Applications – ICCSA). Programado para ocorrer na Universidade de Cagliari, na Itália, o evento foi realizado em ambiente virtual devido à pandemia.

O estudo resultou no desenvolvimento de um novo dispositivo, o Biomechanics Sensor Node (BSN), capaz de captar dados do usuário e controlar ambientes virtuais, e um novo software, que integra o BSN ao Unity Editor, um dos programas mais utilizados atualmente na construção de ambientes digitais. “A união entre o dispositivo e o software permite que pacientes em processo de recuperação motora interajam com ambientes de realidade virtual ao mesmo tempo em que os terapeutas têm acesso aos dados dos movimentos realizados durante a sessão”, informa Brandão.

O BSN é composto por um sensor inercial, que, acoplado ao tornozelo, detecta o movimento relativo à marcha estacionária do paciente e faz o rastreamento corporal nos três planos de movimento. Os sinais gerados são processados e enviados a um celular, que permite controlar um avatar que interage com o ambiente virtual. “Os movimentos reais do paciente podem ser muito restritos, com pouca amplitude. Mas, no contexto virtual, os dados captados e processados geram movimentos completos do avatar. A informação visual provoca no paciente a impressão de que ele consegue realizar esses movimentos completos. E isso tem o potencial de ativar mais redes neuronais do que a terapia mecânica convencional”, explica Brandão.

Exames de ressonância magnética funcional (fMRI) indicam que o procedimento ativa áreas específicas do cérebro, associadas a esses movimentos fictícios. Um próximo passo é mensurar, por meio de testes clínicos, os ganhos funcionais na recuperação motora dos pacientes. Outro desenvolvimento esperado é fazer o avatar realizar atividades da vida diária ou práticas esportivas e interagir com outros indivíduos em um ambiente virtual multiusuário.