Notícia

Jornal da Unesp

Biologia Molecular

Publicado em 01 janeiro 2007

Por Genira Chagas

Substância atualmente testada em seres humanos impede o processo de necrose que ocorre na área picada; equipe que desenvolveu produto também estuda fármacos contra trombose e câncer

Uma droga desenvolvida a partir de pesquisas realizadas no campus de São José do Rio Preto pode se tornar uma nova alternativa de combate aos efeitos do veneno de serpentes como a cascavel e a jararaca. Esse fármaco foi produzido por meio de alterações na molécula do polietilenoglicol, tradicionalmente usado como laxante e componente de produtos de higiene, como cremes dentais. O produto obtido dessa mudança evita o processo de necrose que ocorre na região da picada, causado pela enzima fosfolipase A2, presente no veneno dessas serpentes. Atualmente, as pessoas atacadas são tratadas com soro antiofídico, que é eficaz para impedir que a vítima morra, mas não elimina a ocorrência da necrose, ou seja, a morte dos tecidos próximos da área picada.
A substância atualmente está em fase de testes em seres humanos. "No futuro, a droga poderá ser um importante complemento terapêutico ao soro antiofídico", prevê o físico Raghuvir Krishnaswamy Arni, coordenador do Grupo de Cristalografia de Macromoléculas, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce). Arni liderou os trabalhos que elucidaram o funcionamento da molécula da fosfolipase A2, o que permitiu fazer as mudanças adequadas no polietilenoglicol para anular o efeito dessa enzima. (Leia matéria "Cristalografia ajuda a desvendar ação das proteinas".)

Tratamento de tromboses
Outra linha de pesquisa da equipe volta-se para a produção de fármacos com menos efeitos indesejáveis no tratamento de tromboses e outras enfermidades cardiovasculares. Com esse objetivo, Mário Tyago Murakami, um dos onze membros do grupo, está analisando a estrutura de uma proteína produzida pelo verme que provoca o amarelão, um hematófago do gênero Ancylostoma. O verme causa anemia aguda, pois as proteínas presentes em sua saliva impedem a coagulação do sangue. "Atualmente, o remédio mais utilizado contra distúrbios cardiovasculares, além de inibir a proteína-alvo, também bloqueia outras não previstas, causando efeitos colaterais como as hemorragias", observa Murakami.
Segundo Arni, em colaboração com o laboratório suíço Pentapharma, fármacos planejados com base nessa proteína anticoagulante produzida pelo verme estão sendo testados clinicamente. "Os resultados obtidos por nosso grupo dão as informações essenciais, em nível molecular, para desenvolver medicamentos precisos para a prevenção ou cura de males cardiovasculares", destaca.
Por esse trabalho, Murakami conquistou, em 2006, o X Prêmio Jovem Talento em Ciências da Vida, promovido pela Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq) e GE HealthCare. "Indústrias farmacêuticas de todo o mundo investem cerca de 15 bilhões de dólares por ano para obter drogas terapêuticas contra essas doenças", assinala Arni.

União de esforços
Essas duas pesquisas do grupo são realizadas em colaboração com o CAT (Centro de Toxinologia Aplicada) do Instituto Butantan, em São Paulo, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) criados em 2000 pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Além da UNESP, outras instituições, como a USP, integram o CAT/Cepid, que estuda biomoléculas com aplicação farmacológica ou clínica. No estudo do polietilenoglicol, os testes são feitos também em colaboração com o professor Paulo Melo, do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A equipe de Rio Preto estuda, ainda, o potencial da angiostatina no combate a células cancerígenas. A angiostatina é uma proteína envolvida na inibição do desenvolvimento de vasos sangüíneos que transportam nutrientes para as células, inclusive as tumorais. "A droga resultante das pesquisas em andamento poderá inibir os vasos que alimentam os tumores, matando-os de fome", esclarece.
Após quatro anos de colaboração com um grupo de cristalógrafos da Universidade de Michigan (EUA), Arni conseguiu determinar a estrutura tridimensional da angiostatina. O próximo passo será delimitar a parte específica da proteína que opera no mecanismo do crescimento dos vasos sangüíneos, para, a partir daí, propor um modelo de "chave" para o bloqueio desse processo.