Notícia

Gazeta Mercantil

Biotecnologia reduz perda de citros

Publicado em 23 maio 1997

Por Ana Carolina Silveira - de Campinas
Um importante passo para a obtenção de pomares de citros sadios, completamente livres de doenças causadas por vírus e bactérias, foi dado pelo Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em Cordeirópolis, pertencente ao Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pesquisadores desenvolveram uma tecnologia de limpeza e produção de variedades de alto valor fitossanitário, conseguindo eliminar das borbulhas - material de propagação - até mesmo a clorose variegada dos citros (CVC), o "amarelinho", doença que somente no ano passado condenou 15 milhões de plantas em São Paulo, entre cerca de 165 milhões de plantas, o que significa um prejuízo estimado em US$ 180 milhões. O centro de citricultura está repassando agora as borbulhas aos produtores, viveiristas e indústrias de suco com pomares próprios para propagação em estufas fechadas por telas. Com esse material, obtido a partir de saliências no caule de uma planta matriz, espera-se o desenvolvimento de mudas de melhor qualidade nos pomares paulistas. A primeira borbulheira do centro de pesquisas está em operação há dois anos, produzindo para o mercado aproximadamente meio milhão de mudas por ano. A segunda, em fase de instalação, produzirá em torno de 1 milhão. A meta é atingir 3 milhões anuais. O mercado paulista consome, em média, de 12 a 15 milhões de novas mudas por ano. "Queremos garantir plantas de melhor qualidade genética e fitossanitária", diz o pesquisador Marcos Machado, coordenador do laboratório de biotecnologia do centro de citricultura. Para os que necessitam de material de propagação, o centro vende por R$ 20,00 cada lote de mil borbulhas, com rendimento aproximado de 80%. A Fapesp apóia o projeto de melhoria de mudas de citros desde 1992, já tendo transferido R$ 54 mil ao laboratório do centro. No ano passado, a fundação repassou mais R$ 45 mil para a construção das borbulheiras. Para o serviço de diagnóstico de mais de 100 tipos de viroses, o centro está recebendo R$ 138 mil. O presidente do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitros), Ademerval Garcia, diz que o grande mérito da pesquisa é ser a pioneira na limpeza de mudas da bactéria do CVC, doença só existente no Brasil. Conforme levantamento, realizado pelo Fundecitros no ano passado, 53% dos pomares atacados pelo CVC foram localizados em 81% da área de São Paulo. Desse total, 6% das plantas encontravam-se em estágio terminal. "Apesar de ainda não haver cura, os produtores estão conseguindo conviver com o CVC, através da poda e do combate à cigarrinha transmissora", diz. Nos últimos dez anos, a clorose, causada pela bactéria Xyllella fastidiosa, transformou-se no principal problema da citricultura paulista. De fácil transmissão, ataca a copa das árvores. A Fisher S/A Agropecuária, de Matão, que fornece frutas para a esmagadora Citrosuco, levou suas próprias borbulhas, escolhidas entre as de melhor qualidade para fazer o enxerto, para os pesquisadores do Centro de Citricultura. Conforme o engenheiro agrônomo da Fisher, Hugo Luciano Gandini, o centro realizou a limpeza do material e fez testes para verificar as condições fitossanitárías. "Devolveram nosso material para que pudéssemos usá-lo para propagação. Vamos preservá-lo: em estufas para garantir que se mantenham saudáveis", diz. Essa é uma etapa chamada de tecnificação da produção de mudas que encarece os custos de produção, segundo Gandini, mas traz resultados futuros que acabam diluindo o investimento inicial. As plantas livres de doença indicam a estaca zero do processo produtivo. As mudas devem permanecer por um mínimo de dois anos em estufas, período em que a planta é mais suscetível ao CVC. "Isso nos dá 100% de garantia que, caso a doença apareça um dia, a contaminação não aconteceu no período de estágio da muda", diz.