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A Cidade (Ribeirão Preto)

Biólogo descobre 15 novas espécies de peixes na região

Publicado em 26 outubro 2008

Ele dá nome às espécies e se preocupa com a ecologia dos peixes de riacho, onde vivem mais da metade dos peixes de água doce da América do Sul. Há mais de 30 anos o biólogo Ricardo Macedo Correa e Castro, da USP de Ribeirão Preto, entra no meio do mato para estudar o meio ambiente e acredita que a causa da preservação do planeta ganha adeptos a cada dia: entre 1998 e 2003, por exemplo, durante a realização do projeto bancado pelo Programa Biota/Fapesp – com o objetivo principal de inventariar e caracterizar a biodiversidade do Estado de São Paulo, definindo os mecanismos para sua conservação, potencial econômico e sua utilização sustentável - nem ele, nem sua equipe, foram mal recebidos nas centenas de propriedades agrícolas que teve de percorrer.

Nesse trabalho inédito, realizado em 65 riachos do Interior do Estado, 15 novas espécies de peixes foram descobertas. E parte delas ainda está em processo de análise. Além disso, o pesquisador - que é docente e orientador dos programas de pós-graduação em Biologia Comparada da Faculdade de Filosofia de Ribeirão Preto, da USP e em Zoologia, do Instituto de Biociência da Unesp, campus de Botucatu - está empenhado também em novo projeto para determinar as características básicas da família characydae, especialmente as relações entre 12 subfamílias que ninguém conhece direito.

- A gente não sabe as relações de parentesco dentro dessa família. Nem exatamente onde começa, nem onde termina characydae. Estamos tentando definir as características básicas, uma classificação que vai ajudar a organização biológica, já que a família é responsável por 21% da diversidade de peixes da América do Sul – explica Castro.

Recebido à bala

O biólogo, que está com 53 anos e é professor da USP há 27, lembra que quando começou a fazer pesquisas de campo, “era recebido à bala pelos proprietários da terra.” Já nesse projeto, iniciado no final do último século e encerrado em 2003, nem ele ou qualquer integrante da equipe foram mal recebidos.

- Entrávamos em caravana nas áreas com assentados do Incra, de multinacionais, falamos com gerentes com PHD e pessoal simples. Percebi uma mudança da população com relação à questão ambiental: quando por qualquer razão não podíamos trabalhar na área, o pessoal lamentava e ainda oferecia lanches para a equipe.Ricardo Castro atribui essa mudança da população ao trabalho da mídia que, segundo ele, encampou a idéia num sentido amplo e também ao empenho dos educadores e das autoridades.

- Nunca mais vi matar passarinho no bairro de Monte Alegre, onde moro, o que era comum quando a gente era criança.

Ambiente x sobrevivência

Castro admite que essa consciência com os problemas tende a aumentar. Mas se as pessoas tiverem de escolher entre a própria sobrevivência e a do ambiente, por legítima defesa, penderão para a sobrevivência.

- A área de produção de alimento é finita e sempre existem mais pessoas. Alguém terá deixar de comer – raciocina friamente.

O crescimento desacelerado da população brasileira - com uma taxa de fecundidade que não dá nem para repor os habitantes atuais – é para ele um fato “esperançoso”.

- Não será possível conservar o meio ambiente com a população crescendo explosivamente - adverte.

Inesperado tem peso maior na evolução, diz especialista

Ricardo Correa e Castro lembra que para os biólogos a evolução é uma combinação do acaso com a necessidade de sobrevivência e principalmente de reprodução.

- Mas não há a menor dúvida que o papel acaso, aos olhos da Biologia atualmente, é muito maior na evolução do que se supunha anteriormente. O exemplo dos dinossauros para ele é simbólico. Eles dominaram o planeta durante mais de 160 milhões de anos. Há 65 milhões de anos, conta, tudo indica que um meteorito acertou o planeta e criou o que hoje se chama de mar do Caribe.

- O que aconteceu foi uma catástrofe planetária; a atmosfera ficou escura com a poeira, não havia mais luz do sol sobre a terra e a produção de alimentos quase terminou. Os dinossauros que eram grandes e ocupavam posições de topo nos ecossistemas, morreram.

Castro acredita que os mamíferos, mais velhos que os dinossauros, sobreviveram porque eram pequenos e viviam em buracos. Foram esses mamíferos, segundo o biólogo, que deram origem a toda essa diversidade, da qual fazemos parte.

- Tudo porque os dinossauros, da forma que eram, desapareceram da terra.

Jogo de dados

Para ele, diante desse quadro, não se pode falar em evolução ou adaptação.

- Isso é como um jogo de dados, uma roleta. Se essa pedra tivesse passado raspando, como já passaram várias, os mamíferos não teriam evoluído como ocorreu e, com certeza, a gente não estaria tendo essa conversa aqui. A história do planeta é cheia disso: na maior parte das vezes, talvez, uma espécie se extingue, não porque é menos adaptada, é azar. Ricardo Castro acredita que se pudesse retroceder o “filme” da evolução para começar de novo, nunca seria igual.

- Isso torna especialmente trágicas as extinções. Uma espécie contém na informação e em tudo o que ela é, não só o processo evolutivo de seleção natural – de incontáveis gerações que a antecederam – mas também o acaso. Acho que o ser humano, como tudo que é vivo, não tem nenhuma razão especial para existir. A nossa razão especial é a mesma do vento para ventar, da água para fluir, a gente é um fenômeno do universo.

O biólogo lembra que a nossa espécie, sozinha, captura 40% de toda a energia do sol que cai sobre a terra firme, usada nos ecossistemas para produzir alimentos.

Ricardo Castro lembra que do ponto da Biologia, o ser humano é um peixe que se transformou profundamente para viver fora d’água.

- Literalmente. Não existe solução de continuidade. Nosso planeta é ocupado por dois grandes grupos de vertebrados, um totalmente transformado para viver em terra (anfíbios, aves, répteis e mamíferos) e o outro, os peixes que conhecemos. Para quem é biólogo, todo vertebrado é peixe. Apesar disso, Castro admite a necessidade humana de transcendência.

- Existe alguma coisa no nosso sistema nervoso que necessita transcendência, eu como qualquer um, fico tocado, procuro um divino, só que eu acho que o divino não está fora, mas dentro de cada um. E não é no sentido sobrenatural, no sentido de ser sobrenaturalmente humano, mas isso não tem nada a ver com o peixe...

Riachos concentram fauna de água doce

A fauna de peixes de água doce da América do Sul é a mais rica do planeta, com pelo menos 6 mil espécies conhecidas. Os ictiólogos – estudantes dos peixes – estimam em 8 mil, depois de totalmente estudada.

Ricardo Correa e Castro lembra que a maior parte dessa riqueza está no Brasil, na Bacia Amazônica, que é a menos investigada.

- Mais da metade das espécies de peixes da América do Sul – que tem um quarto da diversidade de peixes de água doce do planeta – vive em pequenos riachos, revela.

Conta que com base nessa percepção fez parte de um grupo do projeto BIOTA-SP, liderado por Carlos Alfredo Joly, da Unicamp, para montar um programa de conhecimento, conservação e uso sustentável da biodiversidade do Estado.

Os resultados permitiram que os pesquisadores publicassem uma coleção de livros sobre a realidade biológica do Estado em todas as áreas. Castro foi o coordenador e editor do volume seis, referente aos vertebrados, junto com o pesquisador de São Paulo, Naércio Menezes.

- O que a gente percebeu é que a parte do Estado menos conhecida e explorada, em termos de peixes, era o Interior. E que em termos de conservação, os ambientes dos riachos eram prioritários.

Ao contrário das espécies que são grandes nadadoras – como os corimbas, piracanjubas, dourados, pintados, que vivem nas calhas dos rios Mogi e Pardo – as espécies pequenas vivem em riachos.

O fato de ficarem naturalmente isoladas, segundo o biólogo, faz com que se separem e se diferenciem.

- Ao mesmo tempo, esses ambientes de riachos são frágeis, já que sobrou menos de 9% da vegetação original do Estado, com a maior parte na Serra do Mar. O Interior era coberto de cerrado ou mata, como a de Sta. Tereza – lembra.

Alimentação vem da floresta

Espécies de riacho se movimentam menos, pois ele é fechado pela mata. A luz só entra ao meio-dia e por causa disso, não existe produção primária.

- Toda a comida dos animais são as plantas que produzem. A água corrente arrasta o plâncton, toda comida que movimenta aquele ecossistema do riacho vem da floresta. São galhos, insetos. A maçaroca de folhas é a base de alimentação, além de servir de abrigo, lugar de reprodução - observou o biólogo, que lamenta as conseqüências provocadas pela devastação da floresta.

- O sol começa a bater direto. O local recebe enxurrada da chuva, areia, lama, uma catástrofe!

Retratos instantâneos dos rios

O estudo, que já analisou 65 riachos, com a descoberta de várias espécies novas, não acabou. Foram feitos retratos instantâneos dessa realidade, publicados em três grandes trabalhos.

- Em cada trecho de riacho a gente media, tirava todos os peixes que estavam ali, levantava as condições físico-químicas, descrevia a vegetação, mostrando também quantas espécies; quais eram; quantos indivíduos cada espécie tinha, qual era o tamanho e massa total desses indivíduos. Criamos retratos instantâneos - só que biológicos e ecológicos - como se tirássemos uma foto.

Ricardo Castro diz que a finalidade é descrever “o agora, para que alguém daqui 40 a 50 anos possa comparar. Se não tiver restado nada, pode se tentar refazer essa realidade com base nos dados de hoje.”

O biólogo acredita que cumpriu seu papel ao participar do estudo dessas áreas e lembra que não existe nenhum outro local da América do Sul tão estudado como o Estado de São Paulo.

- Pela simples razão que aqui tem o maior número de pesquisadores de universidades. E dentro do Estado, a região do Mogi e do Pardo é a mais estudada.