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Correio Popular (Campinas, SP) online

Bolsonaro silencia em visita à cidade

Publicado em 22 outubro 2020

Horas depois de ter desautorizado o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e afirmado que a vacina Coronavac, da chinesa Sinovac, não seria comprada pelo governo brasileiro, o presidente Jair Bolsonaro visitou o Projeto Sirius, em Campinas, e não tocou na polêmica sobre o imunizante produzido pelos chineses e pelo Instituto Butantan, de São Paulo.

Após conhecer o centro de pesquisas ao lado de sua comitiva, sem a presença da imprensa, Bolsonaro fez um discurso de quatro minutos na cerimônia que marcou o início das pesquisas científicas na primeira estação experimental do Sirius, chamada Manacá.

Logo após sua fala pelo Sirius, despediu-se sem falar com os jornalistas e seguiu de helicóptero até o município de Elias Fausto, onde aterrissou para comer um sonho e beber refrigerante em uma padaria do bairro Anchieta. Causou aglomeração pelas ruas, mas novamente evitou polêmicas. Essa parada não estava prevista na agenda oficial.

Na cerimônia em Campinas — foi a primeira vez desde que assumiu o cargo, no dia 1º de janeiro de 2019, que esteve na cidade —, o presidente chegou ao lado do ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes; e do ministro-chefe do Gabinete da Segurança da Presidência, general Augusto Heleno. A comitiva visitou as instalações do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização social do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Na ocasião, a comitiva presidencial conheceu o túnel de concreto onde estão instalados os aceleradores de elétrons. Em seguida, os integrantes acompanharam a demonstração de experimentos na estação de pesquisa Manacá.

Bolsonaro disse que ficou entusiasmado com o centro de pesquisas e destacou a importância de manter recursos no projeto Sirius. "Simplesmente fantástico. Faltam palavras para definir esta obra. Mas ela materializa para nós o futuro. Isso demonstra a capacidade do homem, em especial do engenheiro, do pesquisador e do cientista brasileiro. Dada a excelência das empresas que circunvizinham essa grande obra, pensamos em ter aqui ao lado o Vale do Silício da Biotecnologia", comentou.

Antonio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM e do Projeto Sirius, explicou que o Sirius é uma infraestrutura de pesquisa única no País, estratégica para a investigação científica de ponta e para a busca de soluções para problemas globais, em áreas como saúde, agricultura, energia e meio ambiente. "Projetado e construído por brasileiros e financiado pelo MCTI, o Sirius é uma das fontes de luz síncrotron mais avançadas do mundo, uma estrutura aberta de pesquisa, às quais as comunidades científica e industrial terão acesso", disse.

Roque da Silva destacou a importância do apoio à ciência. "Há muito trabalho pela frente, mas cada avanço do Sirius reforça que temos competência para lançar a ciência e a tecnologia do País a um novo patamar. A comunidade científica brasileira faz um ótimo trabalho e nós atuamos para apoiá-la, oferecendo condições de pesquisas inéditas. Estamos montando uma máquina para ser competitiva internacionalmente, projetada por brasileiros e construída em parceria com a indústria nacional", afirmou.

A cerimônia marcou o início das pesquisas científicas na primeira estação experimental do Sirius, chamada Manacá. Até então, a Manacá recebia excepcionalmente apenas propostas de pesquisa relacionadas à Covid-19, uma resposta emergencial à pandemia.

A partir da cerimônia de ontem, a estação de pesquisa passa a aceitar propostas de outros objetos de estudo, ao receber pesquisas científicas que vão além de Covid-19. Mesmo em fase de comissionamento científico, a Manacá poderá apoiar o avanço de estudos em áreas como biotecnologia industrial, biorrenováveis, biocombustíveis, biologia vegetal, agricultura, nutrição, busca de novos candidatos a medicamentos e doenças, como Alzheimer, câncer, esquizofrenia, cardiopatias, dentre outras.

Experimento busca fármacos para combater Covid-19

O primeiro experimento do Sirius busca desenvolvimento de um fármaco para Covid-19.

Em testes iniciados em julho, antes da inauguração da linha, o potente feixe de luz do acelerador de partículas já ajudou a determinar estruturas de duas proteínas do Sars-CoV-2, tarefa essencial para o tratamento da doença.

As pesquisas identificaram estrutura de mais de 200 cristais de duas proteínas do novo coronavírus (Sars-CoV-2). A investigação foi iniciada por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São de Paulo (IF-USP). O experimento, realizado por Aline Nakamura e André Godoy, inaugurou os testes da estação de pesquisa do Sirius.

A linha Manacá, de cristalografia de proteínas, deu uma agilidade ao estudo. Com os resultados obtidos em poucos testes, houve a adesão do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar), que lidera a pesquisa sobre a descoberta de fármacos antivirais para Covid-19 e conta com o apoio da Fapesp no Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP).

Os pesquisadores buscaram, por meio da luz síncrotron, identificar a posição dos milhares de átomos que constituem duas proteínas do coronavírus e, assim, sua estrutura. O objetivo é encontrar moléculas, compostos ou substâncias candidatas a fármacos que se encaixem e possam bloquear a ação do vírus.

Equipamento científico é composto por aceleradores

Sirius é um grande equipamento científico, composto por três aceleradores de elétrons, que têm como função gerar um tipo especial de luz: a luz síncrotron. Essa luz de altíssimo brilho é capaz de revelar estruturas, em alta resolução, dos mais variados materiais orgânicos e inorgânicos, como proteínas, vírus, rochas, plantas, ligas metálicas e outros.

A luz síncrotron é obtida a partir da aceleração de elétrons a uma velocidade próxima da luz (300 mil km/segundo). Os feixes de elétrons com uma espessura 35 vezes menor que um fio de cabelo percorrem tubulações mantidas em condições de ultra-alto vácuo, ainda mais livres de impurezas e obstáculos que as encontradas no vácuo espacial. A trajetória desses elétrons é guiada por mil ímãs distribuídos ao longo de toda a circunferência de 518 metros. Cada vez que, pela força magnética, são obrigados a fazer curvas, eles emitem luz síncrotron.

Essa luz, emitida em um feixe extremamente brilhante e concentrado, permite a realização de experimentos nas mais variadas áreas do conhecimento científico, com aplicações em campos também bastante variados, como saúde e medicamentos, exploração de petróleo, bioquímica, energia, nanotecnologia, agricultura, paleontologia, entre muitas outras. Esses experimentos são realizados nas estações de pesquisa, chamadas linhas de luz.

As linhas de luz funcionam de forma independente entre si, e permitem que diversos grupos de pesquisadores trabalhem simultaneamente. A Manacá, primeira linha de luz do Sirius a receber propostas de pesquisa, é dedicada a estudos de moléculas biológicas. Outras cinco linhas de luz (Carnaúba, Cateretê, Ema, Ipê, Mogno) seguem em fase avançada de montagem e deverão ter montagem concluída até o final deste ano. A primeira fase do projeto prevê a instalação de um total de 14 estações de pesquisa até o final de 2021.

Projetado por brasileiros, o Sirius tem cerca de 85% de seus recursos investidos no País, seja em suas equipes internas ou em parceria com empresas nacionais. Além da construção civil, foram estabelecidos contratos com mais de 300 empresas de pequeno, médio e grande portes, das quais 45 estão envolvidas diretamente em desenvolvimentos tecnológicos, em parceria com o CNPEM.

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