Notícia

Jornal Primeira Página online

Bom Carnaval

Publicado em 26 fevereiro 2017

Um colunista acaba por aprender que não escolhe seus temas. No mais das vezes, eles se impõem.

 

As aulas nas universidades públicas vão começar e eu gostaria de comentar que o debate entre defensores das cotas, sociais ou raciais, e seus opositores, defensores do “mérito” e da visão de que as cotas “rebaixam a qualidade do ensino” ganhou um interlocutor de peso.

 

A FAPESP, cujo compromisso com a qualidade acadêmica e o rigor científico, ninguém pode questionar, publicou o resultado de alentado estudo que demonstra enfaticamente que o desempenho dos alunos cotistas, superadas eventuais dificuldades iniciais, é igual ou superior ao de seus colegas não cotistas.

 

A notícia seria alvissareira se a própria existência das universidades públicas não estivesse em questão. A UERJ – equivalente carioca das estaduais paulistas e pioneira na implantação de uma bem sucedida política de cotas – já anunciou que não poderá iniciar as aulas no calendário normal.

 

A própria USP discutirá nas próximas semanas uma proposta de “recuperação de equilíbrio fiscal” que poderá significar, em poucos anos, a demissão massiva de alguns milhares de funcionários e até mesmo de professores concursados.

 

Porque não há dinheiro para as universidades. Como não há dinheiro para a saúde. Como não há dinheiro para garantir aos brasileiros um salário mínimo que é menor que o de países como a Bolívia. Como não há dinheiro para a aposentadoria daqueles que trabalharam durante décadas.

 

No triste pedaço do planeta em que fomos convertidos só há dinheiro para pagar os juros mais altos do planeta a uma ínfima minoria (menos de 0,1% da população) de rentistas. Só há dinheiro para pagar salários de dezenas de milhares de reais a desembargadores e magistrados (tudo fora, mas eles garantem, dentro da lei). Só há dinheiro para as infinitas contas em infinitos paraísos fiscais.

 

Não. Não vou falar da putrefação acelerada do governo Temer. Até a Globo já avisou que ele subiu no telhado. Só nos resta, como ao velho pierrot, disfarçar o choro sob a máscara da efêmera alegria do Carnaval.

 

*Professor Titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos