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Correio Popular

Biomassa já é 27% da matriz energética

Publicado em 27 junho 2004

Por Tatiana Favaro - tfavaro@rac.com.br
Biomassa é toda matéria orgânica que pode ser utilizada na produção de energia. É uma forma indireta de energia solar, uma vez que resulta da conversão de energia solar em energia química, por meio da fotossíntese. E deixou de ser, uma "alternativa" ao representar quase 30% da matriz energética brasileira. "Já é uma fonte convencional", afirma o professor Luís Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp. Só na universidade, há cerca de 30 projetos sobre o uso da biomassa para fins energéticos - nas áreas química, elétrica, térmica e de equipamentos. Um dos principais estudos é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e desenvolvido em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que também possui pesquisas nesse sentido. O projeto temático "Geração de energia elétrica a partir de biomassa de cana-de-açúcar" é coordenado pelo professor Isaías Macedo, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp (Nipe). Em oito subprojetos, os estudos abordam a produção de eletricidade em larga escala a partir de subprodutos da cana no Estado de São Paulo; o planejamento e programação da operação de sistemas de energia elétrica; a análise termodinâmica para aperfeiçoar utilidades do complexo álcool-açúcar no setor elétrico; a colheita e condicionamento da palha da cana para queima em caldeiras; o desenvolvimento de melhores secadores de bagaço para aumentar a geração de energia nas usinas; o uso do etanol da cana-de-açúcar em sistemas de geração de energia elétrica; os impactos econômicos e possibilidades da ampliação em larga escala da oferta de energia a partir da biomassa de cana em São Paulo; e os aspectos do ciclo produtivo. O projeto inclui a avaliação de impactos sociais, ambientais e econômicos decorrentes do aumento do uso energético da biomassa da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo. A iniciativa envolve pesquisadores, técnicos, professores e alunos do Nipe e do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, por meio do Centro Nacional de Referência em Biomassa (http://www.cenbio.org.br). Aproveitamento Estima-se a existência de 2 trilhões de toneladas de biomassa no globo terrestre. Segundo dados do Balanço Energético Nacional (edição 2003), a participação da biomassa na matriz energética brasileira é de 27% - incluindo lenha e carvão vegetal (11,9%), bagaço de cana-de-açúcar (12,6%) e outros (2,5%). De acordo com o professor Cortez, a tendência é esse índice crescer cada vez mais? "O Brasil tem muita terra. As culturas energéticas podem ocupar mais 50 milhões de hectares, pelo menos, que ainda vai sobrar muita terra", diz. "Mas é um processo, porque alguém já disse aos usineiros de açúcar, um dia, que eles teriam que produzir álcool. Agora, estão dizendo que eles têm de produzir energia; Isso significa mudança e para ser incorporada, leva um tempo." . Segundo dados da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo, só a cana-de-açúcar move 307 centrais energéticas existentes no Brasil, 128 das quais estão em São Paulo, utilizando cana que cobre 2,35 milhões de hectares de terra. São usinas e destilarias que processam a biomassa proveniente da cana e produzem açúcar como alimento, energia elétrica da queima do bagaço nas caldeiras, álcool hidratado para movimentar veículos e álcool anidro para melhorar o desempenho energético e ambiental da gasolina. O bagaço tem sido o principal resíduo aproveitado da biomassa do canavial, principalmente porque está disponível espontaneamente ao lado da caldeira na indústria. Mas a palha da cana tem se mostrado uma fonte considerável de energia. "Depois de promulgada a lei estadual que prevê o fim gradativo das queimadas da palha nos canaviais nos próximos 20 anos, o sub-/ produto vem ganhando força e vai passar a ser usado na produção de energia", observa o professor Arnaldo Walter, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp. Experimentos O principal modo de aproveitamento da biomassa ainda é por meio da combustão da matéria orgânica em fornos ou caldeiras. Ela é muito usada na geração de eletricidade, principalmente em sistemas de co-geração como os das usinas sucroalcooleiras e no suprimento de eletricidade de comunidades isoladas da rede elétrica. Na Incubadora de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp), por exemplo, está instalada a Bioware, empresa detentora de uma tecnologia capaz de aproveitar 100% da matéria-prima, transformando não só^resíduos agrícolas, mas também gases, ácido e pó de carvão vegetal em produtos comerciais. O bio-óleo é um deles. Combustível de origem vegetal, é capaz de substituir o diesel, garante Edgardo Olivares Gomes, um dos sócios da empresa. Ao processo de produção desse bio-óleo dá-se o nome técnico de pirólise rápida com tecnologia de leito fluidizado borbulhante. Matérias-primas como o bagaço da cana-de-açúcar, a serragem da madeira e resíduos da agricultura (cascas de árvores, de arroz, de café e até capim) são processadas em circuito fechado de combustão. Ali, são queimadas e degradadas e se transformam em vapor. Como numa usina de cana-de-açúcar: onde os resíduos da cana são queimados em caldeiras, produzindo vapor. Parte desse vapor é usada na produção de açúcar. A outra, vai para uma máquina, que transforma a energia térmica em energia mecânica e, por meio de um gerador acoplado ao equipamento, produz energia elétrica. Por meio da pirólise é possível obter 70 % de bio-óleo, 20 % de pó de carvão e 10% de gases, que vão alimentar as caldeiras das usinas de cana, por exemplo.