Notícia

Agência C&T (MCTI)

Biorreatores: animais produzindo medicamentos

Publicado em 24 maio 2008

Em condições normais, os humanos somos capazes de produzir boa parte das substâncias indispensáveis para o funcionamento do nosso organismo. Nosso pâncreas, por exemplo, produz a insulina, essencial para que as células possam utilizar o açúcar circulante no sangue. Também produzimos proteínas necessárias nos processos de coagulação, denominados fatores de coagulação sanguínea. A lista dessas substâncias é considerável, mas estas duas bastam como exemplo.

Infelizmente, nem sempre as coisas funcionam corretamente. Alguns de nós não produzimos —ou produzimos em quantidade insuficiente- insulina, o que provoca uma doença conhecida como diabetes. Já a não produção de algum dos fatores de coagulação, como o fator IX, leva à hemofilia, uma doença genética que pode provocar no paciente gravíssimas hemorragias.

Assim, a solução tem sido injetar essas substâncias em nosso organismo para suprir as deficiências. No caso da insulina, a partir da década de 1920 os humanos passamos a utilizar aquela extraída do pâncreas de animais abatidos, como gado, peixes e porcos. O problema dessa insulina animal é que ela não é exatamente igual à nossa, pode provocar reações alérgicas, e produzi-la dessa forma gera quantidades insuficientes para atender a demanda mundial. Com isso o preço ficava muito alto e apenas países ricos (ou os cidadãos ricos dos países pobres) tinham acesso. Entretanto, a partir da década de 1980 através de técnicas de DNA recombinante, cientistas conseguiram implantar no DNA de bactérias fragmentos do DNA humano com a "receita" para produzir insulina. Em pouco tempo, os pesquisadores conseguiram criar um estoque de milhões de bactérias trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana, produzindo insulina humana. Hoje, quase toda a insulina disponível para tratamento de diabetes provém dessa fonte transgênica.

É claro que a pesquisa não parou, e criar animais transgênicos denominados biorreatores para produzir proteínas necessárias para suprir deficiências em humanos passou a ser um objetivo extremamente importante. No caso do fator IX de coagulação do sangue, pesquisadores brasileiros estão tentando criar animais transgênicos (inicialmente camundongos, mas agora cabras) capazes de produzir essa proteína humana no leite, de onde ela seria posteriormente extraída e purificada. A técnica mais usada para esse objetivo é a denominada microinjeção pronuclear. Resumidamente, o óvulo fecundado de um desses animais é coletado momentos depois da cópula. Antes que os núcleos do espermatozóide e do óvulo se fundam, é injetado num deles uma solução com cópias de fragmentos de DNA humano com o código para produzir a proteína desejada, neste caso o fator IX, esperando que este fragmento de DNA se funda com o DNA do animal. Este embrião transgênico produzido in vitro é transferido para o útero de uma fêmea procriadora hospedeira, a chamada mãe de aluguel, onde o filhote será gestado.

Parece fácil, mas não é. Inicialmente o índice de acerto era de 1%, ou seja, cada 100 embriões transgênicos implantados, apenas um gerava um animal sadio. Por isso o processo exige muita paciência, tempo e investimento. Mas o resultado compensa. Com a técnica podemos produzir proteínas para tratar diversas doenças, no leite de cabras, vacas e até na clara de ovos de galinha. A Argentina, por exemplo, que está na frente do Brasil nesta área, anunciou em 2004 a criação de uma vaca que produz em seu leite o hormônio do crescimento humano. No ano passado, foi a vez de criar vacas jérsei transgênicas produtoras de insulina humana. Para se ter uma idéia da quantidade de insulina que pode ser obtida dessa forma, de acordo com os pesquisadores um lote de 25 vacas seria suficiente para suprir toda a demanda da Argentina, país com aproximadamente 1,5 milhão de diabéticos.

É claro que há ainda muito trabalho minucioso pela frente até contarmos com esta fonte de proteínas humanas essenciais produzidas a partir de animais. Mas não há dúvida que através de pesquisa científica séria é bem possível sonhar que em breve esses produtos hoje inacessíveis para grandes parcelas da população mundial estarão disponíveis para todos em quantidades e preços adequados..

Nesse sentido, no Brasil a principal ameaça para que consigamos estes objetivos não está precisamente nas dificuldades científicas da empreitada. Se prosperarem no seio da sociedade as ameaças fundamentalistas que demonizam a pesquisa com transgênicos, que impedem a manipulação genética —elevada à condição de pecado capital pelo atual Papa- e proíbem a pesquisa em animais, não haverá como dar continuidade ao trabalho já iniciado e não seremos capazes de produzir essas substâncias, que terão que ser importadas a preço de ouro. O que prova que quando o fundamentalismo se impõe sobre a cultura da ciência, quem perde, mesmo, é a população.

Fonte: Alternativa animal; Pesquisa FAPESP, Ed. 147, maio 2008.