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Agência Grande ABC

Bioprospecção e inovação farmacêutica em debate na FAPESP

Publicado em 23 fevereiro 2010

A inovação farmacêutica tem esbarrado em um dilema: é melhor investir nos inúmeros fármacos já existentes dando-lhes melhor eficácia e diminuindo seus efeitos colaterais, ou investir em novas moléculas visando novos alvos terapêuticos?

Alguns fatores justificam o dilema. A descoberta de fármacos é um processo altamente complexo e dispendioso, que exige esforços integrados envolvendo pesquisa científica multidisciplinar, tecnologias avançadas, P&D e gestão. Quando se trata de medicamentos oriundos da biodiversidade, a complexidade é ainda maior porque isso significa garimpar biomoléculas inovadoras na imensa diversidade química dos inúmeros ecossistemas.

O fato é que muitos fármacos disponíveis para diferentes doenças não as curam efetivamente, apenas tratam seus sintomas. Isso se explica, em parte, porque várias doenças são processos patológicos desencadeados por várias disfunções do sistema biológico, ou seja, é um processo multifatorial e os fármacos geralmente atuam sobre um determinado alvo deste sistema complexo, e não no sistema biológico como um todo.

E no Brasil, apesar de sua enorme biodiversidade, o potencial micro e macromolecular de plantas, microrganismos, insetos, organismos marinhos, entre outros, é ainda pouco explorado como protótipos de fármacos.

Esse contexto estimulou o Programa Biota-FAPESP a realizar o Biota-FAPESP International Workshop on Metabolomics in the Context of Systems Biology: a Rational Approach to Search for Lead Molecules from Nature. Organizado pela equipe do BIOprospecTA, subprograma do Biota-FAPESP dedicado à bioprospecção, o evento será realizado nos dias 25 e 26 de fevereiro, das 9h às 18h, na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Entendimento do sistema biológico pode levar a nova geração de fármacos

O termo System Biology está relacionado ao conhecimento do sistema biológico como um todo (composição química, metabolismo e funções) de tudo o que é vivo. O estudo completo do sistema biológico - a partir da associação das ciências "ômicas", como a genômica, a transcriptômica e a proteômica - está permitindo obter informações mais precisas sobre a engrenagem do funcionamento dos organismos ao nível celular. Segundo Bolzani, isso está levando a indústria farmacêutica a repensar sua estratégia na busca por novos fármacos. Acredita-se que ao desvendar todas as reações da maquinaria metabólica do sistema biológico (c&e acute;lula, tecido, órgão) será possível dar um passo adiante na pesquisa de novos medicamentos.

Via de regra a pesquisa farmacológica é reducionista (pesquisa da eficácia de um determinado fármaco num alvo específico). Uma abordagem em que o protótipo ou fármaco tenha uma ação mais ampla na engrenagem do sistema biológico passa a ter uma visão mais holística. "Partindo dessa premissa, a questão é: isolar uma substância bioativa que atua num único receptor ou pesquisar alvos moleculares (isolados ou não) que podem atuar num sistema complexo, lembrando que várias doenças são na verdade causa multifatorial? Os produtos naturais merecem especial atenção dentro desta abordagem", diz Vanderlan da Silva Bolzani, professora titular do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), presidente d a Sociedade Brasileira de Química e membro da coordenação do BIOprospecTA.

Dentro do novo conceito de bioprospecção da biodiversidade e dos estudos de "sistema biológico", a metabolômica é considerada uma das mais avançadas abordagens de mapeamento quali e quantitativo da constituição química ou metabólica - primária (macromolecular) e secundária (micromolecular) - de uma determinada matriz biológica.

Por essa abordagem é possível fazer uma varredura completa da constituição metabólica numa espécie estudada, seja por meio de métodos de cromatografia de alta eficiência, da espectrometria de massa e da ressonância magnética nuclear, para identificar e quantificar os metabólitos (substâncias naturais).

A metabolômica possibilita a avaliação de centenas de substâncias numa matriz complexa, de uma planta, por exemplo, e possibilita um rastreio das substâncias ativas muitas vezes em um tempo mínimo em laboratórios completamente robotizados.

Robert Verpoorte, do Instituto de Biologia de Leiden, na Holanda vem utilizando a metabolômica no mapeamento de metabólitos secundários de espécies como Catharanthus roseus - que biossintetiza substâncias antitumorais. Para ele, que é o primeiro palestrante do dia 25, a pesquisa baseada no conceito de Systems Biology irá revolucionar o desenvolvimento de medicamentos nos próximos anos, contribuindo para a descoberta de novas drogas e novos alvos terapêuticos.

Pesquisa científica multidisciplinar e colaborativa

Além de reunir químicos, biólogos, farmacêuticos e farmacólogos do Brasil, Estados Unidos e Suíça em torno do que há de mais avançado em pesquisas de bioprospecção, um dos objetivos do workshop é conscientizar a comunidade científica brasileira sobre a importância da pesquisa colaborativa como estratégia para obtenção de protótipos não apenas de medicamentos, mas também de cosméticos, agroquímicos e suplementos alimentares.

Macrotemas dos quatro simpósios

O workshop será dividido em quatro simpósios. No dia 25 de fevereiro, das 9h às 12h30, o simpósio Metabolomics and Systems Biology as a tool for New Drugs Discovery abordará as possibilidades de descoberta de novos fármacos criadas pelo uso da metabolômica no melhor entendimento do "sistema biológico". No mesmo dia, das 14h às 18h, durante o simpósio Plants and Associate Microorganisms as Potential source of New Biologically Active Molecules serão apresentados os resultados de pesquisas com diferentes matrizes (plantas, insetos, microrganismos e organismos marinhos) na busca de novas moléculas biologicamente ativas, com enfâse para pesquisas rea lizadas no estado de São Paulo.

No dia 26, das 9h às 12h30, o terceiro simpósio New Advance Methodology for the Search Drug Discovery reunirá especialistas que desenvolveram ou experimentaram novas tecnologias na análise de moléculas visando descoberta de novos protótipos. No período das 14h às 17h30, especialistas discutirão sobre farmacologia e toxicologia, áreas essenciais para se colocar um produto farmacêutico no mercado e sobre novas possibilidades durante o último simpósio New Approach to Screening Biodiversity Source Materials and New Trends in Pharmacology and Toxicology to Select New Targets.

 

Biota-FAPESP International Workshop on Metabolomics in the Context of Systems Biology: a Rational Approach to Search for Lead Molecules from Nature; 25 e 26/2/2010 (quinta e sexta-feira), das 9h às 18h; FAPESP: Rua Pio XI, 1.500, Alto da Lapa, São Paulo.