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IstoÉ Dinheiro

BOLIONÁRIO DNA

Publicado em 05 julho 2000

Por Paula Pacheco

A americana Celera investe US$ 3 bilhões no projeto Genoma, Valoriza ações em 1.400% e prevê receita anual de US$ 800 milhões Coincidência ou não, a data da conclusão de uma das mais importantes descobertas da ciência foi sexta-feira, dia 23, o mesmo número de pares dos cromossomos humanos.

O anúncio do Projeto Genoma, nome do estudo de mapeamento genético humano, foi feito na última segunda-feira na Casa Branca pelo presidente americano Bill Clinton, que deslumbrou - se: "Este é o mapa mais importante e maravilhoso já criado pela humanidade". Cientistas e políticos compararam a novidade à invenção da roda, à teoria da relatividade e à chegada do homem à Lua. Mas não é só o mundo da medicina que está agitado. O dos negócios também. A Celera Genomics, dona de um dos mapas genéticos descobertos tem ações negociadas na Bolsa de Nova York que em um ano valorizaram quase 1.400%. Não era para menos. A empresa simplesmente redescobriu a vida.

Estima-se que o laboratório gastou US$ 3 bilhões nas pesquisas. Até agora, no entanto, nada de lucro. No ano passado o faturamento foi de US$ 12,4 milhões. Para este ano o quadro deverá ser outro. Laboratórios como a Novartis e a Amgen já pagaram US$ 25 milhões para ter acesso às informações da Celera, o que, segundo os especialistas, poderá gerar uma expectativa de receita de US$ 800 milhões em 2004. O seu concorrente, o consórcio que reuniu pesquisadores de seis países, desembolsou US$ 300 milhões durante os estudos.

Os analistas dizem que as empresas de biotecnologia são hoje as vedetes do mercado de capitais, deixando para trás as representantes da Nova Economia. Na Nasdaq, as companhias de biotecnologia tiveram nos últimos 12 meses uma valorização de pouco mais de 140%, três vezes mais do que o próprio Índice Nasdaq, que no mesmo período subiu 46,7%. As apostas nas empresas de biotecnologia não estão sendo feitas apenas em função do que ocorreu nesta semana, mas principalmente pelo que ainda está por vir. Uma das possibilidades que o mapeamento genético vai permitir dentro de 10 ou 20 anos é que as doenças possam ser identificadas antes que seus sintomas apareçam. Há quem diga até que num futuro bem menos ficcional do que se pensava os pais vão poder escolher as características físicas dos filhos.

E quem com dinheiro no bolso não vai querer tirar uma casquinha do que a ciência está reservando para o futuro? Quem investe na Nasdaq ou na Bolsa de Nova York provavelmente já ouviu a frase "all cash toward genomics", algo como "todo dinheiro em direção ao genoma". A primeira letra de cada uma dessas palavras em inglês usa as mesmas iniciais A, C, T e G das quatro substâncias encontradas no DNA. A brincadeira tem fundamento. No ano passado, a indústria do genoma foi avaliada em US$ 5 bilhões nas bolsas.

Mas se a incidência de doenças poderá ser reduzida, qual será o destino dos laboratórios farmacêuticos? "Vamos acompanhar essas mudanças e tratar o que o mapeamento dos genes identificar nas pessoas", explica o presidente da Abifarma (Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica), José Eduardo Bandeira de Mello. O relatório sobre biotecnologia do Salomon Smith Barney, braço de investimentos do Citicorp, diz que os laboratórios farmacêuticos vão colocar no mercado soluções desenvolvidas pelas empresas de biotecnologia. Os empregos, dizem alguns especialistas, também poderão mudar.

A dúvida é saber se algum patrão vai querer contratar um funcionário ao descobrir previamente que ele tem problemas cardíacos. Também não dá para antever qual será o comportamento dos planos de saúde ao conhecerem previamente os problemas de seus clientes. "A lei brasileira não permite que usuários de planos sejam discriminados porque têm uma doença, então ninguém será excluído. As empresas terão de se adaptar e oferecer tratamentos preventivos", diz Antônio Jorge Kropf, diretor técnico da Amil. A Cinderela do genoma. Não são apenas as comunidades acadêmicas internacionais que estão alvoroçadas com as pesquisas sobre o genoma.

O Brasil também está inserido neste novo momento. Recentemente a Science Magazine, uma das mais respeitadas revistas de ciências do mundo, comparou o que está acontecendo no País à história da Cinderela. Até dois anos atrás, os estudos brasileiros sobre o genoma eram inexpressivos. Em janeiro deste ano o jogo virou. O Brasil saiu na frente e foi o primeiro no mundo a mapear geneticamente uma bactéria, a Xylella fastidiosa, responsável pelo amarelinho, doença que contamina 30% dos laranjais brasileiros e causa perdas anuais de US$ 100 milhões. Uma bactéria semelhante afeta as videiras da Califórnia e o Ministério da Agricultura dos EUA se interessou pelos resultados brasileiros. O projeto foi desenvolvido por 54 laboratórios que formam hoje a ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis), um instituto virtual que estuda o genoma e é coordenado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Segundo o diretor científico da fundação, José Fernando Perez, desta vez o País não está na "cozinha" do mundo científico. "No Brasil as coisas começam atrasadas, mas agora podemos dizer que estamos no tempo certo, não na lanterninha", diz Perez. A Fapesp está coordenando outras pesquisas de genoma: a do metabolismo da cana-de-açúcar e a da bactéria Xanthomonas citri, que provoca o cancro cítrico nos laranjais. A mais importante, no entanto, é a do genoma do câncer, feita em parceria com o Instituto Ludwig, espalhado por 10 filiais no mundo e que vai investir US$ 8,5 milhões; mesmo valor bancado pela Fapesp.

O Instituto trabalha em parceria com o Hospital do Câncer, de São Paulo. Quando os estudos apresentarem os primeiros resultados práticos, o hospital vai economizar no próprio bolso. "Poderemos oferecer desde novos aparelhos até novas possibilidades terapêuticas", afirma Ricardo Brentani, presidente do hospital e diretor do instituto. Como disseram durante o anúncio do Projeto Genoma - e assim todos esperam -, talvez os filhos dos nossos filhos usem a palavra câncer apenas como referência a uma das constelações do zodíaco.

BIOCHIP CONTRA O CÂNCER Quem passa pelos dois corredores ocupados pelo Instituto Ludwig no Hospital do Câncer talvez duvide que de um espaço tão apertado saiam pesquisas tão importantes para o mundo, mas é verdade. Desde o ano passado o Instituto passou a dominar mais uma tecnologia, a do biochip, um método criado para a análise de material biológico. Pequenas lâminas de vidro ou de nylon concentram uma grande quantidade de informações sobre o DNA. A "tradução" desses sinais é feita pelo computador, equipado com programas que permitem, por exemplo, contar e comparar as quantidades e tipos de genes de uma pessoa saudável ao de uma com câncer. Quando as pesquisas saírem da teoria para a prática, vai ser possível, por exemplo, fazer o diagnóstico dos tumores de tireóide, um dos mais difíceis de se identificar. Além de conquistas para a medicina, pesquisas como a do Instituto podem ser revertidas em lucro com as vendas dos patentes.

OS PASSOS DA DECOBERTA Cientistas Buscam o mapeamento genético há pelo, menos 50 anos. 1956 - Estúdios descobrem divisão dos cromossomos humanos. Janeiro / 2000 - Fapesp indetifica bactéria que causa doenças na laranja. Junho / 2000 - Celera, de Graig Venter mapeia 99% dos genes humanos. Junho / 2000 - Bill Clinton Compara a descoberta à invenção da rota Futuro - Brasil lidera pesquisa para a cura do câncer.