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Revista Brasil-Alemanha

Bioeconomia, o futuro para os setores agrícola e industrial

Publicado em 01 setembro 2015

Por Vladimir Goitia

Considerada a nova fronteira e o novo paradigma do desenvolvimento econômico, a bioeconomia começa a se consolidar como uma das maiores prioridades estratégicas de países desenvolvidos e a tomar corpo em algumas nações emergentes, como o Brasil, onde as vantagens comparativas em matérias-primas renováveis, principalmente pela sua biodiversidade e sua riqueza em recursos naturais, começam a chamar a atenção dos investidores.

Embora esses aspectos sejam o principal foco do interesse de empresas estrangeiras, ações e aplicação de recursos nessa nova área de economia ainda estão aquém do potencial do País, na avaliação de Danilo Igliori, professor doutor no Departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Para ele, ainda há alguns aspectos a serem superados para que o Brasil consiga aproveitar mais e melhor suas vantagens comparativas.

“A meu ver, existem dois conjuntos de motivos, um macro e outro micro. Na escala macro, incertezas sobre o futuro da economia e os baixos índices de confiança, os quais que vêm a reboque, têm deprimido os investimentos da indústria em geral, particularmente aqueles que envolvem conteúdos inovadores”, explica o professor. No caso micro, segundo ele, “os marcos regulatórios também não favorecem, principalmente em função das dificuldades relacionadas à proteção de propriedade intelectual”.

Apesar desses entraves, Igliori avalia que existem diversas áreas promissoras para alavancar bons projetos e negócios no território nacional. “Mencionaria particularmente os segmentos de cosméticos, medicamentos e agribusiness, além de todas as frentes relacionadas a tecnologias ambientais, como tratamento de resíduos, entre outros”, aponta o professor da USP, também PhD pela Universidade de Cambridge, onde lecionou no Department of Land Economy.

Basicamente, a bioeconomia busca o aproveitamento biotecnológico de matérias orgânicas renováveis como alternativa limpa e sustentável a economias dependentes de recursos fósseis. Especialistas ao redor do mundo avaliam ser muito provável que aproximadamente 75% da contribuição à economia do futuro, por meio da biotecnologia, venha dos setores agrícola e industrial.

Eles sustentam que três aspectos básicos precisam ser levados em conta para a consolidação da bioeconomia. Primeiro, o uso dos avanços científicos em genética para desenvolver processos e produtos. Depois, a utilização de biomassa renovável e de bioprocessos eficientes em favor da produção sustentável. E, finalmente, a integração dos conhecimentos e aplicações biotecnológicas em áreas como a agricultura e indústria. “Ao olhar para o sucesso do nosso setor agrícola, não tenho dúvidas de que o Brasil tem grande potencial para ser um país central no desenvolvimento da bioeconomia”, pondera o professor da USP.

E é no campo de biomassa que o Brasil deu passos gigantescos, de acordo com Glaucia Souza, coordenadora do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia. “O Brasil já é, digamos assim, profissional em matéria de biomassa, e, nos últimos anos, conseguiu avanços incríveis em bioenergia e no aproveitamento de recursos orgânicos renováveis”, explica a professora e pesquisadora da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Souza conta que, no campo energético, apenas 0,5% de área plantada com cana-de-açúcar já contribui com 19% na matriz energética do País. Não custa lembrar que, da cana, já é possível produzir plástico e outros produtos denominados verdes. Agora, acrescenta a professora, “precisamos montar outros modelos de negócios”.

Souza não deixa de ter razão. No âmbito da indústria de transformação, o Brasil está bem aquém do seu potencial. E ainda precisará superar inúmeros entraves legais e criar um marco regulatório que traga segurança jurídica para estimular negócios voltados à biodiversidade.

A legislação que disciplina o acesso ao patrimônio genético, por exemplo, não está apenas superada pelo seu atraso como também dificulta o acesso dos pesquisadores ao exigir autorização do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). “Apesar desses impasses, que também recaem em questões políticas, a indústria está trabalhando para romper todos esses obstáculos”, diz Maria Cláudia Nunes Pinheiro, analista de Políticas e Indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Pinheiro, que coordena assuntos de propriedade intelectual e bioeconomia dentro da entidade, lembra que, em 2013, a CNI divulgou uma agenda sobre o desenvolvimento da bioeconomia no Brasil, na qual aponta os caminhos que a indústria nacional precisará percorrer para aumentar os níveis de produtividade e eficiência e alcançar um elevado grau de competitividade, respeitando os critérios de sustentabilidade.

“As oportunidades para o crescimento da bioeconomia no mundo estão relacionadas ao aumento da população e seu envelhecimento, à renda per capita, à necessidade de ampliação da oferta de alimentos, à saúde, energia e água potável, bem como às questões que envolvem as mudanças climáticas”, resume o trabalho da CNI, que teve a contribuição de quase 400 especialistas interessados no assunto. Previsto para ocorrer em outubro deste ano, em São Paulo, o 4º Fórum sobre Bioeconomia organizado pela instituição acabou sendo adiado para o ano que vem por problemas de agenda da entidade e de convidados internacionais.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que em 2030, a população mundial se aproximará de quase 8,5 bilhões de pessoas, cerca de 30% a mais do que em 2005. Acredita ainda que a renda global per capita venha a aumentar 57%, passando de US$ 5,9 mil, em média, para US$ 8,6 mil. Isso, segundo a OCDE, deve fazer com que a população, numerosa e com mais recursos, demande significativamente produtos e serviços sanitários destinados a melhorar e alongar a qualidade e a estimativa de vida, além de necessitar cada vez mais de recursos naturais básicos como alimentos.

Ao mesmo tempo, a OCDE alerta que muitos ecossistemas que abastecem a população já estarão esgotados ou serão insuficientes. E a mudança de clima pode agravar ainda mais os problemas ambientais afetando o fornecimento de água e a produtividade agrícola. É aqui que a economia do futuro trará a sua maior contribuição, com soluções coerentes, eficazes e concretas para os grandes desafios sociais, informa a OCDE. Vá- rios países europeus, como Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Irlanda e os Países Baixos, já têm estratégias ambiciosas próprias em matéria de bioeconomia. Outros, como Canadá, China, Estados Unidos e África do Sul, também. A OCDE estima que na União Europeia, a nova economia movimente hoje cerca de 2 trilhões de euros e gere cerca de 22 milhões de empregos.