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Inovação Unicamp

BNDESPar investe R$ 3 milhões na Nanocore, que se prepara para

Publicado em 30 julho 2007

Lançar droga anticâncer em 2009; PIPE marcou história da empresa


Obter recursos públicos para fazer pesquisa e desenvolvimento e, ao mesmo tempo, prestar serviços para gerar receita própria e imediata — essa estratégia foi adotada pela Nanocore para sair da condição de empresa incubada e chegar a ter, como sócia, a empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o BNDESPar. Prestes a concluir o negócio com o banco e se tornar uma sociedade anônima de capital fechado, a Nanocore se prepara para lançar seu primeiro produto inovador em 2009: um imunoterápico de DNA recombinante para o tratamento de câncer. A Nanocore desenvolve produtos e presta serviços de análises e testes nas áreas farmacêutica, veterinária e biotecnológica. O mineiro José Maciel Rodrigues Júnior, diretor-executivo da Nanocore, não quer saber de dar muitos detalhes — o pedido de patente da tecnologia por trás do medicamento ainda não foi depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Mas já comemora os R$ 3 milhões que deve receber do banco estatal. "Vamos passar de nano a microempresários", brinca.

Imunoterápicos de DNA recombinante, chamados também de vacinas gênicas, são alvo de pesquisa em vários países e uma grande esperança para tratamento de câncer, em especial. As vacinas tradicionais são desenvolvidas a partir de vírus ou bactérias causadores da doença, usados em sua forma atenuada ou inativa — portanto, sem atividade patogênica. Ao chegar no corpo humano, a vacina induz o sistema imunológico a produzir anticorpos que combatam a doença. Já os imunoterápicos de DNA são desenvolvidos a partir de um fragmento do microorganismo que vai desencadear no corpo a resposta protetora do sistema imunológico contra a doença. No caso do tratamento estudado pela Nanocore, o paciente não recebe a vacina pronta, mas apenas a mensagem de produção, e o próprio DNA passa a produzir a vacina no organismo.

A produção do imunoterápico começa com a identificação de uma proteína do microorganismo causador da doença ou tumor. Essa proteína, chamada de antígeno, induzirá o sistema imunológico humano a gerar uma resposta de proteção. Usando técnica de seqüenciamento genético, os pesquisadores vão procurar um gene que codifique essa proteína. Esse gene será clonado, para multiplicar o número de cópias que serão usadas na vacina, e purificado. Depois disso, coloca-se o gene em microesferas, feitas pela Nanocore com o uso de nano e microtecnologia.

O produto está na fase pré-clínica de desenvolvimento, ou seja, ainda será testado em animais. "Precisamos mostrar eficácia e segurança. Em seguida, precisamos mostrar a viabilidade industrial e comercial do produto, para depois passar para os testes em seres humanos", conta Maciel. A empresa espera poder realizar todo o desenvolvimento no Brasil.


O portfolio da empresa

A Nanocore, fundada em 2003, desenvolve produtos farmacêuticos, usando biotecnologia e nanotecnologia, e metodologias analíticas; além disso, faz controle de qualidade de medicamentos, inclusive de uso veterinário. Pode desenvolver formulações de remédios, realiza testes químico-físicos complexos para controle de qualidade, faz estudos de viabilidade de produtos e é capacitada para desenvolver processos de cultivo de células bacterianas, leveduras e células de mamíferos em diferentes escalas, usadas em produção de biomoléculas — protena ou DNA —, entre outros serviços. A empresa não revela seu faturamento. A participação societária do BNDESPar ainda está em discussão, diz Maciel. Em outras firmas nas quais o banco investiu, como a Genoa, empresa de biotecnologia, o BNDESPar ficou com 20% das ações.

Para as atividades de P&D e prestação de serviços, a Nanocore conta com 16 funcionários. São seis doutores, além de farmacêuticos, biólogos e três técnicos de nível médio. Há ainda as colaborações com a Universidade de São Paulo (USP), campi de São Paulo e Ribeirão Preto, e com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A empresa é estruturada em três divisões, cada uma delas coordenada por um doutor: Maciel, farmacêutico formado pela UFMG, mestre em controle de qualidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em tecnologia farmacêutica pela Universidade de Paris XI, é responsável pela divisão Desenvolvimento de Novas Tecnologias; a Divisão de Desenvolvimento Analítico está com a sócia de Maciel na Nanocore, a farmacêutica Karla de Melo Lima, formada pela UFMG, mestre em ciências farmacêuticas pela mesma instituição e doutora em imunologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP; Sandra Aparecida dos Santos, biomédica formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre e doutora em imunologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, coordena a Divisão de Biotecnologia.

A empresa tem dois pedidos de patente depositados no INPI; para um deles, também fez depósito internacional, via Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT). Um terceiro pedido está em vias de ser depositado. É o que se relaciona ao imunoterápico para câncer.

Os pesquisadores da Nanocore também publicam artigos em revistas nacionais e internacionais. "Uma vez pedida a patente, a segunda etapa é buscar parceiros. A publicação é uma forma de divulgar nosso trabalho, mas preservamos o que não foi protegido, evitando abrir muito as informações", comenta Maciel. "É importante publicar porque quando temos uma entrevista com setores de P&D de empresa internacional eles sempre estão com uma lista de publicações nossas, e nos questionam em relação aos artigos", completa. A página da empresa na Internet — fato raro em empresas brasileiras — lista as 30 publicações de seus cientistas, sendo quatro delas capítulos de livros; o restante são textos de periódicos como Annual Review of Biomedical Science, Gene Therapy e International Journal for Parasitology.


R$ 2 milhões da Fapesp

A Nanocore já obteve cinco financiamentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) no âmbito do Programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE). Todos os projetos de pesquisa foram baseados em tecnologias recombinantes para a produção de proteína e DNA recombinante para diferentes aplicações na parte de desenvolvimento de medicamentos, vacina e método diagnóstico.

O primeiro PIPE aprovado era um projeto para produção de DNA recombinante com foco em vacina para tuberculose. "Esse projeto nos deu capacitação para a produção de DNA recombinante, que é o atual projeto em que o BNDES está apostando. No PIPE, tivemos bons resultados do ponto de vista da eficácia em animais, mas não chegamos a testar em humanos", lembra Maciel. A empresa não está mais focada nesse produto, e se voltou para a área de imunoterápicos, que tem maior potencial de mercado. Mas o conhecimento gerado no projeto é objeto de uma das duas patentes que a Nanocore tem. Refere-se à associação do DNA recombinante a micropartículas, visando a uma vacina de dose única ou imunoterápico de dose única. "É uma plataforma tecnológica que podemos usar em diferentes aplicações, em vacinas animais e imunoterápicos para uso humano", acrescenta.

O segundo PIPE foi voltado para a produção de hormônio folículo-estimulante (FSH) recombinante, feito em parceria com a professora Mari Sogayar, do Instituto de Química da USP. "Iniciamos o estudo clínico em animal, e em 2008 devemos começar em humanos, assim que tivermos a planta [de fabricação do produto] certificada", conta.

O terceiro projeto aprovado no PIPE é referente à vacina contra carrapato. "É uma vacina de dose única, diferente das proteínas que estão no mercado", comenta. Em parceria com a Embrapa Gado e Corte, no Mato Grosso do Sul, a Nanocore caracterizou as cepas de maior incidência no Brasil, que foram clonadas. Os medicamentos usados no País para combater o carrapato são administrados em várias doses e feitos para cepas que não existem aqui.

O quarto projeto PIPE, feito em parceria com a Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, estuda métodos de diagnóstico para a hantavirose. "É uma doença de alta letalidade, há pacientes que morrem sem mesmo saber o diagnóstico", destaca. A Nanocore propôs um método rápido para esse diagnóstico. Uma empresa do Rio Grande do Sul deve comercializar o kit.

O último projeto recentemente aprovado no PIPE também será feito em parceria com o Instituto de Química da USP. O projeto visa à produção de análogos de amilina, substância secretada pelas mesmas glândulas que produzem a insulina no pâncreas e que é um auxiliar no tratamento de diabetes. Somados os recursos, a Fapesp investiu cerca de R$ 2 milhões na Nanocore, de acordo com os cálculos de Maciel. A empresa também contou com bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com um pequeno financiamento do Banco do Brasil. Mas para sair da incubadora onde estava, a Supera, de Ribeirão Preto, o que ajudou mesmo foram os recursos próprios.


A origem da empresa

A Nanocore nasceu de um projeto de pesquisa da UFMG e da USP que pretendia desenvolver vacinas recombinantes. Foi abrigada na Supera em 2003, onde residiu por dois anos e um mês. Há um ano e dois meses, já graduada, foi para Campinas. Apesar de Belo Horizonte ser um pólo de biotecnologia, havia uma limitação para o fomento desse tipo de atividade em Minas Gerais. Os pesquisadores empreendedores escolheram o Estado de São Paulo em função da oportunidade que a Fapesp abria com o PIPE. Também pesaram na decisão o bom relacionamento com a Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e a iniciativa da universidade e da prefeitura de criar a Supera. Maciel deixou o cargo de professor da UFMG para montar a empresa.

Com a graduação na incubadora, Maciel escolheu o Techno Park, condomínio de empresas próximo a Campinas, para abrigar sua sede e laboratórios. Ele avaliou como razoável o custo para se instalar no local e considerou o fato de o mercado estar próximo. "Ficamos perto das empresas do setor farmacêutico, localizadas no eixo Campinas-São Paulo. Em Ribeirão Preto, tínhamos dois clientes; agora, em Campinas, temos 25", conta Maciel. Entre os clientes, parceiros internacionais: a Schering-Plough e a Merial. "Fazemos para essas duas empresas o desenvolvimento de produtos veterinários. Foram produtos inicialmente focados no mercado nacional, mas um deles tem alcance mundial e deverá ser exportado", conta. Os nomes dos produtos estão em registro.

A empresa também se interessou pelo programa da prefeitura de atração de investimentos para o município. Campinas concede incentivos fiscais para empresas de tecnologia — reduz o Imposto sobre Serviços (ISS) e o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). "Esses incentivos tiveram papel fundamental na nossa vinda para cá", credita.


Prestar serviços: solução para gerar caixa

"O desenvolvimento desses projetos do PIPE exigiu que a empresa montasse um laboratório bioanalítico, o que nos deu a oportunidade de oferecer serviços de desenvolvimento analítico e desenvolvimento de produtos farmacêuticos quando ainda estávamos na incubadora", lembra. Com as receitas de prestação de serviço, a Nanocore contratou pessoal e construiu sua sede. "A grande limitação que encontramos foi o acesso ao crédito. Por isso optamos por fortalecer a área de serviços, no que fomos bem-sucedidos", afirma. "Nesse contato com nossos clientes sempre vem um desenvolvimento agregado", acrescenta. Quando a Nanocore encontra um problema no controle de qualidade de um medicamento, abre-se uma oportunidade para otimizar ou agregar uma nova tecnologia. 

A empresa funciona em um prédio de dois andares construído em uma área de 400 metros quadrados dentro do Techno Park. Ali funcionam cinco laboratórios, visitados por Inovação no dia 24 de julho. Um deles, o laboratório bioanalítico, concentra as atividades de prestação de serviços. Por exemplo, a empresa pode, ali, realizar análise de estabilidade dos medicamentos, o que define seu prazo de validade. Para isso, a Nanocore simula no laboratório diferentes condições de temperatura e umidade, às quais submete o medicamento. Com isso, pode determinar o período durante o qual o medicamento, na prateleira, mantém características e teor do princípio ativo.

No laboratório de desenvolvimento, a empresa pode chegar até a fase de fabricação de lotes-piloto de um novo medicamento. "No caso de medicamentos para uso humano, fazemos parcerias para as fases pré-clínica e também clínica", diz. Para a fase pré-clínica, quando se faz testes em animais, a parceira é a Bio Horizonte, de Minas Gerais — dos mesmos donos da Nanocore —, responsável pela experimentação em aves, bovinos, suínos e caprinos.

O Laboratório de Microbiologia/Fermentação está equipado para fazer análises microbiológicas, em especial para detectar a potência de antibióticos. "Trabalhamos com pequenos volumes chegando até a escala-piloto", conta. No Laboratório de Purificação de Proteínas, a empresa tem capacidade para processar até gramas de proteínas — gramas, em se tratando de proteínas, é uma massa expressiva. Por fim, a empresa conta com o Laboratório de Cultivo Celular, já que a Nanocore usa algumas células transformadas para produzir a proteína de interesse. "Esse laboratório terá grande upgrade na próxima estrutura porque é muito importante para a gente." A Nanocore está de mudança: vai ocupar uma construção de 800 metros quadrados, o dobro de espaço em relação ao prédio de hoje. A nova sede, também dentro do Techno Park, está quase pronta e fica de frente a outras duas empresas de base tecnológica instaladas no pólo, CanaVialis e Alellyx.


Razões do sucesso

Norberto Prestes, gerente da incubadora Supera, destaca os fatores que fizeram o sucesso da Nanocore. Primeiro, a empresa entrou no mercado preenchendo uma lacuna ao oferecer os testes e pesquisar imunoterápicos. Ser da área de nanotecnologia também ajudou, pois se trata de um dos setores portadores de futuro na política industrial. Além disso, a empresa conseguiu pensar na sua sustentabilidade no curto prazo ao investir na prestação de serviços para poder gerar recursos e se manter mesmo depois que saísse da incubadora. "O setor público investiu na Nanocore porque ela tem um projeto que, se der certo, trará um alto retorno", acrescenta.

Ele lembra que incubação de empresas de tecnologia é um negócio de risco e que essa trajetória bem-sucedida da Nanocore, infelizmente, ainda é exceção entre as incubadas. "As incubadoras existem como instrumento público de indução do desenvolvimento econômico e um dos seus objetivos é prover as empresas de infra-estrutura para que elas direcionem os esforços para a inovação e se arrisquem mais nesse percurso", explica. Um dos problemas mais comuns nas incubadas, afirma, é o pesquisador-empreendedor desenvolver a "obsessão pelo produto final", que pode demorar muito tempo para ficar pronto. Pensando apenas nisso, ele não elabora uma estratégia para sobreviver até chegar ao mercado.

"Os executivos da Nanocore perceberam que o produto demoraria para chegar ao mercado e que precisariam sustentar a empresa até lá. Para isso, otimizaram conhecimentos, estrutura física e de pessoal para atuar em um nicho que lhes traz um aprendizado para o desenvolvimento do produto e gera caixa para a firma", destaca. A experiência da Nanocore se tornou uma espécie de modelo para o gerente Prestes: a incubadora orienta os pesquisadores-empreendedores incubados a pensar também nas alternativas para a sobrevivência da empresa no curto e no médio prazo.

Política industrial, Lei de Inovação...

José Maciel destaca que a participação do BNDESPar na empresa tem relação direta com a política industrial do governo, que coloca biotecnologia e nanotecnologia como setores prioritário e portador de futuro, respectivamente. O empresário também aprova a subvenção econômica, instrumento criado pela Lei de Inovação. A Nanocore teve uma carta-consulta aprovada e deve receber subvenção da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para contratação de mestres e doutores. "Mas é importante termos um perfil de prestação de serviço porque o fluxo de caixa reduz a ansiedade pelo financiamento, o que nos permite trabalhar com os prazos mais lentos do governo", aponta.

Maciel lembra que tentou abrir uma empresa antes da Nanocore. A tentativa falhou porque a USP, na época, não autorizou o uso da patente do pesquisador que seria um dos sócios. Agora, com a Lei de Inovação, ele percebe uma abertura maior por parte das universidades, mas crê que ainda não há regras claras sobre como será gerenciada a propriedade intelectual nessas instituições.

A empresa sente também a falta de retorno da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). A Nanocore tem uma comissão interna de biossegurança e faz os relatórios anuais, como manda a lei, mas não há retorno do órgão. "Somos muito atentos às normas nacionais e internacionais. Às vezes, temos algumas dúvidas em relação ao licenciamento que poderia ser feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no caso de tecnologias recombinantes, mas isso não nos afetou muito porque ainda não trabalhamos com a produção. Essa etapa, vamos viver agora", completa.


Propriedade intelectual

Segundo Maciel, a Nanocore adotou uma postura bastante flexível em propriedade intelectual quando é contratada para projetos de pesquisa e desenvolvimento. "A patente pode ser 100% da contratante e pode ser compartilhada", diz ele. Além disso, a Nanocore concorda em partilhar o risco quando é contratada para desenvolver um produto — aceita uma remuneração futura na forma de royalties. (J.S.)