Notícia

Pequenas Empresas & Grandes Negócios

Biomilionários

Publicado em 20 dezembro 2010

Por Capa/Inovação

Os mineiros José Maciel Rodrigues Júnior, 44 anos, e Karla de Melo Lima, 37, são cientistas de primeira linha. Ambos são formados em farmácia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e cumpriram, cada um a seu modo, trajetórias acadêmicas notáveis. Maciel, como é mais conhecido, é doutor pela Universidade de Paris XI e concluiu o pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Karla, por sua vez, obteve os graus de doutora e pós-doutora na USP, com parte dos créditos obtidos em uma instituição alemã. Seria muito mais fácil vê-los, portanto, em uma publicação científica do que em uma revista voltada para o empreendedorismo. O que os traz às páginas de Pequenas Empresas & Grandes Negócios é o desempenho, não menos notável, da companhia de biotecnologia fundada por eles em 2003, a Nanocore. "Nosso objetivo sempre foi mostrar que um centro privado de pesquisa é viável e rentável no Brasil. Trabalhamos na fronteira do conhecimento", diz Maciel. A prova está na curva de faturamento da Nanocore, que cresceu quase dez vezes entre 2006 e 2010, para R$ 5,3 milhões, e que pretende repetir a façanha na próxima meia década. "A expectativa é chegar a R$ 50 milhões em 2015", afirma Maciel.

Instalada em Campinas (SP), a empresa tem como clientes os principais laboratórios farmacêuticos do país, para os quais pesquisa novas moléculas (que são a base de qualquer medicamento), presta serviços de análise, realiza estudos clínicos e cria e gerencia processos produtivos sob encomenda. A partir do início do ano que vem, a Nanocore vai começar a produzir biomoléculas, que são geneticamente modificadas e não produzidas a partir de síntese, como ocorre normalmente. Para ter essa capacidade, a Nanocore investiu R$ 6 milhões numa biofábrica, que está em fase final de montagem. "Será a primeira do Brasil, o que nos dá uma vantagem de dois a três anos em relação à concorrência", diz Karla. O processo de produção dessas biomoléculas é tão caro e complexo que um grama da substância chega a custar US$ 400 mil. Esse material é usado pelos laboratórios para chegar a novas formulações de medicamentos ou para preparar similares de remédios consagrados que estejam com a patente expirada - nesse último caso, são chamados de biossimilares ou de biogenéricos.

Curiosamente, a empresa nasceu após um episódio que mostrou as dificuldades que os pesquisadores brasileiros têm para fazer a transição do universo acadêmico para a iniciativa privada. Na virada para esta década, Karla fez uma pesquisa que resultou em uma potencial vacina para a tuberculose. O trabalho foi orientado por Maciel, que era então professor da UFMG. A dupla de pesquisadores, que logo depois se tornaria um casal, tentou obter a patente do medicamento, sem sucesso. Havia até um laboratório interessado em investir na nova molécula, mas a legislação exigia que se fizesse uma licitação para a transferência do direito. "Nos países desenvolvidos, os pesquisadores são estimulados a empreender", diz Maciel. "No Brasil, tem muito dinheiro público e pouco resultado." Para tentar minimizar o problema, Maciel coordenou, na UFMG, um projeto dedicado a abrir caminhos jurídicos para que o produto do trabalho dos pesquisadores locais possa ser explorado com mais facilidade pela iniciativa privada.

DIAGNÓSTICO

Maciel e Karla deixaram para trás o desenvolvimento da possível vacina da tuberculose, mas não desistiram de empreender. A experiência, mesmo que malsucedida, lhes mostrou que existiam gargalos e lacunas no mercado brasileiro de pesquisa farmacêutica que poderiam ser preenchidas por eles. Um dos gargalos era a ausência de produtores locais de substâncias biológicas, as mesmas que eles vão passar a produzir em breve na biofábrica. Outro diagnóstico elaborado à época pela dupla foi a falta de laboratórios que fizessem o meio de campo entre o universo acadêmico e os grandes laboratórios. No final de 2001, Maciel pediu demissão da UFMG (onde lecionava e pesquisava desde 1996) e começou a preparar o lançamento da Nanocore. Em 2003, a empresa finalmente entrou em estado de pré-incubação no campus da USP de Ribeirão Preto - onde Karla estava fazendo o doutorado sob a orientação de Célio Lopes da Silva (terceiro fundador da empresa, que deixou a sociedade logo depois). Os R$ 2 milhões necessários para o início da operação vieram de linhas de fomento de instituições como o Banco do Brasil, o CNPq e a Fapesp.

A Nanocore permaneceu em Ribeirão Preto, onde ocupava um espaço de 50 metros quadrados dentro da incubadora Supera, até 2006. Tinha como clientes cativos dois laboratórios nacionais, mas não havia condições de atender a demandas mais específicas. Para obter os certificados necessários e, com isso, aumentar o rol de serviços, a companhia mudou-se para uma área de 400 metros quadrados, às margens da rodovia Anhanguera, em Campinas, onde está até hoje. Ainda em 2006, a Nanocore foi licenciada pelo Ministério da Agricultura para participar da produção de medicamentos veterinários. A resposta do mercado foi imediata: a chegada de cerca de 30 novos clientes fez o faturamento triplicar já no ano seguinte. Novas certificações, obtidas a partir de 2009, abriram a possibilidade de trabalhar com medicamentos para humanos e ajudaram a sustentar o crescimento da empresa.

Em 2007, a Nanocore ganhou um sócio de peso, quando o BNDESpar (o braço de participações do BNDES) assumiu um terço da companhia (o casal de fundadores manteve 66,6% do capital). No final de 2007, a empresa já ocupava mil metros quadrados e contava com 15 funcionários (hoje são 1,8 mil m2 de área ocupada e 42 empregados, mas outros dez serão contratados para operar a nova bioplanta). A entrada do BNDESpar na sociedade trouxe, além de capital, auxílio na gestão. Várias práticas de governança foram adotadas a partir de então. Maciel é hoje o presidente executivo da empresa, mas está em busca de um profissional que assuma a função. "Não me sinto confortável nessa posição. Prefiro me dedicar à área técnica", diz. Afinal, foi do trabalho em laboratório que surgiu o negócio milionário.