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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Biorrefinaria integrada à ciência

Publicado em 06 agosto 2019

Por Adilson Roberto Gonçalves

Pesquisadores brasileiros e ingleses participam de dois projetos financiados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pela BBSRC (Biotechnology and Biological Sciences Research Council), do Reino Unido. O tema comum é a biorrefinaria: a obtenção de produtos, insumos, combustíveis e materiais a partir de fontes renováveis, em combinação com produções agro-industriais. Esses cientistas fizeram um workshop conjunto em julho na Unicamp sobre os avanços dos projetos e discutir parcerias, gargalos e perspectivas.

Os europeus possuem interesse e focam seus estudos em um tipo de bambu fininho, o miscantus, que é plantado em amplas áreas exclusivamente para ser fonte de biomassa; suas folhas verdes ficam no campo após a colheita, diferente do que já está sendo desenvolvido no Brasil para a cultura da cana, aproveitando-se a palhada, constituída de folhas e partes superiores do colmo não usadas na prensagem para extrair o açúcar. Outro vegetal lá utilizado é a beterraba. A partir dessas biomassas, a desconstrução da parede da célula vegetal é um desafio constante, dependente da combinação de pré-tratamentos energéticos e aplicação de enzimas. Os sistemas ácidos são eficientes, mas levam à formação de contaminantes, aumentando o custo.

A lignina, uma macromolécula localizada entre as fibras de celulose, é um objeto de estudo em ascensão, a partir da qual uma rede de produtos pode ser obtida. Avanços foram apresentados no workshop, por exemplo, o desenvolvimento de sensores que possam detectar produtos e enzimas em quantidades muito pequenas em misturas complexas. Há forte interesse industrial na obtenção dos derivados de coniferol e vanilina (vindos da lignina), de aplicação com maior valor agregado: medicamentos e aromas.

O Brasil possui uma tecnologia consolidada, robusta e superior do etanol de primeira geração, porém são os EUA o líder na produção, mas baseado no amido de milho, muito mais caro. O conceito de biorrefinaria pressupõe o uso de resíduos agro-florestais para substituir moléculas de fontes fósseis. O estágio posterior - já em curso, na verdade - é o de estabelecer novos materiais com propriedades talvez desconhecidas que possam atender demandas nem imaginadas. Desenvolvimento feito prioritariamente nas instituições públicas de ensino e pesquisa, com parcerias ainda incipientes do setor privado. #IniCiencias

O autor é pesquisador da Unesp Rio Claro