Notícia

JC e-mail

Bióloga que inspirou processo no STF fraudou dados em currículo

Publicado em 04 julho 2007

Lilian Piñero Eça dizia ter bolsa da Fapesp e trabalhar na Unifesp, mas instituições negam


Herton Escobar escreve para "O Estado de SP":


A bióloga molecular que inspirou o ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles a entrar com uma ação de inconstitucionalidade (Adin) contra as pesquisas com células-tronco embrionárias (CTEs) no país não possui vínculo oficial com a Universidade Federal de SP (Unifesp), instituição da qual se dizia pesquisadora.

Lilian Piñero Marcolin Eça é uma das principais opositoras dos estudos com embriões humanos e foi, inclusive, uma das "especialistas" convocadas pela Procuradoria-Geral da República para depor sobre o assunto em audiência do Supremo Tribunal Federal (STF) em abril.

Em seu currículo da Plataforma Lattes, indexado ao banco de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Lilian afirmava ser pós-doutoranda da Unifesp, com bolsa da Fapesp. Segundo apurou o Estado, porém, nem a universidade nem a Fapesp têm registro da cientista.

A pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Unifesp informou que Lilian não está matriculada na instituição. Ela completou um doutorado em Ciências Biológicas em 2004, mas desde então não possui vínculo profissional ou acadêmico com a universidade - apesar de ainda colaborar com professores da instituição. A Fapesp informou que nunca concedeu bolsa a Lilian.

Alterações

Várias informações do currículo foram apagadas ou alteradas na segunda-feira à tarde, menos de duas horas após Lilian ser procurada pelo Estado.

O currículo Lattes é a principal referência profissional para cientistas no Brasil, obrigatório para a obtenção de bolsas, financiamentos e participação em editais do CNPq e outras agências de fomento.

Freqüentemente citada na mídia e convidada a participar de debates sobre pesquisas com células-tronco embrionárias, Lilian tinha o nome da Unifesp como referência.

Até anteontem, seu currículo listava o Departamento de Biofísica da universidade como "endereço profissional", apesar de o telefone e o site incluídos como contato serem de uma instituição chamada Centro de Atualização em Saúde.

Na segunda-feira, após Lilian ser contatada pela reportagem, seu endereço profissional foi alterado para "Instituto de Ciências Avançadas de Otorrinolaringologia, INLAR-Instituto da Laringe", na Vila Clementino.

Ontem, o currículo foi mais uma vez alterado, citando apenas o INLAR. "Às vezes as coisas mudam e a gente não tem tempo de fazer as modificações", disse, em uma segunda entrevista. "Não tenho nenhum vínculo com a universidade", confirmou.

O título de pós-doutorado na Unifesp em 2007 foi mantido, apesar de Lilian não estar matriculada na universidade. A referência como bolsista da Fapesp foi apagada.

Lilian disse que não sabia como a referência apareceu em seu currículo. "Nunca estive na Fapesp", disse. "Sou bolsista da Universidade do Sagrado Coração (USC, uma instituição de Bauru, no interior paulista)." Segundo ela, a referência pode ter sido feita em associação a um projeto da Fapesp no qual ela colabora com pesquisadores da Unifesp.

"Alguma coisa aconteceu que deve ser relacionada a esse projeto", justificou. "Estou averiguando."

Cada currículo Lattes é protegido por uma senha individual. Até segunda-feira, o currículo de Lilian constava como "certificado pelo autor" em duas datas: 19 e 26 de junho.

Novo instituto

O e-mail que era listado como contato foi alterado de "lilian@biofis.epm.br" (um endereço do Departamento de Biofísica da Unifesp) para "lilian@ipctron.com.br". A sigla refere-se ao Instituto de Pesquisas de Células-Tronco (IPCTRON), do qual Lilian se apresenta como sócia-fundadora e presidente.

O Estado tentou visitar a "sede laboratorial" do instituto, na Avenida Ceci, no Planalto Paulista. Encontrou uma residência amarela, sem qualquer tipo de identificação.

Uma mulher que atendeu o interfone disse que a frente da casa era uma "clínica de estética e cirurgia plástica", chamada Michelângelo, e que as instalações do IPCTRON ficavam "no fundo", mas estavam em reforma, e por isso não poderiam ser visitadas.

A atendente disse que não estava autorizada a fornecer os nomes dos médicos responsáveis pela clínica.

O instituto foi criado por Paulo Polido, um piloto de rali que sofreu um acidente medular em 1998. Ele passou por um transplante de células-tronco adultas em 2002, no Hospital das Clínicas de SP, e, empolgado com os resultados, resolveu criar um laboratório para tentar avanços nas pesquisas.

Polido disse que conheceu Lilian por acaso, em um evento, e a convidou para tocar o projeto. Segundo ele, o IPCTRON foi registrado no cartório de Cotia (onde mora), mas ainda não tem CNPJ. "Estamos só começando", disse.

'Fui procurador da República e não tenho doutorado'

A ação direta de inconstitucionalidade contra a liberação das pesquisas com células-tronco de embriões humanos foi protocolada pelo então procurador-geral da República Claudio Fonteles em 30 de maio de 2005. Na ocasião, ele citou entrevista de Lilian Eça, a que assistira no canal Rede Vida e que o teria motivado a entrar com a ação. "Não foi só por isso, foi por uma convicção minha mesmo", disse ao Estado.

Ele interpreta que as pesquisas ferem o direito básico à vida, garantido pela Constituição, já que o embrião precisa ser destruído para a obtenção das células. "Há toda uma área científica mostrando que a vida começa na fecundação", disse.

Sobre o caso de Lilian, afirmou: "O importante não é a quantidade de títulos, mas a argumentação que se coloca. Eu não tenho doutorado e fui procurador da República, e não acho que minha atuação tenha sido comprometida por isso."  (O Estado de SP, 4/7)