Notícia

Psicóloga + Doutoranda Eduarda Naidel

Bolsa de pós graduação + bolsa filho

Publicado em 24 março 2017

As duas agências federais de fomento à pesquisa, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), consideram as bolsas de pós-graduação um auxílio, não um salário. É possível ter outra fonte de remuneração, desde que sejam respeitadas algumas regras: o emprego tem que ser na área de pesquisa do aluno, o vínculo tem que ter surgido após a matrícula na pós, a remuneração não pode ser superior ao valor da bolsa e o professor orientador precisa autorizar o trabalho.

Existem hoje no Brasil pouco mais de cem mil bolsistas do CNPq e da Capes de mestrado e doutorado que recebem, respectivamente, R$ 1,5 mil e R$ 2,2 mil por mês. Há ainda as bolsas de fomento à pesquisa financiadas pelas agências estaduais, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que paga uma bolsa mensal que varia entre R$1.889,40 e R$3.446,40 para 7.601 mestrandos e doutorandos. O valor mal dá para pagar o aluguel de um apartamento nas maiores cidades brasileiras, mas nem sempre foi assim.

Em janeiro de 1995, a bolsa de mestrado era de exatamente R$ 724,52. Se tivesse sido reajustada de acordo com a inflação, estaria em R$ 3.276,74 nos valores de hoje — mas ela paga só R$ 1,5 mil. O cálculo foi feito pelo economista André Coutinho Augustin, que foi bolsista do CNPq no mestrado em Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O levantamento, publicado no começo de junho no blog Enquanto se Luta se Samba Também, mostra que, neste ano, as bolsas de pós-graduação atingiram o menor valor em 20 anos. Até o começo dos anos 2000, segundo Augustin, um corte geral nos gastos da educação não permitiu reajustes. “Só depois de 2004 é que começaram a fazer algumas atualizações nos valores. Mas a prioridade era o número de vagas na universidade. Até 2013 as bolsas foram corrigidas só pela inflação, sem ganho real; em 2014 veio o ajuste fiscal e aí não houve mais correção nenhuma”, explica. Augustin comparou também o valor das bolsas com o salário mínimo necessário, uma estimativa que o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) faz mensalmente para saber qual seria o salário ideal para uma família se sustentar. O levantamento mostrou que, entre 1995 e 1996, a bolsa de mestrado tinha um valor muito próximo do mínimo necessário. Hoje, ela equivale a menos da metade do mínimo.

Por isso mesmo, para se manter como bolsista, especialmente nas grandes cidades, é preciso algum tipo de apoio da família. Thais Kuperman, 28 anos, é formada em Jornalismo e está concluindo o mestrado em Letras na USP sobre o romance Herzog, de Saul Bellow, com uma bolsa da Fapesp. Antes de conseguir o auxílio financeiro, Kuperman estava trabalhando na organização de uma exposição de arte para se manter. Depois, conseguiu se virar só com a bolsa. “É muito apertado e é um tipo de trabalho (o mestrado) que demanda muita dedicação. Às vezes é difícil ter cabeça para fazer outras coisas por causa do envolvimento. Existem períodos bem tensos por causa dos prazos, algumas pessoas têm uma relação bem complicada com o orientador. Sem o suporte da família é muito difícil.”

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