Notícia

Gazeta Mercantil

Blogo, logo existo!

Publicado em 17 março 2006

Algumas correntes filosófico-culturais, que passam por pensadores como Charles Sanders Peirce e até por escritores como Guimarães Rosa, têm a percepção única de que criar novos mundos requer linguagens igualmente novas. Tanto assim que, ao falar de um fenômeno jovem e original, como é o dos blogs, haverá a necessidade de se criarem novíssimas palavras, de aceitar a licença poética para a existência de neologismos, como "blogsfera" e o verbo "blogar".
Do nome para o ato, vemos que o conhecimento do termo blog é inversamente proporcional ao uso prático dado a eles no dia-a-dia das pessoas. O mesmo podemos dizer sobre o Orkut - afinal, quem sabe o que significa essa palavra, a despeito do sucesso no seu uso? Ou seja, como em grande parte do que envolve as tecnologias da informação e comunicação (TIC), a interface amigável massifica o uso, mas aliena o blogueiro da complexidade e das políticas internas do sistema. Portanto "blogamos", mesmo não sabendo como - e até o porquê, dirão alguns estudiosos.
Após essa licença necessária para se abordar o novo, detecta-se que, inegavelmente, os blogs viraram um fenômeno tanto da sociedade quanto da cibersocidade. Em igual intensidade, no mundo real quanto no virtual, as pessoas físicas - e agora também jurídicas - correm para eles com a crença de que não há vida fora da "blogsfera". O movimento afeta anônimos e suas intimidades, famosos e o conceito de visibilidade, empresas e, até, os cânones do jornalismo.
Essa migração das intenções e da necessidade de se posicionar na "blogsfera" já está sendo medida: a cada segundo, surge um novo blog. Com crescimento exponencial, certamente quando esta reportagem estiver sendo lida já serão mais de 30 milhões de endereços em todo o mundo. A contagem vem sendo feita por um site chamado Technorati, um tipo de Google dedicado a esse nicho. São 75 mil novos blogs por dia. Em volume de postagem, ou seja, textos colocados nesses locais virtuais, chega-se a mais de 1,2 milhão de textos no mesmo período.
Para a perplexidade dos que se questionam sobre "quem lê tanta notícia", essa malha virtual dobra a cada cinco meses. No mar de informações da "blogsfera", confissões íntimas, intrigas corporativas ou políticas, opiniões sobre novelas e futebol, estudos sobre as estratégias dos participantes do "Big Brother" (da Rede Globo) ou injustiças do Oscar se interconectam com fotos, vídeos e músicas dos mais variados tipos e gostos. Denúncias e queixas contra empresas e governos também podem ser encontradas, claro.
A pesquisadora de novas mídias Giselle Beiguelman, que também é professora da pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), confirma que os blogs, na sua concepção original, não se limitam aos textos escritos. Desde sempre eles se caracterizam por ser uma colagem de múltiplas fontes e linguagens acessadas ou produzidas pelo blogueiro, no qual os elementos expostos são janelas para outros locais no mundo virtual.
Giselle acaba de lançar um livro intitulado "Link-se", pela Editora Peirópolis. A obra é voltada para a discussão sobre artes, mídias e cibercultura e tem um artigo específico para estudar o fenômeno dos blogs. Nele, a pesquisadora afirma que esse fenômeno ganhou força no início do século XXI, mais precisamente em 2002, e deriva do conceito de weblog - registro de atividades, performance e acessos de um website.
Para ela, os blogs são a ponta do iceberg da internet no que ela é, ou seja, uma mídia bidirecional e de produção barata.
As pessoas não podem ter uma estação de TV ou rádio, mas podem colocar um site pessoal no ar. A conseqüência disso é que a sociedade de massas chegou à era da nanoaudiência, ou seja, ao surgimento de pequenos veículos de comunicação com micro-audiências, que falam para grupos igualmente pequenos.
Essa nanoaudiência é um dos fenômenos mais interessantes dessa nova mídia. Trata-se de leitores fiéis de vários blogs, que compõem audiências fragmentadas. A jornalista e gerente de conteúdo do Yahoo!, Alexandra Leite, autora do blog "Jeito Alexal de Ser", é um bom exemplo. Todos os dias seu diário pessoal, que já tem seis anos de existência, é visitado por cerca de 200 pessoas, muitas delas próximas e outras que se tornaram conhecidas exatamente pelo blog.
Alexandra conta que a idéia de escrever surgiu da necessidade de manter contatos com amigos e parentes, especialmente porque ela é de Belo Horizonte, mas mora em São Paulo há alguns anos. "Como não dá tempo de escrever contando as novidades regularmente para cada um dos meus conhecidos, o blog é uma ferramenta que me ajuda a falar com várias pessoas ao mesmo tempo", explica...
O contraponto dessa facilidade é a exposição. Alexandra comenta que até mesmo pessoas próximas a ela criticam o fato de ela falar de sua vida pessoal na internet. Na prática, a blogueira revela que faz uma edição dos fatos e opiniões pessoais que serão postadas. "Tem gente que acha que me exponho muito porque falo da minha vida, mas acabo divulgando somente falando de coisas agradáveis, divertidas ou exóticas; de vez em quanto também tento criar uma polêmica", confessa.
A artimanha da polêmica para manter seus fiéis leitores é um recurso muito usado na rede e os blogs estão herdando essa tendência. A pesquisadora da FAPESP, Fabiana Komesu, que é também professora da Unesp de São José do Rio Preto, estudou no seu doutorado justamente o fenômeno dos blogs.
Especialista na área de lingüística, ela buscou entender o assunto a partir dos casos de escrita íntima e do paradoxo de público e privado. "O blog não é um diário pessoal, no sentido do termo, há uma edição do texto, com objetivo de mostrar o que se quer mostrar", explica. Para ela, todos os blogueiros, como o autor de qualquer texto, sempre representam um personagem.
Um bom exemplo de personagem e que virou sucesso no mundo dos personagens "blogueiros" e tomou depois o mundo real foi o episódio da Bruna Surfistinha. Criado pela ex-prostituta Raquel Pacheco, o blog virou febre na Internet, ganhou as outras mídias brasileiras, com histórias sobre aventuras sexuais. Resultado do sucesso: uma parte dos textos postados no endereço virtual virou livro que, lançado no ano passado, é sucesso editorial até hoje.
Blogs pessoais, contudo, não são o único tipo que existe na "blogsfera". Para Giselle Beiguelman existem vários tipos, inclusive com usos variados de ferramentas tecnológicas. Contudo, em comum entre eles, há uma hibridização entre trabalho, lazer e vida pessoal. Entre outros princípios que definem o conceito de blog, estão: ele sempre deve expressar a opinião do autor, tem que ter conteúdo apresentado a partir do mais recente; precisa ter links para outros meios de acesso, gerando a "blogsfera"; é gratuito e preza pelos conceitos de independência e compartilhamento.
O publicitário Ricardo Freire, com seu blog "Viaje na Viagem", ajuda a ilustrar um outro tipo, que foge do modelo diário íntimo. Resultado de seu trabalho como repórter de turismo, o endereço faz sucesso na internet com belas fotos de lugares paradisíacos que o blogueiro visita. Desde que publicou o primeiro livro, em 1998, homônimo ao título do blog, Freire vem colaborando na imprensa especializada na área de viagem. "Abandonei o mundo das agências para me dedicar ao jornalismo de viagem e o blog é a minha vitrine, meu cartão de visita", diz.
O blogueiro explica que se entusiasmou com essa nova forma de linguagem ao conhecer outros trabalhos que estavam sendo feitos na área, como os de Cora Rónai, Rosana Hermann e Ricardo Noblat. "Vi que não havia nenhum blog especializado no assunto viagem", afirma. "Eu tinha certeza de que muita coisa de uma viagem é perdida entre ela e o momento em que você escreve a matéria; por isso as atualizações constantes durante o percurso mantêm o frescor do texto".
A pesquisadora Fabiana Komesu lembra que no atual momento de crise de emprego mundial, quando a definição de trabalho sofre constantes mutações, a "blogsfera" pode oferecer novas oportunidades. Um dos fatos que corroboram para o sucesso deles é a necessidade de se exibir, até com fins profissionais. "Com o aumento do desemprego, do sub-emprego e até do trabalho em casa, o blog funciona como uma forma de a pessoa existir além do recinto do lar e, quem sabe, encontrar um novo trabalho", diz.
Um dos maiores sucessos do mundo dos blogs é o veterano jornalista esportivo Juca Kfouri. Com ampla experiência em jornalismo impresso, em rádio e TV, ele se mostra extasiado com a experiência nessa nova ferramenta midiática. "Eu jamais imaginei, aos 35 anos de carreira, que esse diário virtual fosse se tornar o que é hoje", afirma. E completa: "O meu blog não tinha 2 meses e chegou a 2 milhões de visitas". Atualmente, o veterano jornalista esportivo dedica cerca de oito horas do seu dia a esse canal de comunicação, que fica alocado dentro do portal "UOL". O resto do tempo completa com a coluna semanal que mantém na "Folha de S. Paulo", o programa na rádio "CBN" e outros compromissos.