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Correio Popular

Boldrini: de criança para criança

Publicado em 24 janeiro 2010

Por Delma Medeiros

Um pomar, um borboletário e um carrinho de golfe foram os presentes ganhos pelo Centro Infantil Boldrini em comemoração aos seus 32 anos de atividades, completados amanhã. O inusitado é que todos foram oferecidos por crianças, do Brasil e dos Estados Unidos. Outro motivo de comemoração foi o início de funcionamento do Instituto Pediátrico, o primeiro do País a fazer diagnóstico precoce do câncer na criança. Para este ano, o desafio e o presente será pôr em funcionamento a unidade de reabilitação campineira da Rede Lucy Montoro, iniciativa conjunta das secretarias estaduais da Saúde e dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência.

Para a presidente do Boldrini, a oncopediatra Sílvia Brandalise, o foco da comemoração é a esperança. "Quando ações como essas vêm de crianças, renovamos a esperança de um mundo melhor e mais solidário", afirma.

O carrinho de golfe, que será usado para transportar, quase como uma brincadeira, os pequenos pacientes em tratamento para os serviços de radioterapia e de imagem, e para a hospedagem na Casa de Apoio Social, instalada ao lado do hospital, foi pintado e doado por crianças com câncer do Children"s Hospital de Denver, nos Estados Unidos.

A implantação da área de lazer com borboletário, pomar e lago com carpas surgiu da iniciativa solidária do garoto Aristodemo Pinotti, de 10 anos, neto do médico José Aristodemo Pinotti, já falecido. O menino ganhou R$ 50,00 do pai como prêmio por ter disputado com ética um torneio de tênis e, ao invés de gastar o dinheiro com guloseimas ou brinquedos, decidiu doar para o Boldrini. A família apoiou e ele entregou o recurso nas mãos da presidente, de quem recebeu o recibo da doação.

De início, Aristodemo sugeriu que o dinheiro fosse usado para comprar remédios. Mas, quando Sílvia falou sobre a criação de um borboletário na área do pomar (ainda não urbanizada), ele se empolgou. "O projeto de urbanização da área tem custo estimado de R$ 300 mil. Sugeri abrirmos uma conta para arrecadar fundos e que daria sorte começar com a doação dele. O Ari se animou e passou a envolver também outros colegas, da escola e dos torneios de tênis", conta Sílvia. "Isso é o mais importante. Doar dinheiro é mais fácil que dar parte de seu tempo de descanso para ações solidárias", diz a médica, que encarregou o garoto de coordenar a implantação do projeto.

O menino explica que passou a se interessar pelo assunto porque, além do avô que foi vítima de câncer, o filho de sua professora teve a doença e foi tratado no Boldrini. "Minha mãe e meu avô sempre falaram bastante sobre a importância de ajudar a instituição. E, em 2007, como repórter do programa da Beth Abraão, fiz matéria no Boldrini e vi como o trabalho do hospital era bom", diz ele, sem esconder o orgulho por ser o responsável projeto. "A Sílvia confiou em mim. Teve coragem e confiança de me dar essa responsabilidade. Fiquei muito feliz", afirma. Ari destaca ainda que precisa da colaboração de todos para a tarefa. "O que eu, minha família e meus amigos podemos levantar não chega a um terço do que é preciso. Mas estou animado. Sei que vamos conseguir."

Criar o borboletário é sonho antigo da médica. "Mais que tratar, é necessário cuidar da qualidade de vida dos pacientes durante e após o tratamento", afirma. "Através da beleza das flores e borboletas, dos momentos de lazer aos pés de uma laranjeira ou mangueira, a criança ultrapassa o sentido da doença, modifica seu foco, se supera na busca de força e esperança", acredita. Para a oncopediatra, a nova área de lazer é um avanço na humanização do tratamento. "E as crianças merecem."

RAIO X

Os números do Boldrini em 2009

Área construída 100 mil metros quadrados

Profissionais620

Consultas ambulatoriais53.658

Internações hospitalares3.590

Exames laboratoriais157.812

Exames de Imagem12.699

Sessões de quimioterapia28.944

Sessões de radioterapia7,3 mil

SAIBA MAIS

Atualmente, o Boldrini trata cerca de 7 mil pacientes de diversas cidades brasileiras e de países da América Latina, 80% delas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

É considerado um dos centros mais avançados do País, com índice de cura de 70% a 80% em alguns tipos de câncer. Em 1978, o índice não superava os 5%.

Unidade de reabilitação é novo desafio

Este ano, o maior desafio do Boldrini, segundo a presidente Sílvia Brandalise, é a gestão da Unidade de Reabilitação Campinas da Rede Lucy Montoro. A unidade, instalada numa área de 4 mil metros quadrados, com laboratórios e oficinas de reabilitação, está em fase final de construção e deve entrar em operação no início de março. A unidade vai atender a macrorregião de Campinas no restabelecimento das funções motoras e na reintegração social de crianças e jovens com deficiência secundária a tumores ósseos ou do sistema nervoso, paralisias decorrentes de defeitos congênitos, traumas, entre outros. "A unidade representa um salto de qualidade", diz Sílvia. Além dos pacientes do Boldrini, que terão atendimento prioritário, serão atendidas crianças com problemas motores e, à tarde, adultos com mobilidade reduzida, decorrente de patologias, traumas ou malformação, em um trabalho integrado com os outros serviços de reabilitação do município. No mesmo prédio vai funcionar também o Centro de Hemofilia e Hemoglobinopatia, doenças sem cura e que, em geral, necessitam de reabilitação. "Será um marco no Estado. Hoje, o atendimento é diluído e não específico. O centro terá ambiente mais acolhedor, com salas individuais para tomar sangue e 11 leitos-dia para os casos de crise de dor", diz Sílvia. (DM/AAN)

Corrente de solidariedade torna o sonho possível

Nunca Desista dos Seus Sonhos é o nome do projeto coordenado pelo garoto Aristodemo Pinotti, de criação do pomar, borboletário e lago de carpas. O primeiro passo foi a confecção de camisetas temáticas. Monica Pinotti, mãe de Ari, explica que foram confeccionadas duas camisetas. Uma com desenho da filha Gaia, de 11 anos, que se tornou a camiseta do time de tênis de Ari, feita com material específico para roupas esportivas e vendida a R$ 30,00. A segunda é o logo do projeto, com borboletas, árvore frutífera e carpa, de algodão, ao custo de R$ 20,00. Mônica também está negociando com uma designer de joias a produção de pingentes temáticos para venda. "Toda a verba arrecadada é para o projeto. Segundo Sílvia Brandalise, a doação de Ari já deu sorte.

A campineira Maria Amélia Santoro, conhecida como Loló, já falecida, doou uma casa para o Boldrini com usufruto de uma irmã. Mas a família resolveu vender o imóvel e repassar a parte que cabe ao hospital, entre R$ 250 mil e R$ 300 mil. "Esse recurso vai para a área de lazer, teremos o pomar e borboletário Loló Santoro", diz Sílvia. (DM/AAN)

 

Centro investe no diagnóstico precoce

CS encaminha pacientes de 5 a 15 anos para exames no Instituto Pediátrico

Outro motivo de comemoração nos 32 anos do Centro Infantil Boldrini é o Instituto Pediátrico, voltado ao diagnóstico precoce do câncer infantil e investigação de fatores ambientais vinculados ao aparecimento de cânceres, em parceria com a Secretaria de Saúde de Campinas e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O projeto piloto começou em novembro com o Centro de Saúde São Marcos. A unidade básica encaminha ao instituto crianças aos 4 e 15 meses para mapeamento da retina e ultrassonografia abdominal. Em breve, um segundo centro de saúde, a ser definido pela Secretaria e Saúde, passa a integrar o programa.

Estimativas mostram que, de cada 100 mil crianças, entre 10 a 15 podem apresentar câncer nos primeiros 15 anos de vida. Exames de ultrassonografia permitem detectar de forma precoce tumores abdominais em crianças com até 2 anos. "E o mais importante é poder fazer também o diagnóstico precoce de outras anomalias, como malformação renal, de testículo, de ovário, de bexiga, das vias urinarias, que normalmente vão apresentar sintomas quando a criança tem em média 15 anos. O exame abdominal também investiga fatores ambientais relacionados ao câncer e à ocorrência de malformação", diz Sílvia, representante brasileira em um grupo internacional de pesquisa para a prevenção e a redução da incidência de câncer em crianças. O Consórcio Internacional do Câncer da Criança, vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), reúne pesquisadores também da Austrália, China, Estados Unidos e Inglaterra. (DM/AAN)