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Bioen Afinado

Publicado em 14 junho 2010

Workshop do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia integra participantes de todos os seus projetos, estimula o desenvolvimento de pesquisas conjuntas e abre novos desafios científicos

O primeiro evento a reunir participantes de todos os 54 projetos do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), realizado nos dias 9 e 10 de junho em São Pedro (SP), produziu um panorama do programa e ajudou a iniciar um debate sobre as áreas críticas a serem enfrentadas.

"Vamos criar grupos de trabalho transversais que atinjam diferentes áreas a fim de desenvolver os pontos mais complexos que identificamos no workshop", disse Glaucia Mendes de Souza, uma das coordenadoras do Bioen, à Agência Fapesp.

No início do Bioen Research Workshop, cada pesquisador recebeu uma pasta com informações sobre as divisões do programa, resumos de todos os projetos de pesquisa e um diagrama com a descrição dos 28 subprojetos temáticos do programa para que identificasse a área em que seu trabalho está inserido.

"Incluímos no diagrama todas as áreas envolvidas no programa. Com as respostas dos pesquisadores, conseguimos uma visão mais detalhada de como os grupos podem interagir", disse Glaucia, que é professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP).

Com a organização foi possível identificar objetivos, desafios e infraestruturas disponíveis de cada trabalho e elaborar uma avaliação crítica de todo o programa.

Para isso foi estabelecido um comitê consultivo, composto por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que foram convidados para apresentar impressões sobre o Bioen e elaborar sugestões.

Um dos membros do comitê, a professora Patricia Osseweijer, da Universidade de Delft (Holanda), considera o Brasil um exemplo na pesquisa e no uso de bioenergia. Segundo ela, o país deveria diversificar as áreas de pesquisa em bioenergia e as matérias-primas dos biocombustíveis. "Com clima adequado e área suficiente para produzir vários tipos de biomassa, o Brasil não deveria se pautar somente na cana-de-açúcar", disse.

A pesquisa brasileira da cana-de-açúcar chamou a atenção de outro consultor, Paul Moore, do Hawaii Agricultural Research Center (Estados Unidos), que estuda esse vegetal há 40 anos.

"Nos Estados Unidos cheguei a trabalhar com um grupo de 60 cientistas estudando a cana, mas hoje temos apenas três pessoas. Aqui, vemos muito mais gente trabalhando na área e em assuntos extremamente empolgantes", disse o pesquisador. Moore destacou que o Brasil tem o maior grupo do mundo investigando e desenvolvendo a cana-de-açúcar.

O avanço brasileiro na genômica também foi apontado pelo cientista, que afirma ser essa uma área essencial para o desenvolvimento dos biocombusíveis, assim como a fisiologia vegetal. Mas a fisiologia vegetal, segundo ele, representaria um ponto fraco da pesquisa brasileira em biocombustíveis.

"Muitos pesquisadores são bons biólogos moleculares, mas possuem pouco conhecimento em fisiologia vegetal, por isso é preciso estimular a formação de fisiologistas", sugeriu.

Outro obstáculo apontado por Moore é a difícil interação entre as diferentes áreas do conhecimento envolvidas em projetos amplos como o Bioen. "Esse não é um problema exclusivo do Brasil, também nos demais países as diferentes ciências falam línguas distintas e não conseguem se comunicar entre elas porque não se entendem. Esse é um ponto que esse workshop procurou resolver e estou certo de que foi bem-sucedido", afirmou.

Bioenergia 2011

A interação proporcionada pelo workshop também foi destacada por Marcos Buckeridge, professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP e membro da coordenação do Bioen.

O pesquisador contou ter estabelecido no evento contatos importantes que devem se transformar em redes de cooperação. Buckeridge e equipe identificaram genes responsáveis pelo aumento do teor de açúcar na cana quando submetida a altas concentrações de dióxido de carbono.

"Queremos passar as informações obtidas para o grupo da professora Helaine Carrer [da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP], de modo que possam ajudar no desenvolvimento de uma espécie com maior teor de açúcar sem a necessidade de mais dióxido de carbono", disse Buckeridge, que também é diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE).

A interação e o diálogo proporcionados pelo evento foram o ponto alto destacado por outro membro da coordenação do Bioen, Rubens Maciel Filho, professor do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

"O fato de o pesquisador ter que organizar o próprio trabalho para apresentá-lo a um público variado é um ótimo exercício de comunicação e de interação", disse Maciel, que lamentou o isolamento em que alguns pesquisadores costumam trabalhar.

Marie-Anne Van Sluys, professora do Instituto de Biociências da USP e membro da coordenação do Bioen, elogiou a participação e o interesse dos pesquisadores do programa.

"Pessoas envolvidas em diferentes estudos ficaram até o fim do workshop para assistir apresentações de outras áreas, o que demonstra disposição e abertura para a interação", disse Marie-Anne, que avaliou o evento como extremamente positivo para se conhecer os participantes e enxergar o Bioen em toda a sua dimensão.

A participação de muitos pesquisadores jovens no programa causou a admiração de Richard Templer, professor do Imperial College de Londres (Reino Unido), que participou do quadro consultivo do workshop.

"É um ótimo sinal ver uma nova geração de cientistas conduzindo pesquisas e se destacando", disse Templer. Segundo ele é muito comum, em outros países, destinar os jovens a papéis secundários nos projetos de pesquisa, tornando muito mais difícil o início da carreira científica.

De acordo com o professor britânico, para alcançar a projeção científica internacional almejada, o Brasil deveria olhar mais para as pautas que regem a pesquisa mundial.

"O Brasil faz com competência a pesquisa voltada às suas necessidades e isso não é ruim. No entanto, se o país quiser figurar mais nas publicações internacionais deveria se perguntar quais são as questões nas quais o mundo está de olho", afirmou.

O trabalho do quadro consultivo foi elogiado por Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas e membro da coordenação do Bioen. "É muito importante termos uma visão isenta vinda de especialistas de fora. Eles conseguem detectar pontos que nós não enxergaríamos", afirmou.

Além dos três especialistas do exterior, o quadro consultivo contou com a participação de José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP, Hernan Chaimovich, coordenador dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Ao final do evento Glaucia anunciou a formação de um novo grupo de trabalho que agrupará pesquisas em microbiologia industrial. "Usaremos as respostas apresentadas nos diagramas para reavaliar o programa e talvez criar outros grupos", adiantou.

A coordenadora do Bioen também anunciou a realização da Conferência Internacional de Bioenergia, a ser realizada em agosto de 2011 na cidade de Campos do Jordão. "Queremos que esse evento se torne uma referência mundial em bioenergia e que seja realizado a cada três anos", disse.

Também outros workshops farão parte da programação do Bioen, segundo Glaucia. "A próxima reunião do porte do Bioen Research Workshop deverá ocorrer dentro de um ano e terá uma estrutura um pouco diferente. Destacaremos algumas conferências entre os grupos e haverá sessões paralelas e gerais", disse.

Programa Bioen: www.fapesp.br/bioen

(Fabio Reynol, Agência Fapesp, 14/6)