Notícia

Jornal da Unicamp

Biólogos elaboram diagnóstico de organismos vivos

Publicado em 01 abril 1999

Um diagnóstico inédito de todos os grupos de organismos vivos conhecidos no Estado de São Paulo promete dar novos rumos à política de conservação e uso sustentável da biodiversidade paulista. Um balanço do conhecimento acumulado ao longo de quase 500 anos sobre vertebrados, invertebrados de água doce, marinhos e terrestres, microrganismos, algas, plantas criptógamas (sem flores, como musgos e samambaias) e fanerógamas (com flores) está na obra Biodiversidade do Estado de São Paulo. Brasil: Síntese do Conhecimento ao Final do Século XX, organizada pelos professores Carlos Alfredo Joly, do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia, Unicamp, e Carlos Eduardo de M. Bicudo, do Instituto de Botânica de São Paulo. Financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo á Pesquisa do Estado de São Paulo) e elaborada por mais de 100 pesquisadores de todo o Estado, a publicação está dividida em sete volumes. Ao todo, são mais de mil páginas descrevendo o conhecimento atual das espécies paulistas. "Esse projeto reflete o esforço da comunidade de pesquisadores do Estado em dar um primeiro passo para a implantação de um programa de pesquisa voltado para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade", explica o coordenador do projeto, professor Joly, que é também diretor do Jardim Botânico "Professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho", da Unicamp. Para reunir e sistematizar os dados apresentados na publicação, pesquisadores paulistas de diversas instituições trabalharam durante os últimos dois anos. Além de um quadro geral do nível atual de conhecimento sobre a biota paulista, o trabalho traça um perfil da infra-estrutura de conservação "in situ" do Estado - como parques, reservas biológicas e estações ecológicas onde as espécies estão integradas ao ecossistema - e "ex situ", locais em que amostras das espécies são retiradas de seu ambiente natural para análise. Exemplos disso são os museus, zoológicos, herbários, bancos de germoplasma e coleções de cultura. A qualidade das informações coletadas estimulou o grupo a publicar a série, composta de sete volumes independentes, mas que se complementam. Assim, de acordo com o professor Joly, cada pesquisador ou estudante poderá utilizar os livros da forma que lhe parecer mais conveniente. "Não é nenhum exagero afirmar que o resultado final é uma obra impar, já que não há no mundo nada similar em termos de abrangência taxonômica e geográfica", garante. Continuidade - O sucesso do empreendimento foi tão grande que no dia 25 de março a Fapesp lançou oficialmente o "Biota-Fapesp: o Instituto Virtual da Biodiversidade", um programa especial de pesquisas em conservação e uso sustentável da biodiversidade do Estado de São Paulo. A partir de agora os pesquisadores do Estado passam do diagnóstico para uma nova etapa de projetos que pretende preencher importantes lacunas do conhecimento e realizar sínteses integrando diferentes componentes da biodiversidade visando à sua aplicação prática. "Pretendemos não só dar continuidade à importante tarefa de descrever e catalogar espécies como também desenvolver projetos de pesquisa que incorporem aspectos estruturais e funcionais da biodiversidade, como a distribuição espacial e temporal dos organismos e as relações entre seus componentes nos diversos níveis organizacionais. O programa deve também incorporar a valorização da biodiversidade, tentando estabelecer um vínculo entre os serviços e produtos da diversidade biológica e os sistemas produtivos", observa Joly. Segundo o professor, várias tentativas anteriores de iniciar um programa desta abrangência não tiveram êxito devido ao distanciamento entre os órgãos que as propunham ou administravam e os pesquisadores cujo conhecimento científico e técnico é essencial para sua realização. "Pela primeira vez um projeto dessa natureza foi elaborado pela comunidade científica em conjunto com uma agência de fomento á pesquisa, a Fapesp, e com um órgão público, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Assim, temos a certeza de que estamos atendendo tanto aos interesses dos pesquisadores como dando subsídios para o trabalho empreendido pelos órgãos responsáveis pela tomada de decisão para o manejo e regulamentação de uso e conservação de recursos naturais", conclui Joly. (M.T.S.) Vendas pela Internet Os livros estão sendo vendidos a preço de custo e somente pela Internet. Os interessados poderão adquiri-los por meio do endereço: www.bdt.org.br/bdt/biotasp/livros. Os recursos obtidos com a venda serão utilizados para financiar a disponibilização eletrônica de todos os volumes que compõem a série. Risco de extinção é presente A cena é comum em lojas de souvenirs e artesanatos de estâncias turísticas. Entusiasmados com a beleza da flora e fauna brasileiras, turistas não hesitam em adquirir pratos, quadros, copos e toda sorte de quinquilharias decoradas com asas de borboletas como lembrança de sua passagem pelo Brasil. Como existe demanda, a caça às borboletas continua sendo feita de forma indiscriminada. Assim como as borboletas, muitas outras espécies correm o risco de um dia desaparecer pela prática constante do extrativismo. "A falta de dados sobre animais e plantas que compõem a flora e a fauna de cada estado brasileiro contribui para que o homem retire da natureza aquilo de que necessita sem qualquer preocupação com o manejo e a reposição das espécies", adverte Carlos Alfredo Joly. Para inverter este quadro, os pesquisadores consideram essencial que se conheça detalhadamente a biologia das espécies e, para isso, a série "Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX" representa uma importante contribuição. Com os dados em mãos, medidas podem ser adotadas para evitar o desequilíbrio dos ecossistemas e a extinção das espécies sem que haja necessidade de o homem deixar de utilizar os recursos que a natureza lhe oferece.