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Biota, 10 anos, projeta seu futuro

Publicado em 22 junho 2009

Por Manuel Alves Filho

No último dia 3 de junho, o Programa Biota-Fapesp, criado para identificar, mapear e investigar as características da fauna, da flora e dos microrganismos do Estado de São Paulo, completou dez anos de atividade. Na oportunidade, foi realizada uma cerimônia de comemoração no auditório da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No dia seguinte, no centro de convenções da Associação Paulista de Supermercados, ocorreu um workshop no qual a comunidade científica refletiu sobre os aspectos que deverão orientar as ações do programa ao longo da próxima década.

De acordo com o coordenador executivo do Biota, Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, a disposição tanto dos cientistas quanto da agência de fomento é de que as pesquisas ganhem ainda mais em profundidade e abrangência. “Na avaliação que fizemos da primeira etapa, que contou com a participação de um comitê externo, ficou constatado que o Biota contribuiu para o avanço do conhecimento biológico e formação de um expressivo contingente de profissionais capacitados. Não obstante, também identificamos que precisamos realizar estudos complementares em algumas áreas, além de agregarmos novos saberes e ferramentas ao programa”, afirma Joly. Na entrevista que segue, ele fala das realizações e dos desafios da ciência na busca por novos conhecimentos sobre a biodiversidade paulista.

Jornal da Unicamp – Qual o balanço que a comunidade científica fez da primeira fase do Biota? De que forma essa análise orientou a projeção para os próximos dez anos?
Carlos Alfredo Joly – No começo do ano, em fevereiro, nós fizemos uma avaliação, que contou com o trabalho de um comitê externo. Enviamos um questionário aos pesquisadores, para saber a opinião deles sobre como o programa colaborou para o avanço do conhecimento em suas respectivas áreas, o número de pessoas que foram formadas, como estão as coleções etc. Tivemos um retorno da ordem de 70%, o que demonstra o alto grau de envolvimento da comunidade.  O que ficou constatado é que tivemos um avanço considerável do conhecimento biológico do Estado. Esse conhecimento foi organizado de maneira que fosse utilizado, por exemplo, para a formulação de políticas públicas, na forma de resoluções, decretos e leis.

O Biota também contribuiu para a formação de 169 mestres, 108 doutores, 79 pós-doutores. Envolveu ainda cerca de 170 alunos de iniciação científica. Para se ter uma idéia do que esses números representam, na região Norte nós não temos mais do que 100 doutores trabalhando em biodiversidade, nos diferentes aspectos. Ou seja, foi uma contribuição grande no que toca à formação de recursos humanos qualificados. Os produtos que foram levados ao público também foram avaliados como muito positivos. Avaliação geral é de que o Biota cumpriu muito bem os objetivos colocados inicialmente. Entretanto, trata-se de um trabalho que pode ser aperfeiçoado e que precisa ter continuidade.

JU – Como foram os debates no workshop realizado no início de junho? Que diretrizes saíram dessas discussões?
Joly – Aproveitamos o aniversário do Biota para fazer uma reflexão sobre o que o programa alcançou e para projetar os trabalhos para os próximos dez anos, tendo em vista as áreas que devem merecer mais atenção na segunda fase de trabalhos. Isso passa por um aspecto institucional. A diretoria científica da Fapesp terá inicialmente que submeter a proposta de continuidade do programa ao seu Conselho Superior, para que ele a aprove. Durante o workshop, foram formados grupos que sinalizaram as áreas que merecerão estudos complementares e outras que passarão a integrar o programa.

JU – No primeiro caso, que áreas devem merecer estudos complementares?
Joly – Um dos grupos focou, por exemplo, os inventários. Nós ainda não completamos o levantamento de todo o Estado de São Paulo. Há regiões que são pouco conhecidas. Esta é uma área forte do Biota, um setor em que atuamos muito bem, mas entendemos que ele deve ser ampliado e aprofundado. Ao mesmo tempo, consideramos que esse tipo de trabalho deve incorporar novas ferramentas, para que os trabalhos permitam comparações mais imediatas. Precisamos padronizar um pouco mais a metodologia quantitativa. Quando queremos fazer o estudo da evolução de determinados grupos ou de como é a relação deles com o ambiente em que se encontram, precisamos resgatar informações do passado.

Com as ferramentas proporcionadas pela genômica e com o auxílio de marcadores moleculares, podemos fazer isso de maneira mais eficiente. Para o estudo de microorganismos isso fica ainda mais evidente. Ao usarmos a técnica de metagenômica, podemos fazer a extração de uma porção do solo ou da água de bromélia para identificar quanto tipos diferentes de genoma existem ali.
Outra iniciativa relacionada a essa área está voltada para grupos muito complexos. Existe uma técnica que usa uma parte do DNA para fazer identificações. O método é chamado de DNA Barcoding. Trata-se de uma iniciativa internacional que vem sendo adotada por alguns grupos. É algo para testarmos.

JU – Que outro aspecto merecerá maior atenção da segunda etapa do Biota?
Joly – Até agora nós trabalhamos com mapas que indicam os remanescentes de vegetação nativa no Estado. Mas não sabemos o que está acontecendo no entorno desses remanescentes. Não sabemos que atividades agrícolas estão sendo desenvolvidas ao redor e nem tampouco que impactos elas eventualmente trazem para esses remanescentes. Por exemplo: devem existir matrizes de cana, eucalipto, laranja ou mesmo urbana que circundam ou estão próximas de pedacinhos de cerrado ou de mata estacional.

Precisamos começar a integrar os nossos remanescentes às atividades econômicas que se desenvolvem no entorno deles. Isso é importante porque a possibilidade de conexão entre os fragmentos vai depender dessas matrizes. Podemos concluir, por exemplo, que a capacidade de conservação de um determinado fragmento isolado é muito pequena. Nesse caso, seria preciso restabelecer corredores, cuja viabilidade estará vinculada às atividades presentes nas imediações.

Entender os agroecossistemas que estão no entorno passará a fazer parte de uma nova linha de pesquisa do Biota. Esse trabalho certamente terá várias dimensões: econômica, social, energética, humana etc. O Biota explorou isso muito pouco na sua primeira fase, e agora precisamos aprofundar esses aspectos

JU – Ainda há muito que saber sobre esses ecossistemas?
Joly – Sim, ainda precisamos entender melhor o funcionamento dos ecossistemas, como cerrado, mata estacional, Mata Atlântica etc. Precisamos compreender melhor como é a ciclagem de água, de nitrogênio e de gás carbônico. Isso será fundamental para que possamos projetar quais seriam as consequências das mudanças climáticas para esses ecossistemas. Para os ecossistemas terrestres nosso conhecimento ainda é limitado. Temos maior conhecimento sobre ecossistemas de água doce, principalmente represas.
Mas em relação aos cerrados e aos diferentes tipos de floresta do Estado, conhecemos pouco. Se quisermos entrar numa discussão de mudanças climáticas, vamos precisar desse conhecimento mais refinado. Esses estudos, diga-se, deverão ter conexão com o programa de mudanças climáticas que a Fapesp está desenvolvendo. Objetivo é formular modelos regionais, e não apenas usar modelos internacionais adaptados à nossa realidade.

JU – E em relação à parte marinha, qual o nível de conhecimento acumulado?
Joly – Entendemos que fizemos relativamente pouco com relação à parte marinha. Tivemos um projeto grande que trabalhou com invertebrados marinhos, na faixa litorânea entre São Sebastião e Ubatuba, sob coordenação da professora Cecília Amaral, do Instituto de Biologia da Unicamp. Mas não fizemos nada no Litoral Sul, que é mais complexo que o Norte. Este possui áreas de manguezais, a foz do Rio Ribeira do Iguape, restingas etc. São ecossistemas importantes para a renovação de estoque pesqueiro. E há ainda a parte oceânica, que a primeira fase do Biota sequer trabalhou. Nossas ações ficaram concentradas no litoral.

Agora, precisamos avançar para entender a dinâmica, os estoques pesqueiros, as espécies que são economicamente importantes etc. Também precisamos começar a montar uma rede de monitoramento para poder aferir a variação das temperaturas na superfície e nas diferentes profundidades do oceano. Precisamos saber como está variando o pH e a salinidade da água. Esses componentes têm tanto uma importância biológica quanto de impacto no clima. Se a temperatura da água está mudando, os coeficientes de evaporação também se alteram. Pode-se ter mais ou menos evaporação, mais ou menos umidade circulando. Isso pode implicar numa distribuição diferente das chuvas. São estudos que serão importantes também para a formulação de modelos climáticos.

JU – E quanto à área de bioprospecção? Quais as perspectivas do desenvolvimento de fármacos, por exemplo, a partir de plantas e animais pesquisados pelo Biota?
Joly – A área de bioprospecção vai continuar. Está dando muito certo. A despeito disso, ainda não conseguimos fazer o casamento do que está sendo feito em bioprospecção com o setor produtivo. Para promovermos essa aproximação, e possivelmente gerarmos produtos comerciais, vamos precisar da ajuda de agências de inovação, como a Inova Unicamp. Vamos promover reuniões com representantes das empresas para saber o que interessa a elas. Entendemos que estamos fazendo ciência de primeira linha, mas reconhecemos que temos que incrementar esse aspecto da aplicação. O workshop já contou com a participação de representantes da indústria.

JU – O Biota tem um viés importante relacionado à educação. Como esse aspecto será tratado na nova etapa?
Joly – Entendemos que precisamos investir de maneira mais objetiva em educação. Temos que produzir material que chegue de fato ao ensino público, nos níveis fundamental e médio. Nos últimos anos nós conseguimos produzir um bom material para o público em geral, na forma de vídeos, exposições etc. Mas a experiência de produzir material voltado para o uso em sala de aula ainda tem que ser melhorada. Justamente por isso queremos incentivar a participação de professores que estão em sala de aula para nos orientar sobre conteúdo, linguagem e abordagem.

Nesse sentido, podemos gerar livros, vídeos e disponibilizar informações no site do programa para que sejam usadas em sala de aula. Muitas vezes o professor de Ciências usa exemplos da fauna e da flora de outros países porque não encontra material organizado de ecossistemas locais. Queremos mudar isso. Vamos trabalhar inicialmente com o que já foi produzido nos primeiros dez anos. À medida que formos produzindo mais conhecimento, novos materiais serão gerados.

JU – Quais serão as próximas medidas para que o Biota tenha a continuidade assegurada?
Joly – Temos alguns aspectos emergenciais para equacionar. Um diz respeito à questão da institucionalização do programa, que já foi discutida no ano passado. Agora a coisa começa a acontecer de fato. Em dez anos o Biota investiu R$ 14 milhões em projetos de diversas Unidades da Unicamp (IB, IG, CPQBA, Nepam, Cepagri). Pela grande participação de pesquisadores da Universidade no workshop realizado no começo de junho, podemos projetar que nos próximos anos o programa deva atrair pelo menos 50% a mais de pessoas do que na primeira fase. Como contrapartida, a Unicamp está cedendo espaço físico, uma secretária e está contratando um manager para o programa e editor executivo para a revista eletrônica Biota Neotropica. Ou seja, a Universidade está dando condições físicas e recursos humanos para o funcionamento do programa.

A Unesp, por seu lado, está construindo um prédio para abrigar os extratos obtidos por meio do trabalho bioprospecção e toda a parte de informática associada a isso. A Unicamp, junto com o Cenapad, vai abrigar também a parte de informática do Sistema de Informações Ambientais e a base cartográfica que permite a construção de mapas da distribuição das espécies. A definição da contrapartida da USP está sendo negociada pela Fapesp, e deve ser anunciada em breve. A outra necessidade é apresentarmos o plano de trabalho para os próximos dez anos para o Conselho Superior da Fapesp, para mantermos o financiamento que será da ordem de R$ 10 milhões ao ano. Nos primeiros dez anos, usamos cerca de R$ 85 milhões. Também acho importante formalizarmos acordo com o governo federal para a concessão de um número maior de bolsas.

Por fim, precisamos começar a replicar a experiência do Biota em outros estados. No último dia 5 de junho foi lançada a primeira etapa do Biota Minas. O mesmo foi feito na Bahia e está acontecendo no Mato Grosso do Sul. O que a gente imagina é que em algum momento seria importante ter uma articulação para integrar essas iniciativas, provavelmente por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia. Temos que começar a organizar as informações para outros estados, que tanto se valerão quanto completarão esses conjuntos de dados.

E também precisamos ter maior inserção internacional. Isso deve ser feito, entre outras medidas, por meio de parcerias e intercâmbios. Queremos receber e enviar pós-graduandos para outros países. Acredito que até agosto o plano esteja aprovado e em andamento. Muito provavelmente vamos fazer chamadas específicas para algumas áreas de pesquisa. É um instrumento que nunca usamos, mas que tem sido empregado com sucesso pela Fapesp. Vamos organizar, ainda, workshops específicos, trazendo pesquisadores estrangeiros. No segundo semestre vamos ter um evento da área de biologia da conservação, que terá como foco os aspectos sociais. Ademais, em dezembro promoveremos um encontro para discutir o uso e os avanços da técnica do DNA Barcoding, para podermos atuar na linha de frente do conhecimento nessa área e contribuir para seu desenvolvimento.